Groovin’ Jazz: 10 lançamentos de janeiro de 2016 que você tem que ouvir

Novos discos de Dr. Lonnie Smith, Erik Truffaz, Tamara Lukasheva e mais



Desde que o Na Mira publicou seus primeiros posts, em 2010, tinha como uma de suas premissas divulgar mais sobre o cenário jazzístico.

O gênero foi aparecendo timidamente nos anos subsequentes, mas tem ganhado mais destaque por aqui, justamente pela falta de conteúdo relevante sobre o assunto, principalmente nas páginas e blogs brasileiros (uma das raras exceções é a coluna de Luiz Orlando Carneiro, no Jornal do Brasil).

No final do ano passado, publicamos uma lista com os melhores álbuns de jazz, um primeiro passo importante para que o gênero realmente ganhe mais espaço por aqui.

Com esta coluna, queremos nos tornar referência na busca dos melhores lançamentos de jazz.

Não há restrição para que um disco venha parar aqui: pode ser nacional, ucraniano, japonês. A cada mês iremos destacar um entre estes 10 lançamentos: não que ele seja melhor que os demais, mas talvez careça de mais atenção, por sua relevância.

Entretanto, temos algumas ressalvas quanto aos relançamentos, principalmente porque muitos críticos se apegam a eles ao destacar álbuns relevantes de jazz ao longo do ano.

Mire e veja, por exemplo, Miles Davis: todo ano tem pelo menos um relançamento com soberbo material inédito. Por mais que gostemos do trompetista, torcemos o nariz, porque acreditamos que poderíamos falar de outros grupos, outros solistas e outras cenas efervescentes de agora.

O tempo de Miles já se foi. De Charlie Parker, Duke Ellington e Louis Armstrong também. Eles descansam em paz e, se tiverem acompanhando o que acontece por aqui, onde quer que estejam, também prefeririam conhecer do que revisitar. O jazz vive e respira como nunca.

Confira os 10 melhores lançamentos de jazz do mês de janeiro (em ordem alfabética):

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Hidden Voices

Aruán Ortiz Trio

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 29 de janeiro de 2015

As progressões de acordes do pianista cubano Aruán Ortiz pertencem à tensão do avant-garde. Vijay Iyer é um dos contemporâneos mais associáveis à sua obra, mas o peso da tradição jazzística de Cuba e a polirritmia latina o levam a estruturar seu estilo entre clusters, riffs e curtos solos. Ao seu lado, Ortiz conta com o baixista Eric Revis e o excelente baterista Gerald Cleaver. Ele refaz clássicos, como Ornette Coleman (“Open & Close/The Sphinx”, de Something Else!!!) e Thelonious Monk (“Skippy”), injetando uma dinâmica intrincada que distorce o ritmo e favorece uma conjuntura imagética, com um peso grave do piano. Pouco clarividente, Hidden Voices estimula uma busca subjetiva por suas reais origens, ligeiramente apontadas no caráter percussivo de “Caribbean Vortex” ou no distinto caminhar de notas em “Arabesques of a Geometrical Rose (Spring)”.

Ouça: disco na íntegra


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Un Cambio

Chinchano

Gravadora: Skiptone Music
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2016

Juan Pastor ‘Chinchano’ se especializou em percussão afro-peruana em Lima. Ele estudou música clássica, mas se interessou de vez pelo jazz e, depois, foi para Chicago. Claro que isso fez muito bem a ele: permitiu que criasse um amálgama entre a sua técnica, valiosa no eixo latin-jazz, às possibilidades rítmicas do gênero norte-americano. Un Cambio é o segundo álbum de Chinchano, que assume bateria e percussões, sugerindo andamentos que antecipam viradas do bop ao folk peruano. O quinteto é completado por Stu Mindeman (piano/teclados), Rich Moore (sax alto), Marquis Hill (trompete) e Patrick Mulcahy (baixo). Eles expandem os horizontes tanto do jazz, como da música peruana, flertando com o som de Cuba (“Marea Alta”), o dodecafonismo do avant-garde europeu (“Pisando Tierra”) e, claro, todo o swing latino (“Bluestejo”).

Ouça: disco na íntegra


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Evolution

Dr. Lonnie Smith

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 28 de janeiro de 2016

Quando se fala em órgão no jazz, é muito fácil se deparar com o termo ‘soul-jazz’. Nos anos 1960, esta vertente fez considerável sucesso, e Dr. Lonnie Smith tem boa fatia de participação nisso aí. Discos como Think! (1968) e Turning Point (1969) mostraram de cara que seu groove intrincado era mais uma característica personalista que parte constituinte de uma cena. Após o lançamento de Drive, em 1970, ele saiu da Blue Note – para retornar somente mais de 45 anos depois, com Evolution. E, se você acha que seria difícil para um instrumentista de 73 anos se ‘atualizar’, está enganado. De cara, ele inicia envolvente em “Play It Back”, ao lado de Robert Glasper. O excepcional saxofonista Joe Lovano participa de duas faixas: “Afrodesia” e “For Heaven’s Sake”. Dois clássicos de consagrados são retomados de forma nada convencionais: “Straight No Chaser” (clássico de Thelonious Monk tirado pela guitarra de Jonathan Kreisberg) e “My Favorite Things” (de John Coltrane, numa versão meio orquestrada por seu Korg). Mostrada pela primeira vez, “Talk About This” é um funk-jazz feito para dançar, com as distorções belamente cortinadas pelo Doutor. Sim, ele sabe o que faz.

Ouça: “My Favourite Things”


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Doni Doni

Erik Truffaz Quartet

Gravadora: Parlophone
Data de Lançamento: 21 de janeiro de 2016

Ultimamente os europeus tem se encantado bastante com os músicos do Mali (vide St Germain). O trompetista suíço Erik Truffaz sugeriu uma ponte musical, pegando carona com a viajada (e premiada) Rokia Traoré, que dá boas vindas em “Comptine” e aparece ocasionalmente em faixas como “Djiki’n” e “Seydou”, estimulando o trompetista a criar acompanhamentos melódicos, uma de suas principais características musicais. Elas são melhor desenvolvidas nos takes somente com o quarteto (com Marc Erbetta na bateria, Marcello Giuliani no baixo e Patrick Muller nos teclados), como em “Pacheco”. E para quem achava que o trompetista de 55 anos havia perdido seus momentos arrebatadores, vai se maravilhar com as possibilidades rítmicas que o Fender Rhodes estimula de suas notas: elas voam, voam, até que, distanciadas, retornam com toda a força da gravidade, como um gavião em busca de sua presa. Destaque, também, para o contraponto da bateria dodecafônica com o trompete sereno de Truffaz, em “Fat City”: é onde ele exerce sua função Miles Davis circa In A Silent Way (1969).

Ouça: “Djiki’n”


EM DESTAQUE

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Finest

George Adams

Gravadora: Dopeness Galore/Timeless
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2016

George Adams era um ás do sopro no free-jazz dos anos 1970. Começou tocando na banda de Roy Hanes (em ‘Hip Ensemble’, de 1971), mas ficou famoso por tocar com Charles Mingus e Gil Evans. Em 1975 saiu seu primeiro álbum, ‘Jazz A Confronto 22’, que selou sua parceria com o exímio pianista Don Pullen. Adams e Pullen compartilhavam de uma mesma sintonia: a ligação entre o R&B e avant-garde. Por mais distantes que estivessem, os gêneros ululam nos clusters de Pullen, ou nos chorus intensos do sax, do clarinete-baixo ou da flauta de Adams, formando uma das melhores parcerias do post-bop daquela década. Eles, claro, não estavam sozinhos: para materializar as intensas buscas sonoras da dupla, o baixista Cameron Brown e o baterista Danny Richmond estavam habituados a criar bases instigantes para estes virtuosos – ainda que, por exemplo, em “Decisions” seja a dupla que mantenha a forte dinâmica de seus instrumentos em joguete. Nesta honrosa compilação, o selo Dopeness Galore reúne o melhor do que George Adams lançou pela Timeless Records, entre os anos 70 e 80 – como ‘Paradise Space Shuttle’ (1979) e ‘Melodic Excursions’ (1982). Mesmo que o título seja pomposo, é pouco para exemplificar a joia deste trabalho. Adams morreu em 1992, com apenas 50 anos. Se ainda não tem a consagração que merece, eis o lançamento ideal para revisitar sua genialidade.

Ouça: “City Gates”






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Keep It Dark

Joe Haider Jazz Orchestra

Gravadora: Double Moon
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2015

Falar das orquestras de jazz do pós-guerra é, naturalmente, lembrar de Stan Kenton e Woody Herman. Nesse período, a Alemanha também revelou importantes instrumentistas que permaneceram ‘ocultos’ durante os anos sombrios do III Reich (Kurt Edelhagen foi o principal). Por isso, não deixa de ser impressionante que Joe Haider, um desses bandleaders geniais do pós-guerra, continue em atividade. Para comemorar o aniversário de 80 anos, ele reuniu um time com 6 instrumentistas de sopro, um quarteto de cordas e uma extensa seção rítmica. Ele inicia o disco com dramática versão de “The Single Petal”, do mestre Duke Ellington. As oito faixas seguintes são todas de autoria de Haider. Ele exibe um sincretismo autárquico em suas incursões: lembra um garoto siciliano no bop “Josefa”, cria uma epopeia emocionante que remonta ao fim da II Guerra (“Fears From the Past”), faz versão própria de um jazz latino tão sincopado como deve ser (“Joe’s Calypso”) e dedica belíssima homenagem à mãe em “Maria Magdalena”, tomado por arcos sentimentais em que cada nota de violino e violoncelo antecipa uma lágrima. Não há maneira melhor de comemorar o aniversário de Haider do que contemplar este belo registro.

Ouça: “Keep It Dark”


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Dance

Octave Inc.

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 28 de janeiro de 2016

O símbolo pode ser de um polvo, mas, para o EP de estreia, o quarteto australiano escolheu um flamingo, ave símbolo de Trinidad e Tobago. A coloração de Dance de alguma forma me remete ao som de Rudy Smith, famoso por seu uso inovador do tambor de aço – instrumento muito associado à cultura tobaguiana. Entrementes, Michael Slater (sax), Andrew Jeon (guitarra), Tom Raw (baixo) e John Sutherland (bateria) afirmam criar “uma fusão de jazz, pop e folk”. Que fique claro: não é se apegando a nenhum formato convencional deles. Na faixa-título, a síncope eletrônica cai para um som florido, belo, que nos faz pensar em imagens da natureza. “Broken Branch”, por outro lado, é swingante, com claros resquícios caribenhos, pela desenvoltura de Slater.

Ouça: disco na íntegra


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Paquito & Manzanero

Paquito D’Riviera & Armando Manzanero

Gravadora: Sunnyside/Paquito Records
Data de Lançamento: 22 de janeiro de 2016

Todas as canções deste disco são clássicos do cantor mexicano Armando Manzanero, mas ele canta em apenas três delas: “Esta Tarde Vi Llover”, “Por Debajo de La Mesa” e “Parece Que Fue Ayer”, exibindo impressionante limpidez, mesmo com seus 80 anos de idade. O saxofonista e clarinetista Paquito D’Riviera traduz seu pan-americanismo musical em lindas baladas no soprano, como em “Llevatela”, mas é amplamente beneficiado por seu grupo, especialmente o pianista Alex Brown e o contrabaixista Carlos Henriquez. Em “Mia”, o clarinete do cubano e o flugelhorn de Diego Urcola são ambientados em tempos de calmaria e serenidade, como se convidassem o ouvinte ao quintal para tomar um chá ou um café e contemplar, só contemplar. Na primeira faixa, “Amanecer”, é quase impossível não se lembrar do jazz brasileiro, mas a intensa coesão da banda é melhor sentida em “Voy a Apagar a La Luz”, bop sensacional, onde todos os músicos entram num joguete bem conduzido e evidenciam, democraticamente, suas habilidades muito acima da média.

Ouça: “Somos Novios”


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Reich Durch Jazz

Reich Durch Jazz

Gravadora: Trouble in the East
Data de Lançamento: 11 de janeiro de 2016

O pouco que se sabe deste quinteto alemão deve-se às audições deste álbum de estreia. Formado por Johannes Fink (violoncelo), Gerhard Gschlößl (trombone), Michael Griener (bateria), Rudi Mahall (clarinete-baixo) e Jan Roder (contrabaixo), o Reich Durch Jazz faz um trabalho intrincado de cordas que tem flerte total com o avant-garde, mas em muitas vezes se sobressai como o típico som de bares de luz baixa que se sustentam por notas econômicas. Existe uma química sombria por trás de faixas como “Avignon” e “Idiosyncratic”. A inspiração rítmica do modal pode ser bem sentida em “Neulich im Valentin Stüberl” e “Reich Durch Pfand”. Não há muitas explosões sonoras, o que faz de Reich Durch Jazz um disco de detalhes a serem explorados. Se compensa? Claro!

Ouça: “Neulich im Valentin Stüberl”


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Patchwork of Time

Tamara Lukasheva

Gravadora: Double Moon
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2016

O talento da ucraniana Tamara Lukasheva, 27 anos, vem de berço: seus pais eram jazzistas e, além disso, ela aprendeu voz e piano no Colégio Musical de Odessa. A partir de 2010, ela aprofundou seus estudos na Alemanha e não saiu mais de lá. Com o quarteto, completado pelos alemães Sebastian Scobel (piano), Jakob Kühnemann (baixo) e o suíço Dominik Mahnig (bateria), Tamara ambienta seus scats em paisagens planas, que pegam o trem do jazz clássico na ótima parceria com Liora Rips (“Nicht Film Musik” e “Gockl am Hof”) e tem lá seus traços de bebop em “Integration”. A dinâmica vocal de Tamara é arrepiante, porque traz frescor e não tem medo de perpassar pelo estranho em meio a melodias intrincadas. Quando decide cantar mesmo, seja em inglês (“Alone Together”) ou ucraniano (“Sag Deiner Sonne”), o som impacta por sua capacidade de flexibilizar com arrancadas rítmicas e melódicas.

Ouça: “A Patchwork of Time”





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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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