Groovin’ Jazz: Encontros acadêmicos de Vijay Iyer e Tyshawn Sorey, a comunicação do Radio Diaspora e mais

Confira também lançamentos de Kathrine Windfeld, Nubya Garcia, Ephemera Obscura e mais

O jazz foi para a academia e aprendeu muitas, muitas coisas. Primeiro, que é possível linkar referências da música popular norte-americana com as variadas expressões da música clássica, principalmente Romantismo, Renascença e dodecafonismo.

Mas, a grande lição que caras como Vijay Iyer, professor do departamento de música de Harvard, e Tyshawn Sorey (foto), que acaba de assumir a cadeira de Anthony Braxton na Universidade Wesleyan, é que esse ambiente tem muito a contribuir para a originalidade de novos temas.

Iyer e Sorey já trabalharam juntos algumas vezes (inclusive o baterista toca com Iyer em Far From Over, que detalhamos abaixo), mas têm explorado rumos diferentes nos diversos projetos em que atuam. Sorey, por exemplo, já foi pro lado de Stockhausen e Webern no recém-lançado Verisimilitude.

Merece destaque também o poder das mulheres no jazz. Do comando de uma big-band (Kathrine Windfeld) a um instigante disco que retoma o formato tradicional (Nubya Garcia), elas têm ultrapassado todos os limites na habilidade de compor e solar, fazendo com que a cena jazzística se torne ainda mais rica. Confira Latency e Nubya’s 5ive e você vai entender onde quero chegar.

Outro projeto que você não pode deixar de ouvir: o brasileiro Radio Diaspora, dica do Floga-se. A dupla Romulo Alexis e Wagner Ramos fez da colagem e das influências do avant-garde um protesto contra o caos político no Brasil. Eles já estão no segundo disco, com uma expressão vigorosa e certamente muita indignação contra a onda de fake news e da distorção histórica que circula nas redes sociais.

Antes de conferir os 10 grandes destaques de jazz recentes, ouça nossa playlist no Spotify (ah, e segue a gente por lá também!)

Inminente

Carlos Saunier

Gravadora: Discografica del Sur
Data de Lançamento: 17 de agosto de 2017

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Ao lado de um instrumento expressivo como o sax-tenor, a guitarra naturalmente acaba adotando um segundo plano, principalmente quando seus solos estão despidos de efeitos wah-wah. O chileno Carlos Saunier, entretanto, não pensa assim. Mesmo com um sax-tenorista talentoso como Claudio Rubio (cuidadoso nos ritmos), Saunier acredita que o papel da guitarra no jazz não mudou muito com o passar dos anos. Seu quarteto segue a cartilha hard-bop com algumas influências da música caribenha. Seu arrojo prepondera nos 6 temas de Inminente, a começar pela faixa-título, que agrada pela dosagem de coesão e expressividade. “El Espiritu de la Escalera” tem uma pegada mais fragmentada, como se a guitarra se dissolvesse no som dos metais (quem toca sax-tenor nesta faixa é Maxi Alarcón). Com o avançar dos temas, o ouvinte percebe que é importante para o quarteto seguir uma mesma direção rítmica. É possível perceber como sax, guitarra, baixo e bateria soam unívocos, parte de uma essência só. Mas é no desenrolar dos temas que Saunier e seu grupo se destacam. Em “Franky”, sua guitarra brilha como pedra preciosa ao lado da bateria quente de Felix Lecaro. É um tipo de som noturno, que evoca belezas e, inexplicavelmente, nos remete a algo proibido, tal qual a sedução. Sem modéstia, o grupo afirma que Inminente “contém linguagem elaborada e complexa”. Uma breve audição mostrará que essa afirmação passa longe do academicismo; essa linguagem, na verdade, atualiza toda a magia de se contemplar um bom grupo de jazz, algo que nem sempre pode ser traduzido por palavras.


MiND GAMeS

Ephemera Obscura

Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 7 de julho de 2017

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Entre a composição e a livre improvisação há muito mais que técnica. A necessidade de preenchimento sonoro leva muitos músicos a ideias variadas que extrapolam qualquer senso de classificação estética. Do dodecafonismo à ambient music, as influências são difíceis de ser quantificadas em discos como MiND GAMeS, do quarteto de Portugal Ephemera Obscura, formado pela irrequieta saxofonista Angelika Niescier, o pianista Denman Maroney, o baixista James Ilgenfritz e o percussionista Andrew Drury. Propositalmente intrincado, o disco cativa de primeira por intercalar ganchos rítmicos que remontam a algo tradicional em “Harkinsish” (com certeza você vai ficar pensando: ‘já me deparei com esta sequência de sax’). “Strip Mind” já é mais aérea, aquele tipo de free-jazz pausado, cuja dinâmica baixo-bateria ensaia algo matemático, quase interespacial. O tema “Ephemera Obscura” tem requintes de post-rock, por adotar o silêncio como principal motor. Se o ouvinte se deparasse apenas com a capa do disco e um trecho deste tema, certamente o colocaria próximo a um disco do Godspeed You! Black Emperor. Como diz o texto de divulgação, o grupo “combina o melhor dos dois mundos: o cerebral e o sensitivo, sempre trocando os papéis”. Do silêncio à extravagância, do ambient ao free-jazz, do melancólico ao dinâmico, MiND GAMeS impõe um exercício aos sentidos do ouvinte, principalmente para que ele deixe de reservar espaços preconcebidos ao se deparar com uma soma tão gigantesca de referências e estilos.


Latency

Kathrine Windfeld

Gravadora: Stunt
Data de Lançamento: 7 de julho de 2017

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Para impressionar, as big bands atuais precisam ser criativas. Músicos como Duke Ellington e Gil Evans ensinaram que é possível chegar a ótimos resultados a partir da composição, ensinamento que tem atingido um outro nível com Maria Schneider e segue surpreendendo, como nos prova Kathrine Windfeld. Em Latency, segundo disco da dinamarquesa de 30 anos, piano e flauta são importantes protagonistas em temas como “Roadmovie” e “Elak”. Existe algo de admirável que é difícil de perceber: audições mais atentas da balada “Leaving Portland”, por exemplo, mostram rico detalhe nos arranjos. “Rude Machine”, que abre o disco, lembra os primeiros anos de Schneider, principalmente pelo diálogo criado entre a guitarra típica de jams com os metais. Os temas de Kathrine têm um tipo de groove raro que capta o passado com preciosidade, ao mesmo tempo em que mira num futuro de glórias. Isso se materializa de forma épica, como em “Rude Machine”, ou intensamente despojada – vide o trabalho dos trombones em “Wasp”. Mesmo com temas repletos de brilhantismo, vale destacar a faixa-título, que inova ao criar uma trilha única repleta de passagens estonteantes, alternadas por momentos de serenidade que acompanham as expectativas de ouvintes que se deixam guiar por emoções inesperadas.


Book I of Arthur

Logan Strosahl

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 25 de agosto de 2017

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Em busca de novos desafios musicais, muitos jazzistas têm se apegado à história e à antropologia para contar, reinterpretar e discutir eventos importantes do passado. Enquanto instrumentistas talentosos como Matana Roberts e Christian Scott têm se aprofundado bastante nas raízes do povo negro norte-americano, outros, como o saxofonista Logan Strosahl, têm dado um novo sentido a histórias épicas. Em Book I of Arthur, o foco é a história do Rei Arthur, no território onde hoje fica o Reino Unido lá no século V. Para essa empreitada com ares de ópera, ele formou um octeto: Strosahl no sax-alto, Michael Sachs no clarinete, Sam Decker no sax-tenor, Aquiles Navarro no trompete, Nick Sanders no piano, Connor Baker com a bateria, Henry Fraser no baixo, além das narrações de Julia Easterllin, intercaladas com o próprio Strosahl. Discos temáticos lembram muito o universo do metal alternativo e do progressivo, mas o que se tem em Book I of Arthur é algo totalmente inovador. Com uma proposta que lembra muito o revolucionário Escalator Over the Hill (1971), de Carla Bley, o álbum separa suas peças a partir da individualidade de múltiplos personagens. Em “Igraine Gives the Infant Arthur to Ector”, por exemplo, paira a angústia de um jovem que precisa se manter escondido. O pano de fundo sonoro é típico de uma trama, que se intensifica na aventureira “The Woods So Wild” (com belos riffs de Sachs) e lembra o som de uma orquestra do pós-II-Guerra em “Battle of Bedegraine”, um tema do qual Stan Kenton certamente se regozijaria. Strosahl disse que é fascinado pela música polifônica dos séculos XVI e XVII, época de gênios como Monteverdi e Pierluigi da Palestrina. Percebe-se o Renascentismo como influência pelo tom sacro que prepondera durante o disco inteiro. É nos arrojos das entradas de Strosahl, porém, que percebemos quanto o cruzamento do jazz com a música clássica está distante das obviedades. De duas influências seculares, saiu uma obra original, inovadora e, o melhor de tudo: instigante!


Nubya’s 5ive

Nubya Garcia

Gravadora: jazz re:freshed
Data de Lançamento: 9 de maio de 2017

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Anote mais um nome no rol das grandes saxofonistas de jazz: Nubya Garcia. Um dos grandes nomes da cena de Londres, Nubya acumula a experiência de ter tocado jungle com Congo Natty, acid-jazz com o Melt Yourself Down e se superado ao lado dos experimentadores do Polar Bear. Mesmo assim, em seu primeiro álbum, ela mostrou que tem força mesmo é pro free-jazz. Ah, e ela não é a única grandiosa do quinteto formado para Nubya’s 5ive: o baterista Moses Boyd é um monstro, e o baixista Daniel Casimir (que lançou disco recentemente também pelo ótimo selo jazz re:freshed) faz como poucos a ligação com o piano que mistura arpejos e clusters, de Joe Armon-Jones. Com uma pancada atrás da outra, Nubya’s 5ive retoma aquele estilo de álbum clássico de jazz: com 5 temas no máximo, entre 7 e 9 minutos cada, explorando o melhor de cada instrumentista. Não há conceito por trás da cozinha de “Fly Free” ou na belíssima “Contemplation”, que parece narrar uma bela história cheia de aventuras, emoções e desafios. Sua contribuição coletiva remete à importância das pessoas com quem cruzamos em nossas vidas. O tema “Hold” é apresentado em duas versões: a primeira, mais elaborada, mostra como o desenrolar temporal é importante para a dinâmica do grupo. Já o take alternativo é mais nevrálgico, com um solo estarrecedor de Nubya, um nome para guardar e ficar bem atento com o que vem por aí.


Radio Diaspora 2

Radio Diaspora

Gravadora: Sê-lo Net Label
Data de Lançamento: 21 de agosto de 2017

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O termo “Radio” pressupõe comunicação verbal e sonora. “Diaspora” é um conceito de identidade transcultural de indivíduos que saíram forçados de sua terra de origem por algum tipo de perseguição. Junte os termos e tem-se o propósito deste projeto da dupla Romulo Alexis (trompete, flauta e instrumentos de sopro) e Wagner Ramos (bateria). O jazz de Radio Diaspora 2 (sucessor do EP Radio Diaspora, de 2016) é ancorado numa linguagem que preserva a língua falada dentro de um plano frenético de experimentalismo que reflete sentimentos, revelias e a bagunçada dinâmica dos muitos povos no contexto de identificação nacional. Por isso mesmo, temas como “Kalunga Grande” – em que os tambores favorecem uma declamação dramática e, ao mesmo tempo, violenta – e o free-jazz de “Meninos”, que destila o pastiche televisivo com intermináveis repetições em meio a gritos, são destinados a todos que assistem, participam e contribuem para a exclusão ou inclusão das diferentes culturas no plano social. O viés político de Radio Diaspora 2 explora insistentemente as declarações midiáticas de temas como diminuição da maioridade penal (“Meninos”) e a herança de anos de escravidão na construção de identidade do negro brasileiro (“Blackbird”). Em tempos em que identidades se confundem com planos ideológicos, o projeto Radio Diaspora retoma a linguagem polifônica de herança africana, insere-a no contexto de domínio político-midiático e chacoalha a mente dos ouvintes em busca de uma reflexão, de chocar, de conscientizar. Romulo e Wagner não têm controle dos efeitos que a obra pode causar em cada um, mas domam a forma, o conteúdo e a mensagem de um disco que tem muito, mas muito a comunicar.


To The Animal Kingdom

Rasmussen/Dorji/Damon

Gravadora: Trost
Data de Lançamento: 25 de agosto de 2017

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Quem quiser acompanhar o free-jazz na atualidade precisa ficar atento com os lançamentos da gravadora austríaca Trost Records. Este selo reúne uma vastidão de nomes desconhecidos, mas cheios de energia e criatividade, principalmente quando o assunto é música improvisada. To the Animal Kingdom, do trio Mette Rasmussen (sax-alto), Tashi Dorji (guitarra) e Tyler Damon (bateria), já pode ser considerado uma das grandes joias do selo. Eles exercem um tipo de jazz astronômico que potencializa a força em carga máxima, de todos os instrumentos, ao mesmo tempo. Na longa “To Life”, com mais de 20 minutos, o trio soube como criar um enredo para fazer com que essas reproduções explosivas façam sentido para o ouvinte, num tipo de ambiência cinzenta com espaços preenchidos pelos efeitos de Dorji, experiente músico do Butão que tem trânsito num tipo de rock espacial. A faixa-título, que abre o disco, já coopta de cara amantes de free-jazz. O estilo de Rasmussen é tão esparso como o de Marshall Allen (Sun Ra Arkestra): ele toca como se tivesse numa aventura interplanetária, desviando de uma intensa chuva de meteoros. Ah, e não podemos esquecer também da hercúlea presença de Damon: da verve tribal da faixa-título ao som milimétrico de “To The Heavens and Earths”, o músico se mostra um catalisador climático, ligando universos e distintas referências do avant-garde que vão de John Cage a Billy Higgins. O resultado? Certamente um dos álbuns mais intensos de free-jazz que você vai ouvir este ano.


Verisimilitude

Tyshawn Sorey

Gravadora: Pi
Data de Lançamento: 4 de agosto de 2017

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Jazz e serialismo têm muito em comum, embora o pano de fundo histórico dos dois seja praticamente antagônico (enquanto um veio da expressão popular, o outro veio da academia). Neste século, Vijay Iyer têm rompido essas trincheiras, só que por uma via muito cara ao jazz: o virtuosismo. Com doutorado recém-completado, em maio de 2017, o baterista Tyshawn Sorey já fundamentou uma base própria nessa conexão jazz-serialismo. Com o elogiado The Inner Spectrum of Variables, o minimalismo se encaixou numa concepção estética anacrônica. O cara que aprendeu muito com Roscoe Mitchell, em Duets, e substituiu Anthony Braxton na cadeira da Universidade Wesleyan, desenvolveu um estilo próprio de compor que parece mais ambient do que jazz. Morton Feldman e Iannis Xenakis são duas referências pelo trabalho exploratório com cordas e sons da pré-eletrônica. A percussão raramente segue uma linha contínua aqui: Sorey deixa o andamento para o piano de Cory Smythe. O baterista até traz uma sucessão percussiva em “Obsidian”, mas trabalha cuidadosamente as pontuações, como se as baquetas se movimentassem sobre distintas camadas sonoras. Uma batida de bumbo para, segundos depois, ir para os chimbais… Silêncio… Piano, baixo, marcação melódica, ensaia um movimento… Os 5 temas de Verisimilitude precisam ser ouvidos como um todo. Sorey é detalhista e compõe num estilo imagético que parece fragmentário, mas se revela completo dentro de uma infinitude própria, sem começo nem fim.


Don’t Blink

Unhinged Sextet

Gravadora: OA2 Records
Data de Lançamento: 18 de agosto de 2017

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Formado no estado do Arizona, nos EUA, o Unhinged Sextet trabalha um som dinâmico que, de cara, lembra o post-bop dos The Messengers do comecinho dos anos 1960. Por mais que as referências sejam tradicionais, elas traduzem pouco a rica dinâmica que se encontra aqui. Don’t Blink é o segundo disco do sexteto liderado pelos saxofonistas Will Campbell (sax-alto) e Matt Olson (sax-tenor) – o primeiro, Clarity, foi lançado em 2015. Campbell e Olson aproveitam a sonoridade de seus instrumentos para construções melódicas. Assim, o baixista Jon Hamar tem espaço para brilhar em temas como “The Swinger and The Saint”, com um estilo de liderança que remete a Charles Mingus. O diálogo entre o pianista Michael Kocour e o baterista Dom Moio é essencial para a formatação instrumental do grupo. Ao mesmo tempo que a dupla permite mais liberdade por parte de Hamar, Kocour-Moio formam a base para os solos de metais. Em “None the Wiser”, por exemplo, quase todos têm este espaço – mas quem realmente se destaca é o trompetista Vern Sielert, especialista acadêmico da Escola de Música Lionel Hampton, da Universidade de Idaho (EUA). Sielert também toca flugelhorn com notas assertivas, com um estilo firme que se adapta à (firme) presença do instrumento. O som de Don’t Blink é versátil, respeitando as regras de justaposição tão caras ao hard e post-bop. Por isso mesmo, ele poderia ter sido lançado nos anos 1970, ou 1990, ou mesmo ser parte integrante do movimento dos Young Lions, do clã Marsalis. No entanto, o agradável resultado prevalece diante da expressão. Sem a necessidade de se provar contemporâneo, Don’t Blink prova que a boa forma ainda instiga a criatividade no jazz. E isso, claro, é atemporal.


Far From Over

Vijay Iyer Sextet

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 25 de agosto de 2017

Encontre no site oficial

Como um pianista de técnica complexa como Vijay Iyer tem tanta visibilidade dentro do cenário pop que outros contemporâneos não desfrutam? Como geralmente acontece com grandes jazzistas hoje: vínculo com algum ato, ou nome, ou música consagrada neste cenário. Parte dessa popularidade veio quando Iyer lançou Accelerando (2012), em formato trio, trazendo versões arrojadas de hits como “Human Nature” (Michael Jackson) e “Mmmhmmm” (Flying Lotus). Foi a partir dessa abordagem que um disco em duo com Wadada Leo Smith foi ganhar um review positivo na Pitchfork – e não foi só isso: entrou na lista do site indie dos melhores discos de 2016! No formato sexteto, ele mostrou que soube como relativizar o academicismo à dinâmica do jazz. Nada é previsível em Far From Over, que já começa estonteante com “Poles”, num duo espetacular de sax-alto (de Steve Lehman) e sax-tenor (Mark Shim). Outro experiente que toca com Vijay é o baterista Tyshawn Sorey, que executa um tipo de jazz ácido totalmente contrário aos seus experimentos com serialismo (conforme detalhamos acima, em Verisimilitude). Em “End of the Tunnel”, a atmosfera fugidia é construída pelo flugelhorn de Graham Heynes, que intercala a sonoridade fritada com os eletrônicos. Mas a cortina de tudo isso é de Iyer. Em “Nope”, ele adapta seu piano virtuoso a um som mais coletivo – não sem antes de um início solitário. “Down to the Wire” mostra que a personalidade ágil, que coloca jazz e clássico numa transversal estilística, só tem a favorecer os caminhos explorados, não importa de que forma seja. Em “Into Action”, ele ensaia um thriller, com início, desenvolvimento, meio e fim. É ele quem começa e quem termina a peça, com a sabedoria e destreza de quem sabe que jazz é muito mais que virtuosismo.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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