Saxofonista David S. Ware, um dos maiores nomes do free-jazz, morreu em 2012

G. Álbuns: David S. Ware | Wisdom of Uncertainty (1997)

O free-jazz ressurgiu com força nos anos 1990 – e o quarteto deste saxofonista teve importante papel de protagonismo

Gravadora: AUM
Data de Lançamento: 16 de setembro de 1997

Desde que chegou para subverter o universo jazzístico, nos anos 1960, o free-jazz ganhou contornos cada vez mais particulares dos instrumentistas. Por conta disso, a livre improvisação tornou-se cada vez mais desafiadora, embora as referências obrigatórias ainda permaneçam: AACM, Art Ensemble of Chicago, Globe Unity Orchestra e, claro, o pai Ornette Coleman.

Na transição dos anos 1980 para 90, os Young Lions atraíram a atenção de quem achava que o jazz estava fugindo demais de seus preceitos clássicos, motivados pelo discurso do clã Marsalis de que o bop seria a última invenção benéfica ao gênero.

Por outro lado, o free-jazz continuava sendo um dos mais prolíficos campos de composições criativas. E, nessa época, o grande destaque era o saxofonista David S. Ware.

Capa do disco Wisdom of Uncertainty, de David S. Ware (1997)

Renascimento do free-jazz

O público ‘reatou’ com o free-jazz principalmente com a explosão da cena no-wave nos anos 1980 em Nova York, da qual nomes como John Zorn e Sonic Youth, em diferentes espectros, mostraram o poder da conexão de gêneros como jazz e rock a partir de seus caminhos mais excêntricos.

Apesar desse contexto, Ware nem de Nova York era; ele veio de New Jersey. Mudou-se para a grande capital nos anos 1970, e tocou com feras como Cecil Taylor e Andrew Cirille. Com o interesse renovado pelo free-jazz, formou seu primeiro quarteto em 1989, mas foi ao longo dos anos 1990 que suas notas explosivas – um misto da espiritualidade Coltrane, a agudeza de Albert Ayler e a absorção de Ornette – realmente conquistaram os fãs de jazz. Ou, melhor, de free-jazz.

Quando gravou o desconcertante Wisdom of Uncertainty, Ware estreou no selo AUM, que veio com a premissa de divulgar o avant-garde com forte carga soul. Esses dois aspectos, inclusive, ajudam a definir este poderoso álbum.

Super-humanos

Ao lado do pianista Matthew Shipp, o baixista William Parker e a baterista Susie Ibarra, que tinha acabado de entrar no grupo, Ware contou com um combo que sabia como trazer o aspecto humanístico à execução.

As composições remontam à fase tardia de Coltrane, possuem uma indistinguível aura blueseira e mostram incrível potência de criatividade.

Logo no primeiro tema, “Acclimation”, Ware firma ganchos com seu sax-alto, com efeito de sintonizar o ouvinte. Não demora para que seu instrumento seja domado por notas arrojadas, intensificadas pela constante busca de Shipp em elevar o plano dos metais.

Com Ware, Shipp aprimoraria sua técnica de colocar música de câmara, blues, rag e bop a serviço do free-jazz, tanto que tornou-se um dos propagadores do subgênero nos anos seguintes.

Em “Utopic”, por exemplo, Shipp mantém a melodia retilínea em primeiro plano, enquanto Ware e Parker desenvolvem um som camerístico, num intenso continuum de vibrar os sentidos. O solo do saxofonista relativiza a valorização de notas curtas e longas. Ou seja, cada detalhe é percebido e diretamente assimilado. Como bem disse o crítico musical Mike Joyce, do Washington Post: “A força total de seu tom – e sua habilidade super-humana de sustentar e manipular seu poder emocional bruto – é uma maravilha de se contemplar”.

Ware também gostava de fazer joguinhos com suas composições. A dinâmica que ele cria em “Alignment” é angular: ele arremessa tons multidirecionais que criam um efeito de audição no ouvinte. Isoladamente, seria uma peça para pelo menos dois saxofonistas executarem (e me vem à cabeça algo como Joseph Jarman e Anthony Braxton). O que ele extrai é algo totalmente surpreendente: às vezes seu sax se assemelha a busca de um trompete, quando não atinge escalas impensáveis a uma respiração humana.

Quem desempenha um papel quase super-humano de execução é a baterista Susie Ibarra. Ela une a agilidade nas baquetas a um tipo de toque cerebral. Perceba como, em “Alignment”, ela acompanha a brutalidade de Ware.

Anos mais tarde, a instrumentista de origem filipina revelou um pouco de seu segredo: ter percepção atmosférica. “A cada golpe, uma sonoridade”, resumiu, assim, de forma simples. Agora multiplique a quantidade de golpes de Wisdom of Uncertainty: existe aí uma quantidade infindável de criações, em cada uma das direções do quarteto.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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