G. Álbuns: Betty Carter | Betty Carter’s Finest Hours (2003)

Compilação abrange período de 1958 a 1992. É a melhor porta de entradas para a rainha vocal do bebop

Gravadora: Verve
Data de Lançamento: 8 de abril de 2003

Betty ‘bebop’ Carter. Idolatrada por sua inimitável técnica de criar scats (sons com a voz) como os mais efusivos instrumentos jazzísticos, a cantora nascida em Michigan (EUA) sabia como surpreender a audiência com um virtuosismo elástico.

Até os músicos tinham dificuldade de seguí-la.

Uma hora ela cantava a mais singela das baladas com falsa simplicidade (isso quando ainda mal se falava em rhythm’n blues). Em poucos segundos, desenrolava espalhadas interjeições, ora numa competição de velocidade com o contrabaixo, ora deslizando nas notas de pianos de caras como Wynton Kelly e Norman Simons.

Ela começou a carreira pegando carona no fraseado ágil e no virtuosismo rítmico do bebop. Se Charlie Parker era a linha de frente do sax, Dizzy Gillespie do trompete, Kenny Clarke da bateria e Charlie Christian da guitarra, a vocalista dessa elite só poderia ser Betty Carter.

“Bebop não era simplesmente uma nova aproximação musical, mas um novo modo de ser”, descreveu o biógrafo de Betty, William R. Bauer, em Open the Door: The Life and Music of Betty Carter. “Aquilo gerou um senso de identidade coletiva para eles”.

Embora nos anos 1940 e 50 a cantora tenha tocado em diversos locais de Detroit e partido para Nova York, ela só ganhou ampla projeção tardiamente.

Tocou com Parker e Gillespie após fazer sucesso na orquestra do vibrafonista Lionel Hampton, com apenas 18 anos.

Sua carreira solo passou a ser observada pelos grandes nomes do jazz após “Social Call”, que o crítico musical do New York Times Peter Watrous classificou, posteriormente, como a “curvada elegância de seu estilo maduro”.

“Quando se está fazendo scat, você praticamente pode ver as notas”, explicou certa vez Betty Carter

Posta no vasto catálogo de Betty Carter, “Social Call” não é tão ousada, mas mostra o domínio de um estilo que a maioria dos apreciadores de jazz espera de uma vocal feminina.

Bauer foi bem assertivo na introdução da biografia que escreveu: “Carter desafiou a visão predominante de que vocalistas tinham poucas ideias musicais significativas por si só”.

Portanto, natural que Bauer, ao ser escolhido pela gravadora Verve para fazer uma seleta das principais músicas da carreira de Betty Carter, em Betty Carter’s Finest Hour, incluísse a ‘normalzinha’ “Social Call”.

Esse flerte com o tradicional foi imprescindível para que ela aprimorasse a técnica dos scats. E é uma forma de deixar o ouvinte acostumado à ideia de que todas aquelas invencionices vocais só seriam possíveis após passear por baladas, standards, jazz swingado, cool-jazz… E bebop, claro!

Escrita pela própria Betty, “I Can’t Help It” é um blues que pertence aos primeiros anos da cantora – com acompanhamento de Wynton Kelly no piano e aquele solo lamentoso no sax-tenor de Jerome Richardson.

Mas o verdadeiro virtuosismo de Betty enquanto cantora está nas mais ágeis, pegadas mesmo: com rápido acompanhamento do baixo de Buster Williams, “Tight” é 1 minuto e meio de extremo swing, com a sagacidade de Danny Mixon no piano.

Em “The Trolley Song”, extraída do excelente álbum ao vivo The Audience With Betty Carter (1980), é uma homenagem da cantora à cidade de São Francisco. É também do mesmo disco que a compilação traz “Open the Door”, uma das mais conhecidas de seu repertório, baseada no ritmo da bossa nova e que já foi explorada das mais diversas maneiras pelos músicos com quem tocou (nesta compilação, porém, optou-se por uma versão mais clean, como se fosse parte de um medley).

Com solos rasgados do sax de Don Braden, “The Good Life” é dos maiores exemplos de como Betty dominava o bebop, um take arrebatador de uma das canções-exemplo de como a busca da perfeição era uma meta perseguida por ela.

Um dos grandes acertos da compilação é rememorar o dueto com Carmen McRae, em “It Don’t Mean A Thing”, de Duke Ellington e Irving Mills. Betty faz scats como ninguém, capturando ideias no ar como se fossem bolhas que não podem se perder. Sem visualizar as duas, dá pra perceber como McRae deve ter ficado impressionado com a técnica dela. Não é à toa que chegou a dizer: “Só houve apenas uma cantora de jazz: Betty Carter”.

“Quando se está fazendo scat, você praticamente pode ver as notas”, explicou Betty certa vez ao baterista Art Taylor. “Você pode ver seus tons médios e saber como eles devem soar porque visualiza os teclados na própria cabeça”.

Há muito o que conhecer e explorar sobre Betty Carter, principalmente para perceber como a voz pode ser um valoroso instrumento nas mais variadas expressões jazzísticas.

Se quer um bom começo, Betty Carter’s Finest Hour vai te proporcionar o início de uma paixão duradoura.


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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