Alice Coltrane descobriu como atingir espiritualidade sem religião: com música

Luaka Bop acertou ao introduzir o ouvinte à fase pouco conhecida da mulher de John Coltrane, que tem trajetória à parte no jazz

Disco da Semana: Alice Coltrane, World Spirituality Classics 1: The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda

Gravadora: Luaka Bop
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

Alice Coltrane tem uma obra vastíssima, mas que ficou isolada no circuito independente por muitos anos. Fora os discos espirituais dos anos 1970 – com destaque para Universal Counsciousness (1971) e Illuminations (1974), para citar alguns, pouco se sabe sobre como ela foi deixando a harpa e o apego pela sonoridade dos metais de lado para trilhar um caminho que muitos chamariam de guru espiritual, mas que é bem mais complexo que isso.

Mesmo porque, quando se trata de Alice, espiritualidade é um termo muito vago.

Com a acepção da palavra já incrustada na sua obra, o selo britânico Luaka Bop (de propriedade de David Byrne) prepara o que parece ser uma série, intitulada World Spirituality Classics. A 1ª edição, lançada agora, foca em quatro álbuns da multi-instrumentista: Turiya Sings (1982), Divine Songs (1987), Infinite Chants (1990) e Glorious Chants (1995).

A não ser que você seja profundo conhecedor da obra de Alice, dificilmente terá se deparado com estes discos, já que muitos deles foram distribuídos de forma independente quando lançados, ainda em K-7.

Religião e filosofia

Além da harpa, instrumento muito associado a ela nos anos 1970, Alice tinha desenvolvido uma técnica própria de slide depois de tocar com o influente Bud Powell. Pouco antes o marido John Coltrane falecer, em 1967, ela buscou influências na música oriental.

Alguns anos depois, ela aprofundou-se em meditações, passou cinco semanas de peregrinações na Índia e criou o próprio Ashram, comunidade liderada por um guru espiritual inspirada em eremitérios hindus.

Alice continuou fazendo música nesse período, só que motivada por outras buscas. Em 1982, ela perdeu o filho mais velho, John Jr., em um trágico acidente de carro. O que seria trauma para muitos músicos, Alice encarou como nova oportunidade de conexão. A fé no sistema filosófico vedanta (que diz que o mundo em que vivemos é material, e que a plenitude só pode ser alcançada na realidade original, que compreende o todo) fez com que ela acreditasse em reencarnação, e na música isso se traduziu em um tipo de festividade ritualística.

Sua música se tornou ainda mais reflexiva, e dá pra perceber traços disso em “Rama Rama”, onde Alice entra em contato consigo mesma ajudando o ouvinte (ou mesmo o filho John) a se encontrar, em paz. O som do órgão e da percussão trazem uma ideia de ritual contínuo. Nesse caso, os vocais dela soam mais litúrgicos, criando uma experiência de intensidade que se avoluma com o predomínio do efeito que confunde Romantismo com John Cage no órgão.

Da reflexão individual à expressão coletiva

Esse aspecto individual é uma continuidade das explorações espaciais dos anos 1970. A harpa exerce menos influência que a ambiência do órgão​, que funciona como catalisador da energia pessoal de Alice.

Depois da morte de John Jr., Alice comprou um terreno de quase 200 km² em Agoura Hills (pequeno condado da Califórnia, nos EUA) e passou a aceitar pessoas de diferentes crenças. “Tempos depois haveria templos, comida vegetariana e outras atividades comunais”, explica a historiadora Ashley Kahn em encarte do disco. “Aquele Ashram foi beneficiado pela localidade idílica, ainda que não tivesse a intenção de ser uma fuga do mundo moderno. Seus membros tinham carros e empregos normais”.

Aquela comunidade reuniu diversas pessoas com heranças africanas, latinas e indianas. Conviver com essas pessoas fez com que a mente de Alice se abrisse ainda mais, e podemos compreender esse impacto em “Rama Guru”, em que ela conta com corais, sem deixar a tensão sonora que havia desenvolvido com piano e órgão.

Nessa faixa, a dramaticidade converge com o clima de celebração que chega a desvanecer por um tempo, mas não ‘abandona’ a canção. A impressão é que esse peso sonoro representa as dificuldades que enfrentamos, enquanto o chamamento coletivo, que é persistente, está ali a todo momento para nos mostrar que o caminho da própria espiritualidade é possível.

“Hari Narayan”, por sua vez, leva essa jornada ao extremo, tanto que os corais ressurgem mais fortes, mais catárticos, tornando-a por si só uma instigante experiência gospel.

Da segunda metade dos anos 1980 para início dos anos 1990, a música de Alice Coltrane passa por um processo de limpidez que valoriza o senso de pertencimento e coletivismo.

A primeira faixa desta compilação, “Om Rama”, é prova disso. Extraída do disco Infinity Chants, a canção tem uma força de devoção como nenhuma outra registrada na compilação. O vocalista à frente de toda essa procissão é John Panduranga Henderson, que já havia tocado com Ray Charles.

Alternando entre órgão e sintetizadores, Alice capta a celebração do coro e faz uma espécie de elevação do pathos espiritual ao fortificar os louvores. Esqueça igreja, religião, doutrinas: a música funciona melhor como o poder da fé em coletividade, algo que Alice aprendeu, valorizou e devolveu em formas musicais divinas que agora grande parte da audiência – seja do universo do jazz ou não – tem a oportunidade de conhecer.

Ouça:

Tracklist:

01 Om Rama
02 Om Shanti
03 Rama Rama
04 Rama Guru
05 Hari Narayan
06 Journey to Satchidananda
07 Er Ra
08 Keshava Murahara

Outros lançamentos relevantes:

The Afghan Whigs: In Spades (Sub Pop)
Diana Krall: Turn Up the Quiet (Decca/Verve)
Blondie: Pollinator (BMG)
Slowdive: Slowdive (Dead Oceans)
Café Tacvba: Jei Beibi (Independente)
Avishai Cohen: Cross My Palm With Silver (ECM)
Faust: Fresh Air (Bureau B)

Artistas Alice Coltrane

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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