Airto Moreira em apresentação de Aluê, no Sesc 24 de Maio

Aluê: Airto Moreira continua desbravador em disco só com brasileiros

Percussionista trouxe a filha como parceira; detalhes do álbum e de show realizado no Sesc 24 de Maio

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 1º de dezembro de 2017

Chocalhos, maracas, pandeiros. Cones, molas, apitos, um kit completo de apetrechos percussivos, rodeados por tambores, bumbos e uma pequena mesa retangular que Airto Moreira utiliza para guardar e empunhar objetos e instrumentos em sua execução musical.

Aos 75 anos, o percussionista de Santa Catarina é o centro das atenções de um septeto formado apenas por brasileiros em show do seu recém-lançado disco Aluê, no Sesc 24 de Maio (na cidade de São Paulo).

É importante frisar brasileiros porque, por mais que Airto tenha sido nascido e criado no país, sua música foi totalmente burilada no estrangeiro.

Capa do disco Aluê, de Airto Moreira, lançado em 2017

Carreira no exterior

Além de integrar a clássica formação do Quarteto Novo, que lançou o único disco em 1967 (com Hermeto Pascoal no piano, Theo de Barros no baixo e violão e Heraldo do Monte na viola e guitarra), Airto também tocou com Johnny Alf e Cesar Camargo Mariano (no Sambalanço Trio).

Em 1969, recebeu convite para tocar em Bitches Brew, de Miles Davis, e aí deu início a uma bem-sucedida carreira como instrumentista.

Tocou com Dizzy Gillespie, Chick Corea, Herbie Hancock, Santana, Quincy Jones, Paul Simon… Por 8 anos consecutivos, foi eleito o maior percussionista do mundo pela prestigiada revista de jazz DownBeat.

Se durante muito tempo Airto carregou a qualidade de virtuoso, em Aluê ele faz exatamente o contrário. Está ali para propiciar novas descobertas sonoras, provocar os sentidos.

Percussão como pulsação

Enquanto família de instrumentos, percussão é algo deveras limitador a Airto. A própria voz é um elemento importante em sua obra, interesse que ele já demonstrou desde Natural Feelings (1970), que inclusive traz a primeira versão do tema “Aluê”. A diferença é que, desta vez, ele faz parceria com Diana Purim – em vez de Flora Purim, sua esposa e parceira musical de mais de 40 anos de estrada.

Diana é alegre, vibra com toda a energia impulsionada não só pelo pai, mas por toda a banda que compõe o disco Aluê: o guitarrista José Neto, o saxofonista Vítor Alcântara (que toca sax tenor, sax soprano e flauta), o pianista Fabio Leandro (que também toca teclados), o baixista Sizão Machado e o baterista Carlos Ezequiel, produtor do disco.

Em comum, todos têm forte apreciação em extrair o máximo de seus instrumentos. Mas, quando Airto toca, todos os olhares estão voltados a ele.

Ao tocar uma versão de “A Jangada Voltou Só”, de Dorival Caymmi, Airto sonorizou a solidão como se invadisse um romance de Jorge Amado. Seus scats acompanham a dinâmica que ele propõe para a percussão.

Em “Misturada”, ela é dotada de um xote à lá Sivuca. Já na intensa química de “Não Sei Pra Onde, Mas Vai”, Airto estende alguns solavancos vocais num tipo de chamamento também utilizado pelo parceiro Hermeto Pascoal.

A inédita “Rosa Negra” exibe um Airto mais completo em sua essência musical, alternando entre risos, vozes ocultas, barulhos da natureza. Ele cria uma pulsação que parece um ritual de candomblé, enquanto o grupo cria e desvencilha passagens que vão do rock à improvisação livre.

Airto Moreira arrebentou no repertório do ótimo 'Aruê', lançado pelo #selosesc

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Diana e Airto: unificados e unificadores

Diferente da mãe, Diana canta de forma que acompanha as extensões dos demais instrumentistas. “Lua Flora”, que aparentemente tem um ar de leveza, em sua voz torna-se mais encorpada, mais serena. As notas de Alcântara acompanham o delinear dos versos. Na canção, Airto surge para desviar qualquer tipo de obviedade – assim como faz no xaxado da faixa-título, que ganha efeitos multidimensionais em sua manipulação sonora.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Airto disse: “não suporto tocar percussão sozinho”.

Em toda a sua carreira, ele relativizou o protagonismo com todos os músicos que estão com ele. Aluê não seria diferente, mas o senso coletivo parece ter uma carga especial. Carlos extravasa energia em suas baquetas, mas sem tirar os olhos de Airto. José Neto arrepia sua guitarra a ponto de parecer que ela está pegando fogo e Vítor não poupa fôlego ao empunhar o sax-tenor quando a banda entra em ebulição. Quanto a Fabio, alterna entre a melancolia do piano e a eletricidade do teclado, provocando ataques na mesma medida em que impõe beleza melódica aos temas.

Diana, assim como o pai, é elemento unificador no meio de tantas cabeças expressivas. Ela mantém-se como boa companheira na faixa-título, mas é em “I’m Fine, How Are You?” que ela apresenta seus dotes de liderança, arrancando bons coros na apresentação no último domingo (10), no Sesc 24 de Maio.

“Diana é a nossa filha musical”, agradeceu Airto ao apresentá-la ao público. E ele, claro, o patrono, a principal referência de todos que dividiram com ele a experiência de fazer um disco vívido, inspirado e meticulosamente rico.

Artistas Airto Moreira

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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