Groovin’ Jazz: 10 discos lançados em junho/2016 que você tem que ouvir

Novos discos de Branford Marsalis, Kandace Springs, Warren Wolf e mais



Assim como a música clássica, o jazz permite uma abordagem diferente quando se trata de releituras ou interpretações.

Ok, vamos excluir “Garota de Ipanema” dessa equação (que ninguém aguenta mais). Só não sejamos tão injustos assim com Tom Jobim – pois, como o cantor Kurt Elling sugere em disco de Branford Marsalis, ainda há lastros a se explorar.

Interessante, também, é o trato jazzístico-cigano da Fanfare Ciocarlia para temas de 007 e O Poderoso Chefão ou o formato solo que a pianista Zoe Rahman nos brindou para um clássico de Duke Ellington.

Claro, o mês de junho trouxe muito ineditismo: do premiado cuban-jazz de Pedro Martinez (o percussionista da foto acima) ao flamejante projeto de Peter Brötzmann, Full Blast – que, inclusive, vem ao Brasil em breve – a versatilidade é comandada pelos experientes, enquanto alguns dos ‘novatos’ não receiam novas aproximações ao que já é tarimbado como clássico.

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Ouça uma faixa de cada disco mencionado:

Com vocês, os 10 melhores álbuns de jazz lançados em junho:

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Upward Spiral

Branford Marsalis Quartet & Kurt Elling

Gravadora: Marsalis Music
Data de Lançamento:
10 de junho de 2016

“Blue Gardenia” foi o principal tema do filme Gardênia Azul (1953), de Fritz Lang. Na voz de Nat King Cole, transformou-se numa balada galanteadora, um charme à parte. Branford Marsalis chamou Kurt Elling para a voz, mas a valiosa contribuição está no solo confortável de seu sax-alto. Ele conta com o flexível quarteto completado por Joey Calderazzo (piano), Eric Revis (baixo) e Justin Faulkner (bateria). A escolha de Elling para os vocais, segundo o próprio Marsalis, também tem a ver com flexibilidade. Em “From One Island to Another” (de Chris Whitley) e “Practical Arrangement” (Sting), ela pende para o som cristalino e emoldurado do grupo. Todas as músicas de Upward Spiral são versões: sendo assim, vale notar a fluência cuidadosa de “Só Tinha de Ser Com Você”. “Disse a todos que estudassem a versão de Elis Regina”, disse Elling, “porque queria que soasse mais autêntica que genérica”. Outro standard clássico é “I’m a Fool to Want You”, que ganhou uma versão ‘minimalista’, com voz acompanhada de um sax que solta notas como se estivesse acompanhando movimentos calculados de regência. A única canção composta especialmente para o disco foi “Cassandra Song”, uma jornada construtivista que inicia com singelas notas de Calderazzo e evolui para um som tomado por notas monumentalmente ligeiras de Branford: ali tem Sonny Rollins, John Coltrane, Albert Ayler… Até voltar à doçura de Elling.

Ouça: “Practical Arrangement”


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20

Fanfare Ciocarlia

Gravadora: Asphalt Tango
Data de Lançamento:
16 de junho de 2016

Eis o disco oportuno para conhecer a obra da Fanfare Ciocarlia, já considerada lendária em seus 20 anos de existência nos Bálcãs romenos por seu estilo gypsy brass, um big-band jazz meio cigano, psicodélico. Eles lançaram o material pela primeira vez em vinil, e decidiram reagrupar os cinco primeiros discos, resultando num trabalho de nada menos que 26 faixas. Muitas delas retomam trilhas clássicas: “Besh O Drom” lembra o clássico tema de O Poderoso Chefão, com destaque para o desprendimento dos metais, que se fragmentam até um clima ritualístico que se engrandece a uma orquestração extremamente ágil. A forma com que tratam o tema de 007, em “James Bond Theme”, aproveita os desdobramentos de ecos, gerando um novo senso rítmico – mas sem perder a conexão com a antológica trilha. Com Iulian Canaf, dão uma nova e sinistra magia para “I Put a Spell On You” (Nina Simone). Viajam nos scats rouquíssimos em “Summertime” e chamam todo mundo pra festa no ragtime swingante de “Rumba Tiganeasca”. Se ainda não conhecia, certamente não há ponto de partida melhor. E se quiser acompanhar o que estão fazendo, vá atrás do recente álbum Onwards To Mars, lançado em abril deste ano.

Ouça:“Besh O Drom”


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Risc

Full Blast

Gravadora: Trost
Data de Lançamento: 31 de maio de 2016

Em seus inúmeros projetos, há mais de 40 anos o saxofonista alemão Peter Brötzmann faz com que cada som soe como algo inovador. Quando ele surgiu com o projeto Full Blast ao lado de Marino Pliakas (baixo) e Michael Wertmüller (bateria), no início desta década, incorporou uma caracterização eletrônica incandescente. Desde muito tempo considerado um titã do free-jazz, Brötzmann não é lá muito fã de interlúdios – por isso mesmo, chega arrebentando as estribeiras em “Try Kraka”. As percussões têm importante papel discursivo em Risc: na sequência “Garnison Lane” e “TTD”, os trovejares de Wertmüller são intensamente rascantes, enquanto os demais instrumentos aglomeram mais e mais sujeira prum som virtuosamente poluído. Um dos takes mais límpidos do álbum é “Café Ingrid”, porque aposta naquele free-jazz, digamos, ‘clássico’: em vez da distorção, a intermitência dos sopros, o baixo desreguladamente ágil e a bateria esparsa tomam a vez. Risc é fruto de uma sessão de improviso registrada em março de 2015 em Viena (Áustria). (Em julho deste ano o grupo se apresenta no Brasil.) Não há um indício só de descanso nas 7 faixas deste disco: é urgência distorcida, free-jazz escatológico, música feita para quebrar as estruturas. Brötzmann, cara.

Ouça: disco na íntegra


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The New Breed

Jeff Parker

Gravadora: International Anthem
Data de Lançamento: 24 de junho de 2016

Famoso por ser guitarrista do Tortoise, Jeff Parker acumula diversos projetos: atua no Isotope 217, toca ao lado de Rob Mazurek na Exploding Star Orchestra, é membro da Boxhead Ensemble, do cultuado AACM e tem cinco discos solo – sendo o mais recente The New Breed, uma jornada pelo funk-jazz-psicodélico que trafega por texturas eletrificadas. Parker elaborou algumas das composições sobre samples, contando com apoio do baixista Paul Bryan, o saxofonista Josh Johnson e o baterista Jamire Williams. Em “Here Comes Ezra” dá pra perceber uma afeição pelo hip hop, enquanto “How Fun It Is to Year Whip” joga saturação eletrônica numa linha de cordas meio cool-jazz, que lembra um John Scofield mais tranquilo. A tortuosidade da guitarra de Parker pode ser bem apreciada em “Jrifted”: sem recorrer à distorção, ele oferece linhas desconstrutivas que se movimentam continuamente entre sublevações e elevações. A única canção com vocais é “Cliche”, que encerra o disco: nela, Ruby Parker dá uma pincelada num som aconchegante, enquanto Johnson busca a intranquilidade sonora. Por mais que destoe um pouco do disco, não deixa de ser característico: Parker é mais adepto às fugas – são elas que constituem o seu som.

Ouça: disco na íntegra


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Soul Eyes

Kandace Springs

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 24 de junho de 2016

Uma hora parece que estamos diante de Joni Mitchell. Em breve, lembramos da doçura de Melody Gardot. O produtor Larry Klein, que já trabalhou com as duas, ajudou Kandace Springs a criar seu álbum de estreia de forma que soul e jazz estão tão conectados quanto Billie Holiday e Norah Jones, duas de suas influências. Quando ela lançou uma versão de “Stay With Me”, de Sam Smith, Prince ouviu, encorajou-a e lá foi ela em direção a Soul Eyes. Suas interpretações pendem para melodias leves: em “Place to Hide” ela faz uma balada ao piano de agradar fãs de Mary J. Blige. O baixo pulsante de Dan Lutz e o órgão de notas fragmentadas de Pete Kuzma dão o andamento swingante em “Novocaine Heart”, composição da própria Kandace que nos remete ao melhor de Roberta Flack. O trompetista Terence Blanchard contribui em duas canções: na derretida balada da faixa-título, momento mais Billie Holiday do álbum; e em “Too Good to Last”, sua nova companheira de corações partidos. A entrada de Blanchard é tão rascante como se estivesse empunhando um sax-tenor. É aí que a lágrima desce.

Ouça: “Soul Eyes”


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The Way We Play

Marquis Hill

Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 24 de junho de 2016

Marquis Hill tem um estilo de tocar trompete que lembra Clifford Brown, mas seu ímpeto talvez encontre mais semelhança no estilo de Woody Shaw. Vencedor em 2014 do Prêmio Thelonious Monk, este jazzista de 29 anos de Chicago chega ao quarto disco fazendo algo diferente dos três primeiros: versões. Figurinhas onipresentes, como “Straight, No Chaser”, de Thelonious, e “Maiden Voyage”, dos primeiros anos de Herbie Hancock, são bastante puxados pela pontuação melancólica do vibrafone de Justin Thomas. Algumas gemas são retratadas de forma carinhosa, como o hard-bop “Moon Rays”, de Horace Silver, e “Fly Little Bird, Fly”, da fase afro de Donald Byrd – que, aqui, é ovacionado de maneira reverencial a partir da dinâmica incandescente de Hill e o saxofonista Christopher McBride. Desde que era estudante, Hill disse que perseguir Byrd era uma missão. The Way We Play, infelizmente pras memórias dele, não traça os caminhos evolutivos do trompetista acusado de abandonar a técnica para perseguir o pop. A função do disco, talvez, seja a oportunidade de Hill rever o passado, para seguir dois passos adiante.

Ouça: “Moon Rays”


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Habana Dreams

Pedrito Martinez Group

Gravadora: Motéma
Data de Lançamento: 10 de junho de 2016

Pedrito Martinez chega ao segundo disco de seu quarteto já com um Grammy na bagagem. Antes de lançar a estreia homônima, em 2013, ele havia tocado com nomes como Paquito D’Riviera e Bruce Springsteen, além de receber elogios de Eric Clapton e Derek Trucks. No segundo álbum, Habana Dreams, ele já inicia retomando colaboração com o trompetista Wynton Marsalis em duas faixas: no cuban-jazz acelerado de “Mi Tempestad”, encerrando com um solo indefectível; e em “Antadilla”, com voz de Rubén Blades, percussões aviltantes, trompete rasgado. Os demais instrumentistas soam como extensões do modo visionário de Martinez, mas também merecem destaque: o pianista Edgar Pantoja-Aleman é multi-instrumentista, por isso a variação ritmo-solo-desocupação espacial ouvida em “Tuve Uma Relación” soa tão magnífica. O baixista Álvaro Benavides sugere arcos de tensão mirando temas alegres – afinal, antes de mais nada, Habana Dreams trata-se de um álbum pra cima, mas que de certa forma complexifica o senso rítmico que se tem da música afro-cubana. Martinez divide as percussões com Jhair Sala, multiplicando ainda mais as divisões harmônicas da obra, que vão da influência da religião Santería (com credos cristãos e do iorubá) à intensidade da rumba, como se pode perceber em “Recuerdos”, que conta com a ‘colaboração’ dos três irmãos de Pedro Martinez.

Ouça: “Mi Tempestad”


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Any Given Day/Something’s

Radarhill & Nick Weckman

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
29 de junho de 2016

Encontre via Bandcamp

Any Given Day/ Something’s é, por assim dizer, um split. As 6 primeiras canções são separadas em suítes, compostas pelo trombonista Nick Weckman, que tem forte apreço pelas modulações eletrônicas (“Hope – The Burning”), com vigor desconcertante – como, por exemplo, em “Ruin – Fuck This Job”, típico som que a gente se apega quando queremos mandar o chefe para aquele lugar: o som esfuziante dos metais dá a sensação de bagunça mental semelhante ao que sentimos quando exercemos uma função empregatícia só pra pagar as contas. A partir da sétima faixa, “Go Thank Yourself”, inicia-se uma série de 9 temas da banda Radarhill, de Ohio. O som que prepondera é um jazz progressivo, com elementos da chamber-music e do fusion. As notas intrincadas nos teclados de Caleb Mille em “Spider Respects Nothing” têm influência direta do free-jazz oriental: repleto de tessituras tensas, algo bastante usual dos instrumentistas japoneses e indianos. Já “Hava Chaya” é um passeio por estilos, enquanto “Little Bit By Little Bit” é dotado de eletrificação que lembra o som dispendido de Chick Corea.

Ouça: disco na íntegra


EM DESTAQUE

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Convergence

Warren Wolf

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 10 de junho de 2016

Vou confessar uma coisa: Warren Wolf em breve deve equiparar-se a um Bobby Hutcherson, ou quem sabe um Lionel Smith por sua versatilidade, agilidade e, principalmente, pela personalidade de seu vibrafone. Revelado pelo grupo do baixista Christian McBride, Inside Straight, este jazzista de Baltimore faz com que seu instrumento pareça tão completo quanto o piano. Em “Cell Phone”, ele aposta na ligeira sucessão de notas, superando o mais ‘rato’ dos bate-papos e WhatsApps da vida – porque, sim, certamente ele deve ter tido isso em mente. “Tergiversation” intercambia o protagonismo entre o baixo de McBride, esplêndido por sair do lugar-comum ao preocupar-se mais com a manutenção rítmica. O solo de Wolf nessa canção é massivo, de atropelar toda e qualquer noção de superficialidade. Wolf também sabe como soar emocionante: a versão de “Knocks Me Off My Feat” captura a magia angelical do clássico Songs in the Key of Life (1976). Já na longa “Four Stars From Heaven”, de 11 minutos, perdura um processo flutuante de composição em que Wolf e o excelente pianista Brad Mehldau parecem trafegar rumo a um outro planeta distante de nossa órbita. Outro fera que participa no disco é o guitarrista John Scofield: ele surge no cha-cha swingante de “Soul Sister” e no hard-bop pretensioso de “Havoc”.

Ouça: “Tergiversation”


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Dreamland

Zoe Rahman

Gravadora: Manushi
Data de Lançamento: 17 de junho de 2016

A pianista britânica Zoe Rahman tem descendência bengala e traduz isso de forma elegíaca num jeito bem apegado ao stride piano. Em Dreamland, só ela toca. Há pouco dinamismo em suas notas, mas não podemos falar o mesmo quando o assunto é intensidade: na inicial “Red Squirrel”, ela dedilha como se estivesse vagando por uma floresta em que conhece cada canto. “Zantastic” é o avant-garde que escapa aos poucos das escalas modal: também ágil, a canção parece uma intermitente busca pelo crescendo – algo que takes como “The Calling” parece fugir. Boa parte dos 14 temas são da própria Zoe. Os compositores que ela escolheu para interpretar são bem seletos: “Kar Milono Chao Birohi”, do sul-africano Abdullah Ibrahim, é recheada de mistério; já “A Single Petal of a Rose” enche de luz uma balada já iluminada de Duke Ellington.

Ouça: “Red Squirrel”


Errata:

• O álbum Risc, do Full Blast, foi lançado em maio de 2016, e não março, como estava anteriormente.


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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