Groovin’ Jazz: 10 discos lançados em setembro/2016 que você tem que ouvir

Novos discos de Hurtmold, Linda Sharrock, Shabaka & The Ancestors e mais



Na Europa, o jazz tá pegando fogo. Os impactos do Brexit ainda nem respingaram na criatividade musical, mas países como França e Inglaterra têm surpreendido com a ebulição de mentes criativas que não precisam se prender a estilos passados para se consagrarem.

Essa força musical não vem necessariamente de franceses ou britânicos – apesar de eles terem alta influência nisso, também. Grupos como Shabaka & The Ancestors ou o quinteto de Emile Parisien (com importante adição) são provas de que a oportunidade, seja ela adquirida pelo academicismo ou pelo poder aquisitivo do público, é um ponto importante para que o jazz continue a se propagar e, assim, atingir audiência em escala global.

Vem da França, inclusive, o registro de uma sessão detonadora. É de Linda Sharrock que estou falando. Aos 69 anos, ela mostra que a extensão vocal pode ser a transmissão sentimental da dor, do desespero e do perrengue. Scats? Não, acho que o termo é técnico demais. Aquilo é outra coisa.

Setembro foi um mês bem ‘produtivo’ no campo jazzístico – tanto que foi difícil selecionar e ouvir parte das boas coisas que foram lançadas. Porque nem tudo que é bom tá aqui nessa lista; essa é apenas uma parte, um estímulo até, para que o ouvinte cace mais nas diversas plataformas que existem por aí.

Confira, a seguir, 10 destaques de jazz lançados em setembro:

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Aziza

Aziza

Gravadora: Dare 2 Records
Data de Lançamento: 30 de setembro de 2016

Se você jogar Aziza e jazz no Google verá o nome de uma excelente pianista do Azerbaijão considerada a “princesa do jazz”. O Aziza que tratamos aqui é outro, mas ainda mais superlativo, porque é considerado um supergrupo à lá Weather Report do jazz atual. O baixista britânico Dave Holland, que dispensa apresentações (Miles Davis e Anthony Braxton está bom?), tem ao seu lado o excelente guitarrista do Benim Lionel Loueke, o inimitável saxofonista Chris Potter e o baterista Eric Harland num projeto pra lá de instigante. Este trabalho homônimo já é o segundo álbum deles e agrada por possibilitar que as características e explorações estéticas de cada um caibam muito bem no formato combo. As guitarras de efeitos à lá Bo Diddley meets Sonny Sharrock de Loueke mostram que a referência da world-music é mais intensa do que se imagina no jazz, vide “Aziza Dance” e “Sleepless Night” (que, inclusive, integra o recente álbum dele, Gaïa). O solo no sax-alto de Potter em “Walkin’ the Walk” é tão indescritível quanto ouvir Sonny Rollins, mas preste atenção nas linhas de baixo de Holland: seus arcos tensionados asseguram um equilíbrio impressionante, mesmo que o som pareça cambaleante. A jornada de “Blue Sufi” parece uma epopeia: todos brilham, como já era de se imaginar de um quarteto tão virtuoso.


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Jazz, Fritt Etter Hukommelsen

Bushman’s Revenge

Gravadora: Rune Grammofon
Data de Lançamento: 2 de setembro de 2016

É jazz ou é rock progressivo? Essa é a pergunta de muitos que escutam o grupo norueguês Bushman’s Revenge, estruturado como um power-trio de guitarra, baixo e bateria. A pergunta não importa muito; o resultado compensa muito mais. O 7º disco do grupo liderado pelo guitarrista Even Helte Hermansen é libertariamente cáustico, apesar de citar como referências “o mundo de Wayne Shorter e John Coltrane de um lado, e o blues elétrico de Jimi Hendrix pelo outro”. (Eu adicionaria o grupo belga Present a essas referências também.) Ainda assim, esses nomes podem limitar as interpretações do ouvinte: nas pancadas “Contemplation” e “0500” prepondera uma naturalidade sonora que não se vê com frequência em combos desse tipo. O ambiente de gravação certamente integra os muitos elementos sonoros, e é possível perceber isso na estrutura composicional, que inicia silenciosa, arrebata, se espalha e retorna novamente ao silêncio. “Gamle Plata Til Arne” é dada aos maneirismos virtuosos de guitarra. O grupo alivia isso, mas não de forma ‘adocicada’: “Angels”, por exemplo, é composto de cordas dodecafônicas, enquanto “Lola Mit Dem Gorgonzola” volta ao blues tradicional da mesma forma que um jazzista excepcional o faria: respeitando suas arestas e sua carga de emoção.


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Sfumato

Emile Parisien Quintet (with Joachim Kühn)

Gravadora: ACT Music
Data de Lançamento:
30 de setembro de 2016

Alguém acuda! Joachim Kühn ataca novamente com seus clusters histriônicos num feature pra lá de especial ao lado do premiado saxofonista francês Emile Parisien. Os dois instrumentistas são grandes estrelas, e nem é preciso conhecê-los. Basta ouvir. Neste disco mesmo. Sfumato capta expressões distintas, do fusion ao folk, com uma dinâmica flamejante. Às vezes, lembra Raoul Björkenheim – caso dos solos do guitarrista Manu Codjia, em “Arome de L’air”. E aí vem os solos de Parisien, que vão de Stan Getz (“Preambule”) a Roscoe Mitchell (vide “Umckaloabo”). A versatilidade é apenas uma das muitas características de Sfumato. Trata-se de uma obra inspiradora e arrepiante. O domínio de todos os instrumentistas é pleno: o baixo de Simon Tailleu, em “Poulp”, é o elemento de ‘desconexão’ necessário para torná-la caoticamente maravilhosa. Outros dois músicos participam dessa epopeia jazzística: o baixo-clarinetista Michel Portal, em “Le Clown Tueur De La Fete Foraine”, de distintos traços ibéricos; e Vincent Peirani, que contribui em duas faixas colocando o acordeom em contraste com a ebulição intermitente que garante com que Sfumato seja um dos grandes álbuns de jazz do ano.


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Regards De Breizh

Ensemble Nautilis

Gravadora: Innacor
Data de Lançamento:
23 de setembro de 2016

O som do clarinete de Christophe Rocher parece retomar algumas explorações de Eric Dolphy dos anos 1960, mas tem uma função bem mais integradora do que tipicamente solista. Com o combo Ensemble Nautilis, o som dos bálcãs se mistura às influências do free-jazz. O grupo é composto por músicos franceses que vive na Grã-Bretanha. Com quatro discos na bagagem, o septeto acabou se tornando um noneto antes da gravação de Regards De Breizh, que traz mais um saxofonista (Robin Finker) e um trombonista (Mathias Mahler), que fazia falta. Logo no começo, com “La Fille De L’Arcouest”, o grupo vai de encontro a possibilidades magnéticas estridentes: o fraseado de Rocher flui do contido ao rasgado como aqueles choques naturais que temos ao andar pelas ruas. “Plongée” parece ancorada numa composição minimalista de Steve Reich, com efeitos que sobressaltam pelos ares. Muitas canções pendem mais para o ambient que o jazz, mas é justamente a integração disso que o torna excitantemente imprevisível – como na brubeckiana “Marché Aux Bêtes” ou na folclórica “Les Gestes”, com participação de Céline Rivoal no acordeom.


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Curado

Hurtmold & Paulo Santos

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 8 de setembro de 2016

O Hurtmold instituiu-se como um dos mais célebres atos instrumentais do Brasil. Embora o grupo de Maurício Takara tente fugir das rotulações, sempre lhe pregam alguma. Para o novo registro, Curado, isso pode ser mais difícil. Primeiramente, eles contam com o apoio de Paulo Santos (Uakti), um cara que toca de tudo, de tubo de PVC à kalimba elétrica. Em “Pastel de Pixo”, Santos hibridiza a atmosfera endossando distorção com o saxtubo. “Contas” parece trazer a rigidez sonora pra rua, enquanto “Yice” simula a dramaticidade da música indie, até ser contrastada por explosões percussivas, distorções e teclados que parecem programados para levar o ouvinte rumo a uma lava vulcânica. Essas diferentes direções fazem sentido tanto no campo da eletrônica, quanto no jazz: há junção da estrutura solta e, ao mesmo tempo, aquelas sublevações rítmicas que tanto agradam fãs dos lançamentos da Warp Records. “Essa mistura”, comenta Paulo Santos, “agregou o acústico ao eletrônico de forma harmônica, além de apresentar uma forte densidade no desenvolvimento dos temas, dos arranjos e das improvisações”. Nada de math-rock; o resultado é inovador, descentralizado e improvável. Que a parceria se repita.

Ouça: disco na íntegra


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IZA

Izabella Effenberg

Gravadora: Unit Records
Data de Lançamento:
16 de setembro de 2016

O vibrafone também pode ser um instrumento ligado à sensibilidade, protagonista de baladas reflexivas – não necessariamente amorosas, mas tocantes o suficiente até mesmo para repensar seu papel dentro do campo jazzístico. Izabella Effenberg, polonesa cuja virtuosidade está na exploração temporal e na conexão sentimental do vibrafone, chega ao segundo álbum, IZA, pontuando uma linha soul a estruturas que lembram o avant-garde. Isso começa em “Herr Doktor Doktor” e se estende ao longo do álbum, enaltecendo um clima que dá energia ao que gravadoras como ECM instituíram no jazz europeu. A construção melódica de IZA até chega a evocar algum tipo de swing, mas pense nisso numa abordagem meio Philip Glass/Steve Reich. Para isso, ela conta com o apoio do pianista Jochen Pfister e do versátil percussionista Pawel Czubatka, que também toca marimba e vibrafone. Em “Night Voyage”, por exemplo, percebemos uma exploração pelas vias do minimalismo tanto por conta da delgada massa sonora do vibrafone como em suas linhas. A repetição é fragmentada como se obedecessem a movimentos de células. Em mais de 1h de duração, de 15 faixas, cada átomo soa responsável por características e modulações diferentes. Por isso, IZA, a despeito de toda sua linha soul-minimalista, se destaca como um organismo de intensa vivacidade.


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Spacebound Apes

Neil Cowley Trio

Gravadora: Hide Inside Records
Data de Lançamento:

O trio do pianista Neil Cowley foi a fundo na proposta conceitual de Spacebound Apes: eles se inspiraram no livro de ficção científica “A Cidade e as Estrelas”, de Arthur C. Clarke, e foram aos estúdios com a trilha de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). A rota parece ser um tanto desconexa, mas as distintas passagens não fogem duma sinceridade empírica. Há uma vivência, mais que interpretações ou buscas sensoriais. “Governance” parece compor a trilha de uma comédia infantil no teatro. As notas lúdicas de piano ganham tonalidades à medida que a bateria passa a interagir com ela, trazendo o ouvinte para o acompanhamento rítmico como se estivesse musicando um passo a passo de algo curioso. ”The City and the Stars” (do mesmo titulo original do livro de Clarke) leva essa interação a um patamar ainda mais integralista, mas isso não quer dizer que o disco siga sempre essa linha. “Echo Nebula”, por exemplo, faz jus à capa: é como se ela fosse influenciada pelas distopias espaciais. Quem procura linearidade, certamente não vai encontrar em Spacebound Apes; por outro lado, quem se interessa por perspectivas diferenciadas tem muito a explorar por estes recônditos.


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Ethio Jazz Project

Ompa Bompa

Gravadora: GagaJazz Music
Data de Lançamento:
23 de setembro de 2016

Os franceses do Ompa Bompa gostam de se aventurar nas explorações jazzísticas de compositores consagrados. Duke Ellington e Toni Morrison, para eles, proporcionaram uma vastidão de técnica e estilo em trabalhos anteriores. Desta vez, eles miram o pai do ethio-jazz: Mulatu Astatke. O resultado não apresenta muita inovação, mas transborda energia. Em “Jazzamba”, os sobressaltos da bateria de Olivier Genin e o trombone de Franck Boyron mostram que o gênero está muito longe de envelhecer, mesmo mais de 40 anos depois de destacar a África no âmbito jazzístico. Os metais de “Zethions” são emoldurados em arranjos muito bem pontuados – afinal, Ompa Bompa trata-se de uma big band, com 7 integrantes. Nela, o piano de Emmanuel Déplaude é o guia de uma jornada que não deixa de ser incrível só porque foi iniciada há tempos atrás. “Este repertório é uma visão pessoal, fruto de nossas reuniões e nossas andanças musicais”, diz a banda no release. Ora, não é disso que se trata o jazz?


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Live, Vol.1: Bab-Ilo, 2016.08.25

The Linda Sharrock Network

Gravadora: Improvising-Beings
Data de Lançamento: 1º de setembro de 2016

O sobrenome Sharrock te lembra alguma coisa? Entusiastas do jazz certamente vão lembrar do guitarrista de free-jazz Sonny Sharrock. Em seu período áureo, nos anos 1970, Sonny tocou com grandes instrumentistas, como Pharoah Sanders e Peter Brötzmann. Sua esposa, Linda Sharrock, chegou a participar de alguns desses trabalhos. Pouco conhecida, praticamente sumiu de vez em 2009, após um AVC, mas voltou em 2014 com a potência de diva vocal do free-jazz. Ao lado do saxofonista Mario Rechtern (que toca quase todas as famílias do instrumento), seu retorno tem sido uma aula de vigor e rudeza. Os gritos de Linda são roucos, mas suas performances são sepulcrais: com o time formado pelo exímio baterista Makoto Sato, o sax-tenorista Lucien Johnson, além de Claude Parle (acordeom) e Yoram Rosilio (baixo), ela não precisa se fixar num tema. As melodias são emanadas como o início de um incêndio, e as respostas variam entre sofrimentos, fugas, arroubos de força, redenção. Parece um som mortífero – e é. Um crítico comparou esse retorno de Linda ao retorno de Robert Wyatt, “transportado para um reino musical inexplorado”. Basta ouvir essa live da cantora em Paris, para perceber: a reação diante do inusitado pode suscitar a melhor das performances. Viva Sharrock!

Ouça: disco na íntegra


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Wisdom of Elders

Shabaka & The Ancestors

Gravadora: Brownswood
Data de Lançamento:
16 de setembro de 2016

Shabaka Hutchings nasceu no Barbados, mas aprendeu a gostar de jazz depois que conheceu Londres. Para a gravação de Wisdom of Elders, porém, ele conta que precisou ir a Joanesburgo (África do Sul). Não queria perder a oportunidade de tocar com músicos de lá, muito menos de desperdiçar a essência musical. “Tivemos apenas uma gravação, uma turnê, um dia de estúdio”, contou o sax-tenorista à coluna BandCamp Daily. “Queria que os caras aprendessem a música e a tocassem ali no estúdio. Eram todos primeiros takes”. Natural que a veia do jazz africano seja fortalecida no álbum: “Mzwandile” capta, em 13 minutos, do afro-beat ao fusion em sua versão mais eletrificada. “The Observer” reflete uma espiritualidade quase antropológica; Shabaka & The Ancestors conectam-se ao passado em busca de respostas para o presente, num jazz de linha oriental bastante ancorado no baixo de Ariel Zomonsky. Shabaka contou que uma das grandes surpresas do disco foi gravar com o pianista Nduduzo Makhathini, que também assume o Rhodes. Ele espalha as notas, fugindo do joguete estético sax/baixo em “Obs”; já em “Nguni”, fortalece o clamor espiritual com poucas e certeiras notas.


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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