Groovin’ Jazz: 10 discos lançados em novembro e dezembro de 2016 que você precisa ouvir

Novos discos de Arthur Cabral, Low Leaf, Victoria Mozalevskaya e mais


O ano de 2016 acabou, mas isso não significa que nossa coluna Groovin’ Jazz seria interrompida pelas listas de melhores do ano.

Por conta disso, tivemos que fazer uma adaptação em relação aos dois últimos meses do ano: discos de novembro e dezembro de uma vez só foram listados, para manter o compromisso com o olhar atento aos lançamentos jazzísticos.

Coletamos vários sons espalhados pelo mundo: há novidades de Málaga (Espanha), descendência filipina, pelo leste europeu, Cazaquistão e, claro, Brasil, que continua seguindo firme e forte quando se fala em novidades do jazz.

O representante em questão é o saxofonista Arthur Cabral. Se nunca ouviu falar, eis uma ótima oportunidade para conhecê-lo.

Soul, free-jazz e hard-bop polirrítmico também compõem algumas das novidades sônicas do jazz. Nomes como Jason Moran e Joe Zawinul parecem mais eclipsados nas influências dos músicos abaixo, uma prova de que, de tempos em tempos, os músicos tendem a deixar de lado as obviedades.

Confira, a seguir, o último Groovin’ Jazz referente a 2016. A playlist com as músicas de todas as edições da coluna no Spotify estão aí em cima (é possível seguir a playlist). Aguarde que vai ter lista dos melhores álbuns de jazz do ano.

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Espaços

Arthur Cabral

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 1º de dezembro de 2016

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O jazzista carioca Arthur Cabral tem gosto refinado pela simplicidade. Desde que apresentou o tema “Espaços”, nos tempos idos de MySpace, percebeu-se que a progressão rítmica do seu sax-tenor mira mais a composição como um todo, do que momentos isolados. O álbum, Espaços, é uma perspectiva maior disso: em “Baião Salsa”, ele cria um diálogo com o pianista Fernando Moraes que nos leva a algum baile luxuoso dos anos 1950. “Sexta-Feira” é um hard-bop à lá Joe Lovano, confortável e sereno. O grupo, complementado pelo contrabaixista Ronaldo Diamante e o baterista Kleberson Caetano, atenta-se às modulações climáticas, colocando a sonorização de cada instrumento como parte de um todo. Mesmo quando assume o sax-soprano, o som agudo funciona apenas como complemento – como ouve-se em “Flutuando”. Cabral sola bastante no disco – e que solos! – mas não é bem isso que deixa o ouvinte impressionado. A confluência de tudo e o domínio pleno das composições é que fazem de Espaços um disco tão peculiar.


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Dark Star

David Martin & Mike Doolin

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
22 de novembro de 2016

Um grupo de jazz liderado por dois guitarristas certamente tem muito a explorar o poder das cordas. David Martin e Mike Doolin são professores acadêmicos com mais de três décadas de experiência cada. Juntos, eles exibem uma versatilidade incrível do papel da guitarra no campo jazzístico. Para eles, solos fazem sentidos quando carregam uma expressão que extrapola o individual. Em “Dad in a Cad Car”, há uma mistura de som ibérico com o jazz balinês, num encontro que soma a importância das congas de Shai Hayo e o órgão de Louis Pain. “Writer’s Block” é dotada de um estilo que dialoga com o renomado guitarrista do Benim Lionel Loueke, também adepto à sonoridade defasada, meio oca do instrumento. Além de guitarristas, Martin e Doolin também são exímios baixistas. Neste 3º disco conjunto, eles intercambiam guitarra e baixo – tudo em prol de uma construção coletivista. Dark Star é basicamente composto por instrumentos elétricos, mas classificá-lo como uma obra fusion talvez não seja bem o caminho. “Give the Drummer Some” tem aspectos que lembram Spectre (clássico de Billy Cobham), mas, por outro lado, “Spring Came Early” faz um misto de uma abordagem à lá John Scofield aos standards. Toda essa efusão, na verdade, mostra uma coisa: a guitarra no jazz pode ter um papel tão protagonista quanto diversificador.


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La Vuelta

Gracia Septet

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 26 de novembro de 2016

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A descrição do Gracia Septet é bem simples: “fazemos música com graça”. Com um trio de metais (trompete, sax-tenor e sax-alto) estes músicos de Málaga (Espanha) atravessam a ponte da cultura popular ibérica, cruzam com o bebop norte-americano e assimilam o som atravessado do jazz europeu com instigante jovialidade. A guitarra de Edu Guzmán em “El Jardín de Blas” cumpre uma função meio Charlie Byrd, enquanto o pianista Sergio Osoro, considerado ‘liderança espiritual’ do grupo, parece operar por detrás das cortinas no som típico de cabaré de “Tonsai” ou no ar naturalista que prepondera em “El Castillo”, que parece uma chacona estilizada nos anos 1950. “El Callejón” é um dos melhores exercícios de coletividade do septeto. O ritmo lembra bastante a música brasileira do Rio setentista, mas a catalisação de elementos ibéricos e de um estilo de tocar o sax-alto de Guille Fernández, certamente influenciado por Coltrane, mostra que se trata de uma experiência própria do Gracia. Há pouca conexão com o que o jazz tem experimentado no século XXI. Mas, vale destacar a descrição: o foco está na graça.


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Palm Psalms: A Light to Resolve All Darkness

Low Leaf

Gravadora: CreatorDiY
Data de Lançamento: 11 de novembro de 2016

Discurso da paz para jazzistas é precedente para bossa-nova, cool-jazz. Para Angelica Lopez, filha de filipinos que atualmente mora em Los Angeles e atende por Low Leaf, a paz e a criação vêm de uma coisa só. E tem capacidade de inspirar cantos, melodias e experimentos que flutuam entre o avant-garde e o psychfolk, com todos os membros distanciados de materiais sólidos. Pense em duas harpistas: imagino que tenham surgido imagens de Alice Coltrane e Joanna Newsom. Low Leaf transita entre as duas, mas de forma mais improvável, etérea, eletronizada. Joanna não tem um milésimo da excentricidade da multi-instrumentista de 28 anos, e isso pode ser percebido nos takes mais suaves, como “Pupil of the Universe” ou na metafísica caótica da faixa inicial, “Space Foreva”. Low Leaf toca piano clássico desde os 5 anos e foi convencida pela mãe a tocar harpa. Nem sempre ela o torna protagonista, porém. Em “Protons”, baixo e bateria pré-programada criam uma dinamização que a conecta ao conhecimento espacial. “Cleansing Incantation”, uma das mais belas do disco, traz para acompanhar o piano melancólico as ranhuras de violino e um trabalho divino de cordas (aí é coisa da harpa mesmo). Uma das características de Low Leaf é trazer a essência da sustentabilidade à música, e percebemos esse comprometimento com seus ideais em “Latent Bliss” (cuja atmosfera lembra The King of Limbs) e em “It’s Within”, a faixa mais próxima de Norah Jones que você encontrará por aqui.


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Oaktree

Lucerne Jazz Orchestra

Gravadora: QFTF
Data de Lançamento: 1º de dezembro de 2016

O diretor musical David Grottschreiber conduz 18 músicos em um disco que se impõe como big band de cantores autores. Lucerne é o nome de uma cidade da Suíça, que respira jazz com força bruta há muitas décadas. Tirando os discos em que gravou capitaneados pelo saxofonista Hayden Chisholm e o clarinetista Claudio Puntin, Oaktree é o 3º álbum do grupo, formado em 2007. Apesar do formato big band – e da versão de “So Real”, famosa na voz de Jeff Buckley – o álbum não se prende a nenhuma escola. Em “Souvenir”, por exemplo, o ambient parece antecipar um enredo aventureiro, típico das histórias de camponeses do clássico autor Jeremias Gotthelf. “Yeah Mueter” esconde uma aura sacra em seu início, mas rende-se à dodecafonia típica do free-jazz. Com apenas 5 faixas, Oaktree dá uma boa ideia da vastidão referencial que os suíços trazem para o jazz. Num disco só, ouve-se os trejeitos de Jack Teagarden, a elegante inteligência de Gil Evans, o naturalismo de Maria Schneider… Tudo isso em apenas 40 minutos.


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The Archives of Eternity Vol. 1 e Vol. 2

Mark Hundevad & Mike Gennaro

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
18 de novembro de 2016

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Mark Hundevad é um pianista que também toca percussão. Seus sons alternam entre clusters ágeis, típicos do free-jazz, com batidas interpoladas, que ganham na bateria de Mike Gennaro o parceiro ideal – ideal e tempestivo, cheio de personalidade. A dupla canadense botou as mãos pra ferver neste registro ao vivo de dois volumes. The Archives of Eternity Vol. 1 é irrequieto, uma mistura fulgurante dos discos mais abrasivos de Cecil Taylor com o som de pegada oriental de Satoko Fujii, por exemplo. Já o segundo disco, Vol. 2, busca uma simbiose melódica. É que Hundevad assume o vibrafone e a marimba, e o resultado, ainda que repleto de vigor, tem mais a ver com naturalismo, com uma busca celestial que deixaria Bobby Hutcherson orgulhoso. Os dois discos foram gravados em Toronto, em diferentes momentos: o primeiro foi em junho, e o segundo, em outubro.


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Between Nothingness and Infinity

Nasheet Waits Equality

Gravadora: Laborie Jazz
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2016

Nasheet Waits é um baterista considerado polirrítmico: ele pondera as entradas de sax-alto e sax-soprano de Logan Richardson e o piano do conhecido Jason Moran, considerado um dos mais talentosos dessa geração. Waits e Moran operam de forma multidimensional, jogando o ouvinte numa espiral binária efêmera, que valoriza mais a participação dos músicos do que um clima híbrido de sensações. A primeira faixa de Between Nothingness and Infinity – que remete ao clássico da Mahavishnu Orchestra, Between Nothingness & Eternity, de 1973 – cria a espiral e logo a dissolve, pulverizando as notas do quarteto através das particularidades dos instrumentos. A infinidade abordada pelo instrumentista dá uma ideia de vazio, algo que o silêncio da faixa-título e a construção melódica de “Kush” reforçam. Between Nothingness and Infinity é um disco pra ser apreciado solitariamente. Não é bem pela beleza; é por seu caráter reflexivo e triangular, fazendo com que um óbvio take, como “Koko” (Charlie Parker), seja dotado de uma profusão sonora improvável.


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Holographic Projections

Toms Lipskis Quintet

Gravadora: ParMüziku
Data de Lançamento:
24 de dezembro de 2016

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O baixista da Letônia Toms Lipskis emoldura suas canções como se tivesse criando imagens. Elas são repletas de detalhes, com cores vívidas e traços bem delineados. O pianista Dāvis Bindemanis ajuda a dar matizes originais a esses traços, como pode-se ver nos seus dedilhados em “Hologram”. “Stone Breaker” remete aos discos de bop dos anos 1960, com a bela dinâmica estabelecida com o saxofonista Dāvis Jurka e o baterista Rūdolfs Dankfelds. Holographic Projections traz alguns resquícios da cultura digital pro seu entendimento, mas não de um jeito eletrificado. Lipskis opta por uma abordagem, digamos, mais clássica, tanto que chamou um quarteto de cordas de acompanhamento, além de contar com leves pontuações do trompetista Oskars Ozoliņš em canções mais leves, mas não incolores, como “Lost Chances” e “Landscape”.


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Triebwerk Hornung

Triebwerk Hornung

Gravadora: Unit Records
Data de Lançamento: 2 de dezembro de 2016

O disco de estreia dos suíços é ancorado pela comunicação. O diálogo vai muito além dos estilos – engloba momentos, a maioria deles arrebatadores, mas também com estilos “líricos e frágeis”, segundo o grupo. O som modular de “Sticheleien” é fruto da modernidade estilística do jazz pós anos 2000, enquanto “Interview mit Klaus K” me lembrou as faixas mais arrebatadoras de George Adams. John Schröder é um excelente baterista, e você sente seu fone vibrar com suas viradas em “Quäl Dich Du Sau”. O piano Rhodes de Ludwig Hornung vem da escola de Joe Zawinul (vide “Rumtreiber”), enquanto o saxofonista Wanja Slavin é dotado de um multiestilismo arrebatador, soando como um mix entre Coltrane, Erik Truffaz e Albert Ayler. Com tantas referências boas, não tinha como ser uma estreia ruim.


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Freedom to Be You

Victoria Mozalevskaya Trio

Gravadora: Unit Records
Data de Lançamento:
3 de novembro de 2016

A saxofonista Victoria Mozalevskaya nasceu no Cazaquistão e toca desde os 7 anos piano, clarinete, para depois chegar ao sax-alto. Freedom to Be You é o primeiro disco dela, depois de concluir o mestrado em performance musical no departamento de jazz numa renomada escola da Suíça. Ela transitou por Europa e Nova York, e essa mistura entre o swing e o virtuosismo ajudou a encontrar unicidade em seu estilo. O título fala de liberdade, mas não há nada de free-jazz – escola cada vez mais adotada pelos europeus desde os anos 1970. Freedom to Be You, na verdade, tem mais proximidade com o hard-bop. O fraseado da saxofonista em “Incentive” é angular, levando o ritmo em crescendo a pequenas quebras, que certamente exigem um fôlego danado. O baixista Thomas Dürst é uma das grandes forças do disco – seja quando estimula o vigor de Victoria, ou quando cria um colchão confortável para o ambient de “Pacific Motion”.  Em “Freedom to Be You, Pt. 1”, Victoria assume o sax-soprano imprimindo beleza com elegância e postura de quem já domina o instrumento há tempos. “Anahata” é tão ágil, que o sopro parece que vai lhe escapar. Mas, não, isso não acontece. Porque Victoria estabeleceu uma familiaridade tão grande com o instrumento, que parece que o sax é extensão dela própria. Eis uma estreia pra ninguém botar defeito.


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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