Groovin’ Jazz: 10 discos lançados em março/2017 que você tem que ouvir

Novos sons de Daymé Arocena, Eliane Elias, Ivo Perelman e mais

Cada vez mais polifônicos, cada vez mais ambiciosos e cada vez mais rompendo as fronteiras com a tradição.

O jazz só permanece invisível pra quem quer que fique invisível.

De um lado temos o trompetista Christian Scott criando uma narrativa conectada com a tecnologia e os gêneros do século XXI para entender a genealogia do jazz.

Noutro, uma pianista do Arizona (EUA) prova que o formato piano-baixo-bateria está longe, muito longe de se esgotar.

Noutro, ainda, uma jovem cantora cubana mostra que latin-jazz é um termo defasado demais pra riqueza estética de seu trabalho, enquanto, numa planície não muito distante, um instrumentista armênio uniu a música clássica a J Dilla.

Acha pouco? Tem brasileiros flertando com gringos, uma saxofonista que tá dando o que falar e a prova de que o fusion continua vivo.

Confira os 10 melhores lançamentos de jazz de abril (veja também dos meses anteriores):

Float The Edge

Angelica Sanchez Trio

Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 10 de março de 2017

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De Ahmad Jamal, passando por Money Jungle (1963), Bill Evans, Brad Mehldau e Matthew Shipp, o formato piano-baixo-bateria mostrou ser um campo infinito de invenções, passando por bebop, free-jazz, avant-garde, hard-bop, enfim, uma cacetada de influências que se perdem em riquíssimas profusões de notas. Pois, nessa seleta, pode adicionar o nome da pianista Angelica Sanchez, que celebra o formato trio (depois de um duo com o trompetista Wadada Leo Smith, Twine Forest, de 2013) com duas feras: o baixista Michael Formanek e o baterista Tyshawn Sorey. Ela encontra soluções harmônicas criativas em meio às ranhuras de Formanek, na faixa-título, e deixa o silêncio ser parte da obra conjunta em “Hypnagogia”. O baixo de Formanek é protagonista tão importante quanto as notas de Angelica, que exercem um papel de multifuncionalidade. Ela dá assistência rítmica e, em poucos segundos, se isola em solos que vão do avant-garde (“Shapishico”) ao bebop (“The Traveler”). Mesmo partindo de gêneros que fogem da obviedade, Float The Edge instiga o ouvinte a assimilar as muitas coisas que fazem parte de nossas vidas. Elas vêm como um rebento, conforme exemplifica “Pyramid”, e podem ser pequenos incômodos, como dá a entender a linha de baixo de “Sowf”. Nisso tudo, Angela Sanchez deixa uma lição com seu trio: por maior que seja o caos, não deixe que as coisas te descontrolem.


Ruler Rebel

Christian Scott

Gravadora: Stretch Music
Data de Lançamento: 24 de março de 2017

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Em 2017, muito tem se falado do centenário da primeira gravação de jazz, feita pelo Original Dixieland Jazz Band (com “Livery Stable Blues”). Devido ao acontecimento, o trompetista Christian Scott deu início a uma trilogia chamada The Centennial, que começa com o disco Ruler Rebel. Neste álbum, ele opta por ritmos mais reflexivos e notas mais puxadas, às vezes remontando a Clark Terry, outras na pegada anos 1980 de Miles Davis. Por esses meandros, Scott se destaca por fazer do seu instrumento força propulsora do crossover com elementos tribais (“Encryption”, junto à excelente flautista Elena Pinderhughes). Também traz o ouvinte para essa linha de raciocínio cronológica do jazz, já estabelecida na primeira canção, a faixa-título. Numa prateleira de contemporâneos, as pretensões de Scott se alinham ao trabalho antropológico da saxofonista Matana Roberts, com a série COIN COIN. Mas a imersão proporcionada em Ruler Rebel tem clara distinção de público. A opção da bateria meio hip hop (por conta de Corey Fonville) e o uso de sonoridades mais flutuantes criam um senso caleidoscópico. Scott afirmou que quer fazer seus ouvintes refletirem sobre xenofobia, mudanças climáticas, orientação sexual, insegurança, enfim, e faz sábio uso do maior poder comunicativo do jazz: a expressividade sonora.


Cubafonía

Daymé Arocena

Gravadora: Brownswood
Data de Lançamento: 7 de março de 2017

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Geralmente vestida de branco, a cantora Daymé Arocena provou ser uma das melhores em cena em Cuba – se não for a melhor. A primeira faixa de Cubafonía, seu segundo disco, é o suficiente para convencer: numa corporificação afro-beat, “Eleggua” é uma procissão jazzística com scats ininteligíveis e metais em brasa. Ópera e Linda Sharrock se cruzam ali, e não é só isso. A seguinte, “La Rumba Me Llamo Yo”, une a tradicional rumba cubana ao fervor da Santería, com percussão a todo vapor de Yosvany Díaz. Aos poucos o disco vai abrandando, enquanto a certeza de que estamos diante de uma das vocalistas mais enérgicas de seu tempo se avoluma. “Lo Que Fue” eleva seu canto à máxima potência, trazendo a referência clássica, religiosa e jazzística para um espectro pop até o osso. O baixista Gastón Joya merece um destaque à parte, tanto pela dodecafonia que introduz o disco, quanto no groove requintado de “It’s Not Gonna Be Forever”, onde o protagonismo fica nas notas soltas do piano de Jorge Luis Lagarza. O mais impressionante de Cubafonía é a versatilidade com que as notas de metais, cordas e percussões se dialogam. Daymé se impõe como santidade diante de um escopo sonoro rico, vigorante e espirituoso. Se alguém se acha no direito de separar o jazz latino do contexto universal, mostre Cubafonía a esse sujeito. O impacto é positivo, imediato e permanente.


Retífica

Dias/Munhoz/Dornelles

Gravadora: Mansarda
Data de Lançamento: 23 de março de 2017

Encontre no site da Mansarda Records

Prestes a completar 5 anos com o selo digital Mansarda Records, o proprietário, Diego Dias (sax), chamou os parceiros Michel Munhoz (bateria/percussão) e Igor Dornelles (guitarra) para uma sessão de 3h de gravação. Retífica é o primeiro volume desse material, que começa ancorado em longas pausas com pequenas quebras repentinas, em “Franzo”, e vai adquirindo uma dissonância estranha: ora a guitarra de Dornelles toma o protagonismo agudo para si, ora os sopros de Dias intervêm na dinâmica torta construída com a bateria. Embora a primeira canção pareça uma eterna tentativa de começar um ensaio, “Somenos” e “Jus”, que são mais curtinhas (5 minutos), mostram um free-jazz ali no meio-termo entre Peter Brötzmann e Albert Ayler, com a chegada do som grave interferindo na eletricidade aguda da guitarra. Retífica encerra com “Deambula”, de aspecto mais paisagístico e sereno, mas sem perder a dodecafonia de seu alvo. Importante destacar que os lançamentos da Mansarda, nesse curto período de tempo, jamais abandonaram a sensação de uma experiência laboratorial. Com Retífica, os diferentes alcances sonoros se mesclam um ao outro, gerando uma dissonância intercalada que foge de qualquer padrão rítmico.


Dance of Time

Eliane Elias

Gravadora: Concord/Universal Japan
Data de Lançamento:
24 de março de 2017

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Eliane Elias tem vocal dócil, revisita clássicos brasileiros da bossa nova e possui aparência equiparável a Diana Krall e Norah Jones, mas preste atenção em suas notas de piano. Considerada uma das melhores improvisadoras em standards, a brasileira sabe criar ginga própria no clássico “O Pato” (João Gilberto) ou dar um estilo ainda mais requintado a “Coisa Feita” (João Bosco). O baixista (e marido) Marc Johnson soa como extensão das pretensões da cantora-instrumentista, enquanto as poucas entradas do solo de trompete de Randy Brecker (ex-marido dela) provam que o cool-jazz está bem distante de definir Eliane Elias. As passagens dela no piano enfatizam o poder rítmico das canções que interpreta – algo que pode ser percebido sutilmente em “Sambou Sambou” (João Donato/João Mello) ou na segunda metade de “Samba de Orly” (Vinicius de Moraes/Toquinho/Chico Buarque). Com o recém-conquistado Grammy por Made in Brazil (2016), Eliane prova que seus laços com a bossa nova estão mais fortificados do que nunca. Mas, o mais interessante de tudo: sua técnica no piano se sobressai.


The Art of Perelman-Shipp

Ivo Perelman

Gravadora: Leo Records
Data de Lançamento: 3 de março de 2017

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No final do ano passado, o sax-tenorista brasileiro Ivo Perelman tinha lançado uma série de 6 discos só com materiais de improvisação em trio. Pouco tempo depois, surge mais uma leva dessa seara: The Art of Perelman-Shipp, que consiste num combo de 7 discos com quase 1h cada. Além do pianista Matthew Shipp (que recentemente lançou o ótimo Piano Song), há colaboradores eventuais, como o baixista Michael Bisio e o baterista Whit Dickey (ambos no disco Rhea). O brilhante baixista William Parker enfatiza a acidez de Pandora, enquanto o veterano baterista Bobby Kapp explora planos espaciais difusos em Tarvos. O 1º disco da série, Titan, começa com uma espécie de chamamento ao diálogo interestelar. Perceba que cada menção em itálico diz respeito a um disco – e todos os títulos desses discos foram inspirados no planeta Saturno e suas 6 luas. “Há uma sinergia enquanto experimentamos isso”, disse Perelman sobre a parceria com Shipp. “Nossos saturnos estão amplificando um ao outro, e tudo isso está abrindo minha cabeça para a prática, para a música, para a forma com que escuto os sons, as cores”. Se acha que é muita coisa pra acompanhar, fique atento: o brasileiro disse que vem mais material dele por aí, ainda em 2017. Vai se desligando do mundão para apreciar essa intensa viagem sônica.


Prototype

Jeff Lorber Fusion

Gravadora: Shanachie
Data de Lançamento: 24 de março de 2017

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No final dos anos 1970, o tecladista Jeff Lorber se envolveu na cena do fusion, misturando rock e funk às experimentações jazzísticas. Naquela época, grupos como Weather Report e Mahavishnu Orchestra já não tinham a popularidade de outrora, fazendo com que o gênero fosse sumindo aos poucos – por isso, seu grupo, Jeff Lorber Fusion, acabou catalogado demais ao subgênero. Mas o músico foi se reinventando à medida do possível, tanto que tem um projeto sem o termo ‘Fusion’. Ao lado do saxofonista Andy Snitzer, que alterna entre sax-alto e sax-tenor, e o baterista Gary Novak, eles chamaram diversos instrumentistas para seus temas. Prototype tem aquela aura fusion principalmente pela predominância do baixo e do teclado, contornando os arranjos de metais. Em “Hyperdrive” e “What’s the Deal”, a sensação é de uma viagem nostálgica aos anos 1980, enquanto “The Badness” tem aquela pegada jazz-funk virtuose e cheia de picos agudos (que me lembraram Windjammer, disco de 1976 de Freddie Hubbard). Lorber é o grande instrumentista por trás do escopo sonoro, por desvendar trilhas inimagináveis para que o sax e a bateria brilhem. Por mais que se fale de eletricidade, a sensação final é a de estarmos diante de uma obra de hard-bop tão vibrante quanto dos Jazz Messengers. Isso só prova que a tentativa de isolar o fusion das outras expressões do jazz continua falha…


Saudade Maravilhosa

Mario Adnet

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 16 de março de 2017

Ouça via YouTube

O violonista e arranjador Mario Adnet ficou bastante conhecido pelo esplêndido tratamento que deu à obra de Moacir Santos em Ouro Negro (2001), mas tem também um trabalho autoral riquíssimo. Além do maestro pernambucano, Adnet traz a carga melódica de Tom Jobim e a versatilidade de João Donato em uma obra tão positivista quanto sofisticada. Ele traz essas referências numa exploração interna – tanto que ele homenageia a neta em “Cecilia no Parquinho”, com pacífica passagem da flauta de Eduardo Neves e do clarinete de Cristiano Alves. Composta ao lado de João Cavalcanti, “Valsa do Baque Virado” é uma das poucas que possuem vocais, que fala da ‘profanação dos sentidos’ do Carnaval (a canção já tinha sido registrada em disco comemorativo de 50 anos do MPB-4). Além das originais, Adnet também deu nova abordagem a clássicos, como “Caravan” (Duke Ellington), que ganhou um aspecto bossa-jazz, e “Chorojazz”, mais uma vez ancorado no som agudo de Neves (que, aqui, assume o sax-soprano).


Chasing The Unicorn

Roxy Coss

Gravadora: Posi-Tone
Data de Lançamento: 31 de março de 2017

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Alternando entre sax-tenor, sax-soprano e clarinete-baixo, a nova-iorquina Roxy Coss tem um estilo mais voltado ao folk (não à toa, tem cover do Willie Nelson também em seu disco). Ouvir “You’re There” e “Endless Cycle” instiga o ouvinte a ficar em estado contemplativo. Como já se convencionou ao ‘jazz moderno’, o som de Chasing The Unicorn tem produção que valoriza cada nota dos instrumentistas. Nenhum deles aposta pra valer na habilidade técnica. Você pode se encantar com as linhas de sax-soprano da faixa-título, mas ela é sustentada por nada mais que um ritmo modular, que vai se desmanchando ao seu sopro, até que ele se entrega à catarse. “Free To Be” segue a linha hard-bop bem sedimentada pós-anos 1980, com clarividência sonora e importante simbiose entre guitarra-baixo. Em “Virgo”, ela mostra que também sabe como abordar uma balada, como se ambientasse naqueles bares antigos de luzes baixas, com a fumaça do cigarro dominando a paisagem. Este é o terceiro disco de Roxy como líder, prova de que sofisticação pra ela é um termo a mais a ser acompanhado com a evolução técnica.


An Ancient Observer

Tigran Hamasyan

Gravadora: Nonesuch
Data de Lançamento: 31 de março de 2017

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Na técnica do pianista Tigran Hamasyan, a música da Armênia encontra J Dilla, por meio de um serialismo que põe música clássica e ritmos jazzísticos como parte do mesmo todo. Quando o músico de 29 anos não contrabalança acordes em um tema como “Fides Tua” ou faz do instrumento um game viciante em “Etude No 1”, cria um senso requintado de minimalismo com apoio da voz, revelando belos glissandos na faixa-título. Em “Egyptian Poet”, há um quê de música sacra que inicialmente parece um tema de Bach, até seguir um curso meio thriller que se aproxima a Steve Reich. Bach, na verdade, é uma importante referência para Hamasyan, já que ele dedica dois temas à música barroca: as curtas “New Baroque 1” e “New Baroque 2”, que se completam pela profundidade polifônica – ou aquela música dramática que parece ter sido composta em grandes catedrais. Tá, e onde entra o hip hip nisso tudo? No som de “The Cave of Rebirth”, em que as notas contínuas de Hamasyan parecem ondas gravitacionais se interagindo com vocalização percussiva. Parece até um som regional meio amazônico, ou algo que inspiraria um free-style, mas o fato é que a linguagem explorada por ele é mais universal do que se imagina.

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Confira a playlist oficial da seção Groovin’ Jazz (e siga o Na Mira no Spotify):

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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