Groovin’ Jazz: 10 discos de janeiro/2017 que você precisa ouvir

Novos discos de Banda Mantiqueira e Camilla George entre outras descobertas fantásticas


Começo de ano geralmente é meio tímido em lançamentos, mas um ano que começa com Run the Jewels, Blitz the Ambassador e Marcelo Yuka não pode ser considerado ruim.

O jazz não teve esse bombardeio todo. Tem disco novo do Matthew Shipp – que infelizmente não veio parar nesta seção pela falta de disponibilidade, mas deve, em breve, ser analisado isoladamente – e um ou outro quarteto.

Para caçar os melhores deste mês o garimpo teve que ser ainda mais meticuloso. Como já cansamos de dizer por aqui, não há uma organização adequada nos serviços de streaming que favoreça a pesquisa. A exceção é o BandCamp, que permite traçar as novidades por período de tempo, mas nem todos os selos utilizam a plataforma. Da mesma forma que não utilizam também Spotify, Deezer, Tidal, YouTube…

É por isso que é fácil um pesquisador de jazz deixar algum lançamento de lado. Alguns discos surgem meses depois das datas de lançamento – tanto que há muito o que rever de 2016 que não passaram por essas linhas, o que geraria um trabalho árduo (compensatório, claro, mas árduo demais).

Portanto, optamos por seguir no presente. Você vai se surpreender com a big band de Tante Yvonne, uma valiosa descoberta que vem da França, e com o sax-alto estiloso de Camilla George, que não precisa de esforços para nos agradar.

A lista também tem Banda Mantiqueira, o mexicano Gustavo Cortiñas, a canadense Kim Zombik… Taí um bom mês para abrir a mente para descobertas jazzísticas. Divirta-se:

Com Alma

Banda Mantiqueira

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 7 de janeiro de 2017

Encontre pela Livraria do Sesc

Em três décadas de história, a Banda Mantiqueira sempre prezou por arranjos que mostrassem a diversidade de influência da big band, que vai da Thad Jones/Mel Lewis Orchestra a Papudinho, trompetista que ficou famoso nos anos 1960 por um tipo único de bossa-jazz. Entre trabalhos com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) e disco que homenageou o bairro de onde vieram, o Bexiga (que fica no centro da capital paulistana), o grupo de 11 integrantes retornou às bases em novo disco, Com Alma, trafegando com liberdade nos arranjos. Há releitura de clássico, como em “Desafinado”, praticamente pincelado pelo violonista Romero Lubambo e adornado por metais sutis do grupo. “Forrólins” é mais festiva, com a agilidade do frevo, mas mais impressionante por conta do ritmo ‘escadinha’ de saxofones, trombone e trompete do grupo. O repertório de Com Alma já é parte integrante da história da Mantiqueira: registrá-lo foi uma forma de manter vívida a presença do grupo. “A história dela é bem maior do que a gente chama de Brasil”, explicou o líder do grupo, Nailor Proveta. Não há prova maior disso do que um álbum.

Ouça na íntegra pelo YouTube


Isang

Camilla George Quartet

Gravadora: Ubuntu Music
Data de Lançamento: 13 de janeiro de 2017

A sax-altista Camilla George ficou famosa em grupos como Tomorrow’s Warriors e Jazz Jamaica. A partir do EP Lunacity (2015) – que teve a faixa-título também registrada aqui – seu quarteto ganhou boa projeção na cena londrina, com todos os elementos locais: mais cool, retilíneo, com variações bem moduladas. Sua principal parceira é a requintada pianista Sarah Tandy: em “Dreams of Eket”, seu estilo esparso ajuda Camilla a encontrar as notas certeiras, à lá Kenny Garrett, em bonito take melancólico. O baixista Daniel Casimir sabe aproveitar a leveza da sonoridade, com ganchos efêmeros e curtas solapadas em “Song For Reds”. A cantora Zara McFarlane, de origem jamaicana, mostra seu lado cool-jazz nos scats em “Ms Baja”. Gêneros latinos também são eclipsados em Isang, como o calipso da faixa-título e o cuban-jazz de “Mami Wata”. Sem muitos alardes, o disco soa melhor no acompanhamento dos solos de Camilla. Sua expressividade é mais amena, apesar das referências distintas.


Esse

Gustavo Cortiñas

Gravadora: OA2 Records
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2017

A localidade do bandleader sugere um latin-jazz, e os músicos de Chicago podem direcionar os ouvintes a um estilo libertário, mas Esse é mais complexo do que se supõe. A filosofia de grandes pensadores clássicos, como Aristóteles e Platão, até chegar a Hegel, é a grande inspiração que o baterista mexicano Gustavo Cortiñas teve para seu novo disco. Na canção “Filosofia” dá pra se ter um panorama geral: adepto de um som espaçado, com escalas modais e variações controladas pelas baquetas, percebe-se uma preferência por metais agudos, como trompete e trombone – embora a opção de sax seja o tenor, logo o mais robusto de toda a família do instrumento. “Filosofia” é um som quietinho, mas engana-se quem acha que tem algo a ver com cool-jazz. O bop de “Arete” e o free-jazz de “Global Skepticism” são claros exemplos de que a preocupação é enfatizar os conceitos filosóficos, uma forma convincente de interpretar o mundo. O trompetista Justin Copeland e o trombonista Adam Thornburg são as grandes forças propulsoras na fixação dessas ideias, algo que a guitarra de Hans Luchs capta e trata de pulverizar. Kitt Lyles costuma pontuar de forma singela em seu baixo, como em “On Certainty”, enquanto Cortiñas ouve, aprende e contribui de maneira que o todo soe como um argumento coletivo bem elaborado.


Malamute

Jim Black

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2017

O baterista de Seattle (EUA) Jim Black formou seu quarteto entre 2014 e 2015, e estreia com Malamute testando a eletrônica experimental, o noise da cena downtown de NY e sopros efêmeros do free-jazz. Ao lado de Óskar Guðjónsson (sax-tenor), Elias Stemeseder (teclados) e Chris Tordini (baixo elétrico), Jim Black alterna entre climas nebulosos, trovões e tempestades. Por isso que a capa não é mero ocaso. Em “Toys Everywhere”, o início caótico vem da escola Beaver & Krause e adentra um som pacifista, até que os teclados massivos gerem um novo tsunami. É mais ou menos como sair na cidade de São Paulo: prepare-se para sol, raios, chuva e frio em curtos períodos. O mesmo acontece em temas como ‘Stray” e “Cool Doze”, sempre tangenciados pela bateria de Black: ele é o mestre da relativização nos temas que compõe, e isso dá espaço para notas abertas, sejam elas agressivas (como as de Stemeseder) ou melancólicas (algo indelével do sax-tenor de Guðjónsson).


The Intimate Sky From Whence You Came

Kim Zombik

Gravadora: Chromatic Audio
Data de Lançamento: 25 de janeiro de 2017

Encontre via BandCamp

O Canadá tem surpreendido nos últimos anos com sua expressão jazzística. Com trabalhos fortemente ancorados no piano (Renée Rosnes) e guitarra elétrica (Metalwood), o país tem sido palco de interessante diversidade estética. Kim Zombic, de Montreal, também tem a contribuir para esta seara: com The Intimate Sky From Whence You Came, ela põe o formato vocal em mescla com o tradicional e o avant-garde. O som é acústico e traz passagens admiráveis, como em “Little Bird”. Mas é na faixa-título, onde ela fala de seu pai, ‘que viveu no paraíso’, com o piano tremeluzente de Kate Wyatt, que percebemos como sua mudança de direção ganha contornos mais criativos. Em “Dusty Room”, a voz de Zombic torna-se misteriosa, nos levando a passear pelos sentimentalismos de Billie Holiday. Patrocinado pelo governo e por rádios canadenses, The Intimate Sky pondera a vontade de dialogar com a admiração dos clássicos. O que falta em originalidade, sobra em beleza.


Publicidade





Buanga

Larry Derdeyn

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 13 de janeiro de 2017

Encontre via BandCamp

O pianista Larry Derdeyn nasceu em Connecticut, mas atualmente vive na cidade de Oviedo (Espanha). Talvez essa mudança geográfica tenha feito com que seus ouvidos captassem melhor a influência latina e ibérica na sua forma de fazer jazz – uma forma em que o folclórico se mistura ao referencial, com traços da psicodelia e da fúria ácida, vide “Triple Ex Pat”. “Espiral” tem uma aura naturalista que me lembra aqueles discos típicos do catálogo da ECM, enquanto “Mofo in Bable is Moss” tem um gingado ibérico certamente influenciado por sua nova moradia. Dizendo assim, parece que Buanga é um álbum multidirecional, mas não é bem assim. As construções harmônicas são muito bem erigidas – algo que Derdeyn tomou bastante cuidado, com a colaboração de Chema Fombona, que assume as percussões e a harmônica. Além do mais, Derdeyn disse que a grande influência do disco é Hermeto Pascoal, “cujo espírito permeou todo o processo”. Derdeyn tirou o ensinamento do mestre da melhor forma: exercendo beleza e liberdade.


Umbrella Weather

Led Bib

Gravadora: RareNoise
Data de Lançamento:
20 de janeiro de 2017

O jazz britânico não costuma soar assim tão explosivo desde os tempos áureos de John McLaughlin. Umbrella Weather marcou a volta do Led Bib, conduzido por Mark Holub (bacteria), Pete Grogan, Chris Williams (ambos no sax alto), Liran Donin (baixo) e Toby McLaren (teclados). A impressão é que a fonte vem do King Crimson e Frank Zappa, principalmente em canções meio prog-rock (“On the Roundabout”) e no som com metais e teclados encorpados (caso de “Insect Invasion”). O grupo passeia entre o fusion e o avant-garde, mas tem grande potencial para apresentações ao vivo robustas. Em “Too Many Cooks”, as viradas intensas de Holub e a expressividade arrepiante da dupla de saxofonistas aproxima o grupo ao free-jazz. O vigor do grupo é convincentemente sustentado nos 12 temas do disco, prova de que o Led Bib retornou com tudo para tomar de assalto o posto de grupo mais flamejante do jazz (trono atualmente ocupado por Snarky Puppy).


Reaching In

RLA

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 14 de janeiro de 2017

Encontre via BandCamp

RLA é a sigla dos sobrenomes dos instrumentistas Tim Randles (piano), Mike Labolle (bateria) e Bobby Amrikhan (baixo), trio da Califórnia que tem uma proposta bem cool-jazz mesmo, com poucas variações no piano e na bateria. Já do baixo não podemos dizer a mesma coisa: Amrikhan passeia com estilo por entre as notas de Randles, sugerindo um interessante momento de solidão em “Uncertain” ou desconfiando da proposta rítmica de “Havana Go”, som que certamente inspiraria Paquito D’Riviera a dar umas boas esticadas no saxofone. Reaching In não é uma estreia expressiva, mas possui uma coesão invejável do trio. Fã das notas soturnas, Randles dinamiza entre as escolas Bill Evans e Tom Jobim. Ele é o principal compositor, portanto suas direções costumam ser estáveis durante os temas. Amrikhan e Labolle compreendem e contribuem de forma bonita para que o resultado final soe agradável.


Tante Yvonne

Tante Yvonne

Gravadora: Petit Label
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2017

Encontre via BandCamp

Muitos podem não saber, mas vivemos um bom tempo para grandes orquestras de jazz: da alemã Reich Durch Orchestra a Maria Schneider, a criatividade exala dos grupos com mais de 10 músicos. A big band francesa Tante Yvonne se encaixa nesse contexto, explorando uma liberdade vívida que vai da extrema preocupação com ‘arranjos ao vivo’ (algo meio Gil Evans mesmo) à vibração do rock. A música serialista de George Russell se encaixa nos acordes soltos do folk rural; o som improvisado de baixos de Nicolas Talbot e metais prossegue ao lado de silêncios e ranhuras espaçadas – uma contribuição bem maluca de Remy Garçon, que toca sax-barítono e flauta. O som do Tante Yvonne tem a soltura do free-jazz e a liberdade do modal, variando o clima e a intensidade a partir de uma lógica atonal. Se Karlheinz Stockhausen estivesse vivo, certamente adoraria a transição de “Le Délirium de René” (graças aos arroubos do sax-alto de François Rondel), enquanto os 11 minutos de “Le Digeo à Tonton” parecem dar uma nova abordagem do que se convencionou chamar de ‘jazz do pós-guerra’. O álbum homônimo foi registrado em 2014 e alguns CDs foram distribuídos de forma independente no ano seguinte. O lançamento digital, porém, só se deu agora, em 2017. O ruim no meio disso tudo é que ficamos muito tempo sem conhecer uma maravilha desse porte. O bom? O Tante Yvonne não vai deixar de ser relevante nem tão cedo.


My Iris

Trish Clowes

Gravadora: Basho Records
Data de Lançamento: 13 de janeiro de 2017

Solavancos, passagens, crueza. O sax da britânica Trish Clowes acompanha e se isola, gerando um senso rítmico próprio independentemente do acompanhamento que tá rolando. Ela fez carreira na orquestra da BBC Radio 3, mas em My Iris compactou essa experiência em quarteto, ao lado do guitarrista Chris Montague, o pianista Ross Stanley e o baterista James Maddren. Nem sempre ela se põe como destaque: quando Montague fica na linha de frente, percebemos o quanto ele deve ter se maravilhado com John Scofield (vide “I Can’t Find My Other Brush”). Trish tem um estilo bem volúvel, e às vezes assume o papel de outros instrumentos, como em “One Hour”, em que substitui o baixo antes de proferir notas agudas. “In Between the Moss and Ivy” mostra Trish seguindo uma trilha mais cool-jazz, enquanto em “Be a Glow Worm” é palco para admirável interação com Montague.

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

Sem Comentário

Adicione um comentário