Groovin’ Jazz: 10 lançamentos de fevereiro/2017 que você precisa ouvir

Novos discos de Aki Takase com David Murray, Terence Blanchard, Yazz Ahmed e mais

Ainda está muito cedo para fazer qualquer diagnóstico do que o ano prepara para o jazz como um todo, mas uma coisa é certa: os músicos de hoje buscam expressividade. Normal. Existe uma finalidade que o artista mira antes de concluir seu disco, conquistar seu público e tocar para eles. O que muda é que essas direções têm sido mais claras, algo que de certo modo ajuda a fidelizar ouvintes em tempos em que é tão fácil deixar de ouvir um artista novo para recorrer aos velhos clássicos.

Essa clarividência pode ser percebida tanto em um grupo como o australiano The Necks, famoso por seus temas longuíssimos, mas que em Unfold optou por uma coesão mais enxuta, como na abordagem oriental-psicodélica da trompetista Yazz Ahmed (que ilustra o post), que lançou dois discos de uma trilogia que certamente vai abalar as estruturas do meio.

Até mesmo Terence Blanchard, em uma trilha para a Blue Note, me pareceu bem focado na trilha sonora do filme The Comedian, ao lado de feras como Ravi Coltrane e Kenny Barron.

Também falamos sobre a nova percepção de trio piano-baixo-bateria proposto por Julia Hülsmann, a importância do trompete de Wadada Leo Smith no novo disco de Harriet Tubman: The Band e mais um grande expoente do novo som de Los Angeles, o pianista Cameron Graves, que tocou com Kendrick, Thundercat, em The Epic, enfim, com credenciais de agradar o público que tem se interessado pelo jazz nesses anos de agora.

Leia também: 10 discos de jazz lançados em janeiro de 2017 que você precisa ouvir

Confira uma playlist com sons de jazz lançados em 2017 destrinchados pela coluna Groovin’ Jazz:

Confira a lista dos 10 melhores discos de jazz lançados em fevereiro de 2017:

Cherry-Sakura

Aki Takase & David Murray

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 17 de fevereiro de 2017

Há mais de duas décadas, a pianista japonesa Aki Takase e o saxofonista David Murray criaram uma simbiose entre seus instrumentos que condensaram melancolia e profundidade técnica como poucos em Blue Monk (1993). Hoje essa conexão está mais fortalecida. Em Cherry-Sakura, a dupla focou em diversas passagens da Idade Média em busca de enfatizar sentimentos distantes e misteriosos. “To A.P. Kern” é dedicada à socialite russa Anna Petrovna Kern, que teve um caso com o poeta Pushkin no século XIX mesmo casada (obrigada) com um general que odiava. Takase imprime melancolia em suas notas, acompanhadas por um lindo lamento que valoriza uma das maiores características do tenor: seu poder de criar lindas baladas. A beleza do instrumento é levado a um patamar de supremacia em “Nobuko”, que finaliza com um solo taciturno de Takase. “Let’s Cool One” leva a característica de Murray de lincar o tradicional de Lester Young com o arrojado estilo do tenor de David S. Ware. Ele é dotado de um swing envolvente que aglomera as escalas rígidas do piano e as notas pesadas do tenor. Seria contraditório, se não se tratasse de dois grandes instrumentistas que sabem como ser originalmente expressivos. A faixa-título traz duplo esplendor: primeiro vemos Murray se entregando à doçura com o clarinete-baixo, intermediando com um solo que eu chamaria de antropológico ali no meio, até o estilo esparramado do piano de Takase levar o tema a outro patamar. Por mais distantes que as referências dos dois estejam, difícil testemunhar uma simbiose tão misteriosa, completa e impressionante como essa.

Clockwise: The Music of Cedar Walton

Ben Markley Big Band

Gravadora: OA2 Records
Data de Lançamento: 17 de fevereiro de 2017

Apesar de não ser tão conhecido como outros pianistas de hard-bop, como Horace Silver e Andrew Hill, Cedar Walton foi um compositor prolífico do subgênero, trabalhando numa escola evolutiva que vai de John Coltrane a Joshua Redman – com forte destaque ali com Art Blakey e os The Messengers. O pianista Ben Markley, natural da pequena cidade de Laramie, em Wyoming (EUA), decidiu fazer uma homenagem a Walton com arranjos de big band às suas composições. O resultado soa como uma rápida passagem pela evolução desse formato: de início, em “Cedar’s Blues”, paira um clima festivo à lá Broadway, passando ali pelo estilo Woody Hermann (“Clockwise”), Dizzy Gillespie e Count Basie (vide o arranjo de “Bolivia”, com o baixo contínuo). Markley reuniu vários músicos de onde leciona, a Universidade de Wyoming, além de outros feras da cidade de Denver. Markley é o típico líder pianista que delimita as transições dos instrumentos, e o resultado agrada principalmente porque a sua música é capaz de superar qualquer discussão acerca de sua originalidade técnica. Muito do que está lá já foi explorado, portanto o foco está mais nas possibilidades dos temas de Walton. “I’m Not Sure” exala jovialidade e “Fiesta Espanol” é pra bailar, enquanto a balada “Holy Land” não demora pra ficar instigante como a maioria das outras músicas. Aumente o volume e deixe essa big band te cativar também.

Planetary Prince

Cameron Graves

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2017

Falar do jazz hoje em dia e não mencionar a turma do West Coast Get Down, que inclui Kamasi Washington, Miles Mosley, Ronald Bruner Jr., entre outros, é deixar um vácuo que ajuda a entender muitos dos rumos do gênero nos dias de hoje. O pianista Cameron Graves é peça fundamental desse grupo, porque conecta, complementa e tem forte protagonismo nas direções sônicas futurísticas, soberbas, enfim, o que mais você quiser associar a discos como The Epic (2015) e Uprising (2017). Para sua portentosa estreia, Graves se inspirou num título chamado “O Livro de Urântia”, dos físicos William e Lena Sadler, que dão uma visão de mundo que parece uma epifania. Em seu álbum, Planetary Prince, essa epifania inspira ritmos agilíssimos que se entremeiam a solos e longas passagens. “Adam & Eve”, por exemplo: com indescritível simbiose com o baterista Bruner Jr., Graves arremeda uma instigante sessão que faz do piano um instrumento tão vigoroso quanto uma guitarra distorcida é para o rock. Os solos de Kamasi Washington são totalmente reconhecíveis, afinal, boa parte das sessões foram registradas na mesma época em que gravou seu disco lançado em 2015. Quem assume o baixo é Thundercat, que no meio de tantos virtuosos desempenha o importante papel de relativizador sônico. Enquanto Graves encontra um ponto entre o agressivo e o sério em “Andromeda”, Thundercat está ali no pano de fundo, usando a estabilidade como o ponto fora da curva diante de tanta energia.

A Night Walking Through Mirrors

Chicago/London Underground

Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2017

“Isso é música de protesto”, disse o trompetista Rob Mazurek sobre o novo disco do projeto Chicago Underground, que mantém como duo com o percussionista Chad Taylor. Há duas importantes adições: o pianista Alexander Hawkins e o baixista John Edwards, ambos britânicos. Por isso, o nome adotado para A Night Walking Through Mirrors ficou Chicago/London Underground, e por mais que a ascensão de Trump e Brexit pudessem servir de pano de fundo, não é bem disso que o ‘protesto’ se enquadra. Primeiro: ele foi gravado ao vivo no Café Oto, em Londres, em abril de 2016 – ou seja, antes de Theresa May substituir David Cameron no Parlamento e antes das eleições norte-americanas. Mas, se atermos à ótica sugerida por Mazurek, podemos entender A Night Walking Through Mirrors como uma obra de polifonia pulsante. O som é tão esparramado quanto as músicas menos expressivas do Art Ensemble of Chicago, e o verdadeiro sentido conjuntural depende de uma ‘aposta’ do ouvinte. Cada uma das quatro faixas tem mais de 15 minutos, e a dinâmica delas nem sempre se dá pelo ritmo ou pela construção harmônica. Por outro lado, é aí que tá a expressividade: solos fragmentários, notas jogadas ao vento e distorções entre sons que evitam o choque um com o outro na maioria dos temas mostram que a improvisação às vezes tende a ser fugaz, mas, ainda assim, arrasadora.

Ouvir via BandCamp

Araminta

Harriet Tubman: The Band

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2017

Harriet Tubman foi uma afroamericana que lutou pela abolição dos escravos no final do século XIX e trabalhou como espiã do Exército, em busca de libertar o maior número possível de escravos. O quarteto formado por Brandon Ross (guitarra), Melvin Gibbs (baixo), JT Lewis (bateria) e Wadada Leo Smith (trompete) sonoriza o flamejar de sua ininterrupta busca pela liberdade para todos, com bravura e determinação. Araminta tem o significado de caráter exaltado, protetor – nome que muitos usavam para se dirigir a Harriet. Wadada, na verdade, é um convidado especial no disco, e sua presença é tão expressiva que divide com as distorções de Ross o protagonismo do álbum. Em “Ne Ander” a transição da guitarra para o solo de Wadada chega a ser emocionante por conta da agudez do instrumento. O trompetista utiliza o efeito do harmon mute, claro, mas recorre a uma técnica pausada que lhe garante maior expressividade, no melhor estilo Enrico Rava/Miles Davis. “The Spiral Path to the Throne” é obscuramente maravilhosa, prova de que o post-rock e o fusion-rock têm muitas semelhanças, principalmente no quesito ‘calor musical’. Os músicos também homenageiam Nina Simone em uma canção com o nome dela, num clima meditativo que busca compreender o ardoroso sentimento que ela transpunha às canções.

Ouvir via BandCamp

Axis

Irabagon, Hegre & Drønen

Gravadora: Rune Grammofon
Data de Lançamento: 17 de fevereiro de 2017

“Expressionismo hardcore”. “Lirismo íntimo”. O sax-tenorista Jon Irabagon tem um estilo mecânico de tocar voltado à dodecafonia. O filipino é considerado um virtuose no instrumento – tanto que foi congratulado pelo prêmio Thelonious Monk, além de ser elogiado pelas revistas DownBeat e Time Out. Mas, em seu trio firmado com os noruegueses John Hegre (guitarra) e Nils Are Drønen (bateria), o traço mecanizado ganha novos braços. Hegre brinca com pedais e manipulação de cordas e o kit de bateria de Drønen tá lá pra complementar o senso de estranheza em Axis. São dois temas, de 18 minutos cada, que possuem jeitos diferentes de gradualismo. Perceba como elas começam meio esparsas, até que todo esse ‘mecanismo técnico’ se aglomera de uma forma explosiva, resultando em ritmos intensos de free-jazz à lá Peter Brötzmann e Fire! Orchestra. Irabagon conheceu Hegre e Drønen numa de suas muitas visitas à cidade norueguesa de Bergen, que possui uma cena de jazz interessante (The Last Hurrah!, por exemplo, é de lá). Um tema chama-se “Berlin” e outro “Fukuoka” e representam sessões tocadas nessas duas cidades (alemã e japonesa). Na maioria do tempo há uma exploração melancólica dos tempos, mas quando a sinergia é ativada em ritmo máximo, aí se percebe como a radicalização do termo ‘mecânico’ pode soar destrutiva de diferentes maneiras, a partir do propósito de cada tema.

Sooner and Later

Julia Hülsmann Trio

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2017

Ouvintes pouco habituados ao jazz atual podem não saber, mas o Radiohead é um grande queridinho dos instrumentistas atuais, incluindo a pianista alemã Julia Hülsmann, que deu uma versão ainda mais lenta para “All I Need”, de In Rainbows (2007). Seu novo disco no formato trio, complementado pelo baterista Heinrich Köbberling e o baixista Marc Muellbauer, se agiganta em baixo volume. Como assim? É que suas peças parecem o fluir das águas, o som de uma natureza que revela suas maravilhas após certo momento de atenção por parte do ouvinte. Para isso, não é o volume que conta. Em “Thatpujai”, por exemplo, ela se baseou em alguns solos da influente pianista conterrânea Jutta Hipp, que fez sucesso nos anos 1950. Porém, Julia dá uma aplainada, põe tudo em superfície, como se a música fosse expressão própria. Difícil definir uma escola para ela, mas é de se observar o fato de que essas construções harmônicas têm valiosa contribuição de Muellbauer, compositor de “The Poet (For Ali)”, onde piano e baixo formam uma contraposição avant-garde. Köbberling também é compositor, de dois temas: “You & You”, com interessante levada de swing muito bem dinamizado por Julia; e “Later”, onde o serialismo se dissipa numa das composições onde mais se sente a integração do trio. Os 6 temas compostos por Julia sugerem funções variadas aos demais instrumentistas, com clara preocupação de acordes, ritmos e pontuações. O resultado soa com tanta leveza, que teorizar tudo isso soa um exercício difícil. É a atenção que rende complexidade aqui.

Adquirir via Challenge Records

Unfold

The Necks

Gravadora: Ideologic Organ
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 2017

Trios de jazz no formato piano-baixo-bateria são bastante comuns, e por mais que pareçam compactados, apresentam bastante versatilidade. De Ahmad Jamal a Hiromi, passando por Bill Evans e Matthew Shipp, o formato já protagonizou diversas ‘revoluções’. Por mais trios que possam existir no mundo jazzístico, nenhum é como o The Necks. Formado por três experientes australianos – Chris Abrahams no piano, Tony Buck na bateria e Lloyd Swanton no baixo, que iniciaram carreira em outros projetos nos anos 1980 – o The Necks erige as composições como se estivesse compondo uma peça de post-rock. Unfold já é o 19º trabalho do grupo, e a estreia pelo selo Ideologic Organ, de Stephen O’Malley (famoso por ser o guitarrista do Sunn O))) ). São 4 peças com mais de 15 minutos cada. A variação dos temas se dá de maneira progressiva: a experiência é como se Pierre Boulez se ativesse ao piano e fosse impactado pelo som do Godspeed You! Black Emperor. “Overhear”, por exemplo, tem um clima tântrico que lembra a forma com que Airto Moreira colaborava com maracas e percussões naqueles sons viajandões de fusion dos anos 1970. “Blue Mountain” é mais atmosférica, com o piano delineando como se estivesse se expressando a cada momento que encontra estrelas de uma imagem espacial. Mais atmosférico que referencial, Unfold é prova de que devemos abrir mais as nossas mentes para captar como um formato tido como convencional tem ultrapassado todas as barreiras. Há mais de duas décadas o The Necks tem feito isso, mesmo distante dos holofotes.

The Comedian (Soundtrack)

Terence Blanchard

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 7 de fevereiro de 2017

Tudo bem, os discos lançados pela Blue Note andam tão repetitivos quanto as atuações de Robert DeNiro nos últimos anos, mas fica difícil não se encantar quando se trata do trompetista Terence Blanchard na jogada. Famoso por trafegar entre lindas baladas com acordes expressivos e um dos nomes mais fortes do hard-bop nos dias de hoje, o músico de Nova Orleans deu um entorno melancólico à trilha de um filme em que o protagonista, amante de jazz, também é colecionador de discos de Art Blakey. Blanchard não só já tocou com os Jazz Messengers do mencionado baterista, como supõe uma abordagem madura de sentimentos que vão da tristeza à cretinice incorporada pelo personagem de DeNiro. Se por um lado soa jovial em “Deli to Soup Kitchen”, por outro é reflexivo em “Tit For Tat Nocturne”, que pode até ensaiar uma dança com a(o) companheira(o). A seu lado, Blanchard conta com os saxofonistas Ravi Coltrane e Khari Allen Lee, o pianista Kenny Barron, o baixista David Pulphus e o baterista Carl Allen. O som típico da Blue Note, que tem se prendido aos limites do hard-bop a uma audiência que se julga sofisticada, é preservado. A forma com que Blanchard evoca o som, porém, nos remonta mais a sentimentos que observação técnica. Desde os anos 1980 os trompetistas o mantêm como referencial, e uma simples audição da trilha de The Comedian prova que esse culto deve ser prolongado por um bom tempo.

La Saboteuse (Chapters 1 & 2)

Yazz Ahmed

Gravadora: Naim Records
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 2017

Ela é tão ambiciosa quanto Kamasi Washington e Yussef Kamaal, mas tem um som que difere do ocidental. Deve ser porque Yazz Ahmed tem descendência do Bali, onde elementos percussivos, harpas e sons que muitos chamariam de world-music se entremeiam a guitarras e metais. Yazz é trompetista, e sabe como fazer do instrumento um propagador dessa riqueza tântrica de admirar fãs de Alice Coltrane e Low Leaf. Ela já tocou com Lee ‘Scratch’ Perry, com a pioneira jazzista Toshiko Akiyoshi e contribuiu em The King of Limbs (2011), do Radiohead. Ela também tem um pé no jazz árabe e devolveu tudo em um projeto bem ambicioso, que condiz com a vastidão de sua trajetória. Trata-se de uma série de álbuns que se chama La Saboteuse, dividido em três capítulos. Por enquanto, dois deles estão disponíveis: o primeiro, The Space Between The Fish & The Moon tem quatro temas curtos, finalizando com a faixa-título, uma viagem por um som colorido, onde Yazz imprime beleza em notas longas que sintetizam a jornada oriental do disco. O segundo chama-se The Shoal of Souls e tem apenas três faixas, com destaque para “Al Emadi”, com soberbos arranjos de metais, guitarras psicodélicas e uma percussão que parece vir da Indonésia. Os temas são ricos em vivacidade e boas vibrações, e a técnica de Yazz Ahmed é dotada de brilhantismo e espiritualidade. Mal podemos esperar para o 3º La Saboteuse

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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