Groovin’ Jazz: Giuliana Soscia, Sun Ra, Chris Potter e mais (abril/2017)

Confira os 10 melhores discos de jazz lançados em abril de 2017

Quase 25 anos depois da morte de Sun Ra, vira e mexe somos apresentados a algo inédito. Não deixa de ser um preview do que pode rolar com a obra de Prince nas próximas décadas, ainda que o bandleader mais intergalático de todos os tempos não tenha vivido a época de digitalização da música.

Sorte de Sun Ra? Talvez ele gostasse do alcance que sua obra obteve agora, mas deixemos de conjeturar sobre os mortos. Nesse caso, vale enaltecê-los com emoção, como fez o saxofonista Jimmy Greene, que dedicou um segundo disco à filha que perdeu no massacre da escola primária Sandy Hook.

A seleção Spiritual Jazz (re)apresenta diversos feras muçulmanos que cruzaram o jazz com referências orientais, entre 1957 e 88: Yusef Lateef, Ahmad Jamal e o importantíssimo Ahmed Abdul-Malik entre eles.

Tá, e as novidades?

Temos Chris Potter mostrando um lado mais artístico de sua expressividade no sax-tenor, a pianista malaia Linda May Han Oh e a beleza do acordeão da italiana Giuliana Soscia pra deixar o dia de qualquer um melhor.

Confira 10 dos melhores discos de jazz lançados em abril de 2017. Antes, uma playlist com faixas de vários discos citados na coluna Groovin’ Jazz (aproveita e segue o Na Mira lá no Spotify):

Bottle Tree

Bottle Tree

Gravadora: International Anthem
Data de Lançamento: 21 de abril de 2017

Spotify | Deezer | Apple Music | BandCamp

O projeto Bottle Tree tem uma definição bem interessante: “é como uma fantasia futurista de Stevie Wonder tocando com Don Cherry e Novos Baianos no começo dos anos 1970”. De Chicago, o projeto é formado pelo vocalista A. M. Frison, o cornetista Ben Lamar Gay e o italiano Tommaso Moretti nos efeitos. O som é meio space-funk com ritmos africanos, notas dodecafônicas e um clima que mistura obscuridade, nu-jazz, avant-garde e sons tradicionais do norte africano. Em “Another Other”, os efeitos trazem uma ideia de se jogar na lama, coisa de aventura descompromissada. “Living Ashes” mostra um pouco da influência Motown em uma textura psicodélica e “What Are You Wearing” não ficaria estranha num disco de Anthony Hamilton. Bottle Tree, o disco, soa como um exercício de relaxamento e acalanto ao por essas distintas referências em sobreposição confortável. Às vezes eles extrapolam as junções e flertam até com o drum’n bass, caso de “Permanent Change”, mas a sensação de unidade só fortalece a cada audição.


The Dreamer is The Dream

Chris Potter

Gravadora: ECM
Data de Lançamento:  28 de abril de 2017

Adquirir via ECM Records

“Minha música é feita para mover as pessoas”, disse o saxofonista nova-iorquino Chris Potter para justificar por que as novas gerações têm se identificado tanto com seu estilo. Sonny Rollins, Paul Desmond e John Coltrane são frequentemente mencionados como influência, mas em seu 19º disco, bom, já nem é mais preciso falar de originalidade, né? Existem bons motivos para Chris Potter destacar-se como um dos maiores sax-tenoristas de seu tempo: ouvir suas notas esticadas é mais ou menos como conversar com uma pessoa inteligente sobre determinado tema. Quando você acha que ela já te impressionou com um argumento, em seguida vem outro que te impressiona mais ainda. Suas notas funcionam mais ou menos dessa forma: em “Heart in Hand”, seu tenor busca uma balada emocionante, até que ele impõe outra nota que a torna ainda mais bela do que imaginamos. Em “Yosadhara”, Potter imprime o fator ‘ótima impressão’ com mais rapidez, sem necessariamente deixar o tema acelerado. Ao lado do pianista David Virelles, o baixista Joe Martin e o baterista e percussionista Marcus Gilmore, a limpidez sonora é o campo ideal para seus solos inspiradíssimos, prova de que o sax-tenor continua firme e forte como na época de Coltrane.


North Wind

Giuliana Soscia & Pino Jodice 4tet com Tommy Smith

Gravadora: Cose Sonore
Data de Lançamento:
28 de abril de 2017

Spotify | Apple Music

Considerada uma das melhores acordeonistas de jazz do momento, Giuliana Soscia conhece bastante a música tradicional escocesa, tanto que integrou a Scottish National Jazz Orchestra. Em seu novo disco, North Wind, ela vai ainda mais a fundo nessa direção, mas seguindo um fluxo jazzista, intercambiando notas, flertando passado e presente e dando novos rumos interpretativos para a música celta. Para isso, ela conta com a presença de um escocês: o sax-tenorista Tommy Smith, que também assume sax-soprano (que, todos sabem, casa muito bem com acordeom ao propor convergência de notas agudas) e a flauta shakuhachi – como se pode contemplar na faixa de encerramento, “Sun”. De fato, cada músico merece destaque em North Wind por mostrar que é possível alinhar três coisas: expressão individual, correlação histórica e som conjuntural. O interlúdio que o pianista Pino Jodice cria em “Alba” é de admirar maestros, e é graças à condução do baixo de Luca Pirozzi que o tema ganha contornos divinos. Quem gosta dos solos intempestivos vai adorar o tratamento dado à flamejante “Lu Scottis”, que parece a ária de uma ópera que vai da tensão à felicidade. Poucos discos de jazz refletem a expressão de um local de forma tão original (um exemplo recente é America’s National Parks, de Wadada Leo Smith). Em North Wind, a Escócia surge no nosso imaginário como um local divino, inatingível, esplêndido, tanto que nem dá vontade de sair de lá.


Flowers: Beautiful Life Vol. 2

Jimmy Greene

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 28 de abril de 2017

Spotify | Apple Music

Em dezembro de 2012, um jovem de 20 anos invadiu a escola primária de Sandy Hook, matando 26 pessoas em Connecticut (EUA). Anna Greene, uma das vítimas, tinha o mesmo perfil da maioria dos mortos naquele dia que chocou os EUA e o mundo: era uma criança de 6 anos. Arrasado pela perda da filha, o saxofonista Jimmy Greene dedicou um álbum para ajudar a extravasar a dor em 2014, intitulado Beautiful Life. Pouco mais de 2 anos depois, ele continua sua linda jornada de perfazer a memória com beleza. Em Flowers: Beautiful Life Vol. 2, Greene alterna entre sax-tenor e sax-soprano melodias tão valiosas quanto as lembranças dos desenhos e carícias da filha. Em “December”, o sax-soprano parece flutuar um campo imaginário, salvaguardados pelas notas etéreas do piano da canadense Renée Rosnes (que lançou o ótimo Written on the Rocks, um dos melhores discos de jazz do ano passado) e o baixo de Ben Williams. A primeira faixa, “Big Guy”, faz referência à forma com que Anne chamava o pai. A preocupação com a harmonia torna a canção vivaz, alegre: uma forma de mostrar o quanto a filha lhe inspira beleza e paz de espírito – tanto que ele decidiu refazer um clássico de Level 42, “Something About You”, de 1986, transformando-a em uma mensagem repleta de despejo emocional com o solo intenso de sax-soprano.


Walk Against Wind

Linda May Han Oh

Gravadora: Biophilia
Data de Lançamento: 14 de abril de 2017

Deezer | Apple Music

Inspirada no mímico mais famoso do mundo, Marcel Marceau, Walk Against The Wind é fruto do mesmo trabalho que influenciou o moonwalk de Michael Jackson. Mas, o que a baixista nascida na Malásia Linda May Han Oh faz em seu 4º disco tem um viés tão realista quanto a obra de Marceau. Ela centra sua música nos múltiplos percalços da vida, da beleza improvável de “Lucid Lullaby” aos percalços que devem ser vencidos pela insistência, ideia passada por “Western”. O sax-tenor de Ben Wendel é o principal aliado de Linda nessa jornada: sua sonoridade é aguda e parece ultrapassar campos dimensionais, por dar maior reverberação à mensagem musical (para tanto, vide “Speech Impediment”). O guitarrista Matthew Stevens também é um marcador importante: em “Mother Reason”, ele deixa os acordes abertos para criar uma sensação de mistério e faz o entremeio do clarinete-baixo em “Deepsea Dancers”. Pode-se dar o mesmo grau de importância ao baterista Justin Brown, que parece ter gosto pelas intervenções minimalistas, caso de “Ikan Bilis”. Mesmo com as devidas distinções, Walk Against The Wind sugere que alguns detalhes são suaves: é preciso atenção para saber lidar com todos eles para, sem pressa, chegar a soluções criativas.


So It Is

Preservation Hall Jazz Band

Gravadora: Sony
Data de Lançamento: 21 de abril de 2017

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Se um dia alguém duvidar que as origens do jazz estão entrelaçadas a Nova Orleans, nem precisa apresentar Louis Armstrong, King Oliver ou outros clássicos. Apresente-o à Preservation Hall Jazz Band. Os principais integrantes do grupo são ‘herdeiros’ diretos de grandes instrumentistas da cidade mais jazzística que existe. O baixista e tubista Ben Jaffe é filho do casal que inaugurou o histórico clube Preservation Hall, em 1961. O clarinetista Charlie Gabriel, de 82 anos, é tataraneto do lendário contrabaixista Narcesse Gabriel, que deixou a cidade mais musical nos idos de 1850. O septeto manda brasa nos metais, com forte contribuição do trompete arrojado de Branden Lewis e o trombone ostensivo de Ronnel Johnson, que sabe muito bem como ajustar os growls típicos da jungle music de Duke Ellington em temas explosivos, como “Santiago”. So It Is é o 2º disco com canções totalmente originais. Espere bastante tempero afro-cubano (vide “La Malanga”) e som tão robusto quanto das antigas big bands, como em “Convergence”. Por mais que a tradição esteja imposta no grupo, a PHJB também é dotada de um som modernizado, com dedicação especial à melodia do piano de Kyle Roussel, como se ouve na faixa-título.


Thunder of the Gods

Sun Ra & His Arkestra

Gravadora: Modern Harmonic
Data de Lançamento: 7 de abril de 2017

Spotify | Apple Music

Nos últimos anos, a música de Sun Ra tem gerado interesse em quem busca desvendar quais são os múltiplos sons do espaço que o bandleader almejava em vida. Ra tem mais material escondido do que Prince, tanto que gravou centenas de álbuns, muitos deles desvendados aos poucos ao público (ele morreu em 1993). Thunder of The Gods é um deles. Duas das três canções do disco foram registradas na época em que gravou o álbum Strange Strings (1966), onde o músico apareceu extraindo barulho de uma porta como se fosse instrumento: em uma dessas faixas, “Moonshots Across The Sky”, os metais parecem sair de dentro de uma panela, enquanto a faixa-título confunde instrumentos de metais como se fossem de cordas – vide as ranhuras de viola, oboé, trombone e sax-barítono, tudo junto e misturado. A primeira canção do álbum, “Calling Planet Earth/We’ll Wait For You”, são das sessões do álbum Universe in Blue (1972), já afeito às explorações do free-jazz naquele momento, convergindo clarinete, trombone e trompete (estranho, talvez, seja o fato de Danny Ray Thompson usar um sax-barítono no meio de toda essa fuzarca, instrumento não muito utilizado no free-jazz).


Spiritual Jazz 7: Islam

Vários Artistas

Gravadora: Jazzman
Data de Lançamento: 6 de abril de 2017

Spotify | Deezer | Apple Music | BandCamp

Antes dos ativistas Martin Luther King Jr. e Malcolm X defenderem os direitos civis nos Estados Unidos, já se fazia associação de movimentos de liberação com o islã. Músicos da era bebop como o baterista Kenny Clarke e o saxofonista Yusef Lateef trouxeram esse movimento para a música de forma espiritual. É importante essa distinção nos dias atuais, em que as variantes do jazz estão entrelaçadas a ponto de ofuscar suas origens (o que não é algo ruim, veja bem). Jazz também é África, e África também é islã – por isso dá pra perceber muita percussão (“Africanos/Latinos”, de Ritual Trio) e sons extravagantes com sax e piano a todo vapor (“Uhuru”, do Creative Arts Ensemble, é um mantra de conexão espiritual). Todas as músicas dessa 7ª edição do Spiritual Jazz foram gravadas entre 1957 e 1988, época em que o bop norte-americano passou a incorporar as múltiplas sonoridades do mundo. Os temas são de músicos que adotaram o islã como religião, incorporando o leste africano (vide “The Camel”, de Idrees Suliman, onde se tem a impressão de uma big band no deserto, captando um oásis sonoro) e um tipo de som zen da Ásia, impressão que se tem ao ouvir “Humility in The Light of Creation”, de Maurice McIntyre. Num disco que celebra o islã e o oriente no jazz, o percussionista Ahmed Abdul-Malik não poderia ficar de fora, com “Nadusilma”, do clássico Sounds of Africa (1962). Três anos antes, Abdul-Malik havia gravado um dos álbuns mais importantes e influentes no cruzamento do jazz com referências orientais: East Meets West (1959).


Depaysement

Zach Fischer Quintet

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
23 de abril de 2017

BandCamp

O guitarrista da Filadélfia (EUA) Zach Fischer tem seguido uma espécie de tendência do jazz atual: centrar seus temas para promover a liberdade civil em seu país. A imagem que ele estampa em Depaysement permite algumas abstrações para essa finalidade: uma estrada sem interrupções, ladeada de gelos e postes. É uma imagem corriqueira, mas simbólica, porque dá a ideia de que a liberdade está principalmente no direito de ir e vir. Dá pra sentir isso nos 8 temas do álbum: Fischer manipula sua guitarra como se estivesse nos tempos áureos do bop, intercalando ritmo com as sábias intervenções na bateria de Julian Miltenberger. Os solos do sax-alto de Devon Rickert miram Sonny Rollins em “Rojava” e passeiam como riffs em “Harsjön” – onde a guitarra de Fischer recebe válvula enérgica como num rock progressivo. Vale destacar também a sonoridade dos teclados de Micah Graves, que operam como se fornecesse o elemento fusion ao som bop que se encontra com acid-rock. Todo esse passeio é possível por quê? Por causa da liberdade, claro.


The Bolt Thrower of Collective Improvisation

Zawinul Corpse

Gravadora: Maoist Mojo
Data de Lançamento: 24 de abril de 2017

BandCamp

Zawinul Corpse é composto por uma dupla de Fleetwood (Reino Unido) que faz um barulho danado: de um lado, o sax-altista que se denomina Gargamelek surge com sopros rasgados que habitam a esquizofrenia sonora entre Albert Ayler e Peter Brötzmann. De outro, o baterista Popster, o grande responsável pela hecatombe sonora por promover um quebra-quebra típico de Keith Moon, como se ele tivesse tomado algumas lições de Paal Nilssen-Love. A proposta de The Bolt Thrower of Collective Improvisation é pegar uma live frenética em estúdio e trazer pro disco, algo que a Mansarda Records faz no Brasil há cinco anos. Para isso, eles contam com os esforços da Maoist Mojo, cuja página no Facebook tem pouco mais de 30 curtidas. Isso porque o som é inacessível, detalhe que passa despercebido para os fãs de free-jazz. No caso das 3 faixas de The Bolt Thrower o que realmente interessa é a intempestividade: sax e bateria, por si só, podem soar como um rolo compressor ágil e destruidor, mesmo para quem já tá acostumado com as sandices do gênero.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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