Groovin’ Jazz: 10 discos de maio/2016 que você tem que ouvir

Novos discos de Carla Bley, Jack DeJohnette, René Marie e mais



Maio veio para sentenciar que, mesmo em tempos em que sabemos que o aquecimento global seja uma realidade, o frio ainda existe – pelo menos no Brasil.

Indiretamente, esta coluna de jazz do mês de maio tem um pouco disso, embora apenas um ou outro lançamento seja nacional. Há frieza, serenidade, pode-se até falar em cálculo em boa parte dos discos retratados na coluna Groovin’ Jazz.

Naturalmente, quando se fala em gelidez, me vem à cabeça instrumentistas como Enrico Rava e Carla Bley.

Sendo assim, o trompetista italiano até pode servir como influência para o trompetista Cuong Vu e a flautista Melanie de Biaisio.

Já Carla, com 80 anos completos, sabe impressionar sem que o ouvinte pese sua idade, técnica ou estilo: Andando El Tiempo, que obviamente seria citado aqui, é um álbum de nuances: não há solos para comprovar sua genialidade; há ritmos, imposições, ideias conjunturais e uma fluência inimaginável em trios com pouca bagagem ou experiência. Que ela viva muito mais para nos agradar!

Ambição, flexibilidade e pungência são outros termos que você irá se deparar com os 10 lançamentos que merecem destaque no mês. (Se você gosta de jazz vocal, guarde pelo menos dois nomes daqui.)

Confira também:

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Conheça, permita-se ouvir, conteste o que está escrito nestas linhas. Boa audição!

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What Words May Come

Amado

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
31 de maio de 2016

Encontre via BandCamp

O norte-americano de Virginia Amado Ohland impôs um desafio que jurado nenhum de quaisquer programas de auditório arriscaria: manter um projeto com postagens diárias de músicas à capella. Não há efeitos, correções, nem edições; apenas o puro registro, com arranjos crus, com bateria, piano e um ou outro acompanhamento (em “Mid-Point of the Bridge”, por exemplo, rola até um beat-box). Ah, e antes que se pense tratar de versões, eis a direção do trabalho de Amado: a poesia haiku, com cortes que, segundo o próprio músico, “expressa imagens e ideias com economia de palavras”. Assim, What Words May Come é um trabalho que vai carecer da atenção do ouvinte, caso queira captar a ideia de composições complexas, como “Perhaps Never There” e “Reflected in The Meadow”. Neste caso, a crueza pode ser uma barreira, mas dê foco aos alcances técnicos de Amado: geralmente sutil, ele é o Michael Bublé despido, ou o vislumbre de um real ensaio de músicos que julgamos talentosos. Só pela voz, Amado sabe envolver, tanto que até dá vontade de contribuir com uma rima ou outra ali no meio. Que esta ousada empreitada ganhe projeção e inspire ainda mais os que acham que o jazz vocal e a música à capella como um todo estão em crise.

Ouça: disco na íntegra


EM DESTAQUE

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Andando El Tiempo

Carla Bley

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016

A genial Carla Bley completou 80 anos, e para isso, juntou-se ao marido, o contrabaixista Steve Swallow, e o saxofonista Andy Sheppard (que alterna entre o sax-alto e sax-soprano) num disco de linhas pastorais, sublime por parecer um tesouro artístico que parece escondido justamente porque não procuramos por ele. Bley nunca se destacou como solista: inspiração, pra ela, está na composição do todo. Por isso, é difícil destacar trechos de Andando El Tiempo. Historicamente, lembra os anos iniciais da pianista, antes de formar o influente coletivo Jazz Composer’s Guild (que levou à gravação do famoso Escalator Over The Hill, de 1971). Na primeira faixa, “Sin Fin”, há uma ‘limpeza’ sonora que remonta ao mais melancólico do blues, com um solo de Sheppard que lembra um Lester Young aveludado. Na maioria das vezes, as notas de Carla soam como gotas d’água pingando. Já em “Camino al Volver”, ela cria escaladas atonais, mas numa tranquilidade que nos remonta ao mais ‘natural’ dos movimentos percebidos na arte cinética. Bley mantém o trio há pelo menos 20 anos, passeando por distintas abordagens como se elas fossem parte de uma linha contínua. Andando El Tiempo, por si só, compreende fenômenos imutáveis, como o passar das horas, as contradições situacionais e a inexatidão do ciclo da vida. Trazer isso, para o som… É coisa de gênio, sim.

Ouça: “Vashkar”


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Cuong Vu Trio Meets Pat Metheny

Cuong Vu Trio & Pat Metheny

Gravadora: Nonesuch
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016

Cuong Vu é um trompetista que se ‘formou’ tocando com o guitarrista Pat Metheny. Ao lado do contrabaixista Stomu Takeishi e o baterista Ted Poor, o músico de descendência vietnamita traduz a essência do que Metheny melhor trouxe para os anos 1980: poder transitório das baladas tântricas aos solos que incluem aparatos eletrônicos. Em Cuong Vu Trio Meets Pat Metheny, a ideia do trio de Vu permanece: numa composição como “Tiny Little Pieces” prevalece o som friamente calculado que lembra Enrico Rava (com pequenas faíscas impostas por Metheny), mas os que já conhecem a música de Vu sabem muito bem que gêneros desafiadores como free-jazz e hard-bop fazem parte de seu repertório. “Not Crazy (Just Giddy Upping)” começa com linhas que lembram Freddie Hubbard, enquanto a faixa inicial, “Acid Kiss”, é tão espirituosa quanto a música de Dave Douglas. Como bem disse o crítico Kevin Whitehead, da rádio NPR, o álbum vai do estridente ao doce. “O centro se mantém. Os extremos equilibram e enriquecem um ao outro. O áspero e suave dá a eles outro contexto”. Mais uma prova de que os trios são a grande fortaleza jazzística pós-2010.

Ouça: “Let’s Get Back”


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In Movement

Jack DeJohnette, Ravi Coltrane & Matthew Garrison

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 4 de maio de 2016

Adquirir via ECM

Aos 73 anos, Jack DeJohnette é o mentor. Já era mais ou menos assim quando fez parte da fase fusion de Miles Davis, e isso só tem ampliado ainda mais as direções de seu trabalho com o passar dos anos. Em seu novo trio, ele chamou filhos de dois instrumentistas contemporâneos dele: o baixista Jimmy Garrison e o lendário saxofonista John Coltrane, que tocavam juntos. Matthew Garrison, 45 anos, assume o mesmo instrumento que o pai, mas de forma mais eletrificada. Já Ravi Coltrane, aos 50 anos, utiliza saxofones de um jeito bem diferente do artista de A Love Supreme: quando empunha o sax-soprano, como faz em “Serpentine Fire”, não tem como não lembrar de Wayne Shorter. O brilho de Ravi é mais contido, mas não deixa de ser iluminado: na manha, ele faz bom uso do sax-tenor em notas curtas em “Two Jimmys” e busca uma linha blueseira do soprano em “Lydia”. Entrementes, o trio também sabe ser bem arrebatador: as baquetas de DeJohnette entram em chamas em “Rashied”, homenagem ao excelente baterista Rashied Ali, que tocou com John Coltrane antes dele morrer. Os sopros de Ravi são intensos, cheios de vida, como se ele fosse parte daquele grupo. Não à toa, é o momento em que toca mais parecido com o pai.

Ouça: “In Movement”


Melanie Di Biaisio - Blackened Cities - EP

Blackened Cities

Melanie de Biaisio

Gravadora: Le Label/PIAS
Data de Lançamento: 27 de maio de 2016

Imagine a junção de Laughing Stock (1991), do Talk Talk, e In a Silent Way (1969), de Miles Davis. E se fosse um DJ afeito à música lounge, como soaria? Provavelmente muito similar ao álbum Blackened Cities, um único take de 20 minutos do grupo liderado pela vocalista e flautista Melanie de Biaisio. A bateria cíclica de Dré Pallemaerts é levada num andamento que lembra bastante um drum’n bass desacelerado, enquanto piano, clavinete e baixo criam uma sonoridade confortável para a serenidade vocal de Melanie. As cidades que o disco se refere têm a ver com um clima pós-industrial, algo que ela testemunhou em Detroit e Manchester em turnê (sua cidade natal, Charleroi, na Bélgica, também tem esse ar). O título e a capa são cinzentos, mas se a música realmente fosse levada em consideração no layout, jogaria um pouco mais de azul. As melodias são cristalinas, ainda que não escondam a construção avant-gardista. Biaisio, tanto na voz quanto na flauta, sabe como deixar tudo plano e sereno, com uma ternura natural que torna o disco curto demais para tanto deleite.

Ouça: disco na íntegra


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Sound of Red

René Marie

Gravadora: Motéma
Data de Lançamento: 13 de maio de 2016

Sound of Red já é o quarto disco na carreira da cantora de Virginia (EUA) René Marie e sua estreia só com canções originais. René aposta no suave, o que lhe dá liberdade para interagir com elementos da música flamenca, do cool-jazz e do blues sem muito esforço. Para cada uma dessas ‘investidas’, ela contou com o apoio de músicos distintos: em “Certaldo”, a guitarra de Romero Lubambo a ajuda a fazer justa homenagem à cidade italiana de mesmo nome. O baixo modal de Elias Bailey em “If You’re Mine” cria um ambiente tremeluzente para o piano de John Chin dar a direção para onde a voz de René deva ir. Ela não precisa elevar os timbres para reforçar sua personalidade em “Stronger Than You Think” (que, inclusive, tem um ar que remete a Bobby McFerrin); também não ‘força’ ao contar a história de alguém que passou por dificuldades nas ruas, em “This is (Not) a Protest Song”, que se transforma num lindo gospel. Sem necessariamente fazer soul-music, René Marie tem o soul incrustado em seu canto. Ela poderia ser uma dessas excelentes cantoras pop sem depender de programas como autotune. Mas, René Marie gosta da simplicidade, sem abrir mão da elegância musical, tônica cada vez mais perceptível em seu trabalho.

Ouça: “Sound of Red”


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Live Jazz No Hope # 3

Stibium

Gravadora: Mansarda Records
Data de Lançamento:
16 de maio de 2016

Adquirir via Mansarda Records

Os instrumentistas da Mansarda Records têm uma fixação enorme pelo free-jazz. E essa paixão é traduzida por performances arrebatadoras, sempre baseado na (não) lei do livre improviso. O estranhamente ágil ritmo percussivo imposto pela bateria de Michel Munhoz deixa o baixo de Israel Savaris numa posição meio independente, mas não menos catártica. Há um momento em que apenas os dois solam, e dá pra ouvir o grito de excitação ao fundo. Diego Dias assume sax-soprano e sax-alto, contribuindo com notas que certamente exigem muito de sua respiração. Claramente numa performance exasperadora, típico de um free-jazz vulcânico, Diego cumpre a alta exigência imposta pelo ritmo de Munhoz. Live Jazz No Hope foi gravado em Porto Alegre, reduto da Mansarda, no dia 12 de maio. Tirando um breve momento em que Dias troca de sax, o álbum capta a apresentação na íntegra, deixando que a intensidade de seus 23 minutos de duração falem por si só. Não precisava mais.

Ouça: disco na íntegra


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Escape Velocity

Theo Croker

Gravadora: DDB Productions/Sony
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016

Basta escutar a música de Theo Croker para saber que se trata de um dos trompetistas mais ambiciosos de nossos tempos. Ao contrário de contemporâneos como Ambrose Akinmusire e Christian Scott, que usam seu virtuosismo técnico como escalada para desbravamentos musicais, este jazzista nascido na Flórida é mais concentrado na essência. Ele se diz influenciado pela música pop, mas ela flui em suas notas como se fossem parte de um diálogo de fácil entendimento do público, com termos sofisticados. “Love From the Sun”, ao lado de Dee Dee Bridgewater, é uma das principais cartilhas, mas mesmo sem vocais a mensagem se faz entender. Em “Transcend”, o post-bop, marca de Croker, tá bem eletrificado, como se pairasse a supervisão de Joe Zawinul. “In Orbit” parece típico do som arregimentado por um bandleader baterista, devido às antecipações de Kassa Overall. “No Escape From Bliss” é um blues psicodélico, enquanto “Meditations”, com um solo arrebatador de seu trompete, traz o arrojo do jazz japonês (algo que ele deve conhecer bem, já que morou alguns anos na China). A verve aventureira é uma das grandes tônicas de Escape Velocity: Croker passa como um tufão por todas as vertentes do bop, com mais cuidado nos efeitos que nos arroubos de notas sequenciais. O resultado é abrangente, mas, acima de tudo, impressionante, porque mostra como ele doma todas as rédeas, conhecendo bem sua composição. De certa forma, Escape Velocity lembra um certo The Epic (2015). Escute, e vai saber o porquê.

Ouça: teaser do álbum


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Convallaria

Thumbscrew

Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 20 de maio de 2016

Adquirir via BandCamp

Mary Halvorson, Michael Formanek e Tomas Fujiwara formam o combo guitarra, baixo e bateria menos ortodoxo do jazz nos últimos anos. O segundo disco do Thumbscrew não é bem de um power-trio. Convallaria é mais um álbum vibrante do que qualquer outra coisa, algo que se deve, principalmente, ao experiente baixista Formanek: em “Trigger” e na faixa-título, vemos como a conversão, em busca de diferentes andamentos, vai bem além do apuro técnico. Ele sabe esticar e retrair, e isso deixa as coisas mais difíceis para a guitarrista Mary, que pende mais para o Oriente que o Ocidente em suas referências (vide “Sampsonian Rhythms” e “Tail of The Sad Dogs”). Mary alterna entre solos e slides como se tivesse jogando um game de luta e enfrentasse o chefe final, com dedilhados agilíssimos. Afinal, blues e avant-garde, para ela, são praticamente a mesma coisa. Por isso, intensidade e pungência estão bem entrelaçados em Convallaria, e isso adentra esferas distintas que vão do noise-rock ao blues, sem prévio aviso. O release diz que o trabalho emana um raro “poder de sequestro subscrito”, porque a tônica está justamente no arremate.

Ouça: disco na íntegra


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Rough Guide to Brazilian Jazz

Vários Artistas

Gravadora: World Music Network
Data de Lançamento: 27 de maio de 2016

Para nós, brasileiros aficionados por música, a conexão da nossa atual música popular com o jazz não é nenhuma novidade. De fato, Rough Guide to Brazilian Jazz serve mais como uma carta de apresentação à gringolândia, mas serve também para unir o que muitos críticos e ouvintes compreendem como uma cena fragmentada. Em que outro lugar Tulipa Ruiz (“Expirou”) dividiria algo com o lendário Dom Salvador (“Gafieira”)? Apesar das músicas instrumentais de Bixiga 70 (“7 Pancadas”), Iconili (“O Rei de Tupanga”) e do excelente clarinetista Victor Assis Brasil (que encerra lindamente com “Gingerbread Boy”), há muitos ‘vocais’ neste guia: tem a releitura de Juçara Marçal para “Pena Mais Que Perfeita”, de Gui Amabis; a música soul de Tássia Reis, em “Meu Rapjazz”; e a belíssima entrega da pernambucana Karina Buhr em “Minervina”, que interpretou especialmente para a compilação Goma Laca, com interpretações de músicas populares de origem africana de um passado longínquo, lá dos anos 1930. Rough Guide to Brazilian Jazz tem muito a apresentar aos brasileiros. O moderno e a nova visão do antigo não formam um choque. Mostram, por outro lado, a grande dimensão de nossa música como um todo. Quanta riqueza!

Ouça: “Mexidão”


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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