Groovin’ Jazz: 10 discos de abril/2016 que você precisa ouvir

Novos álbuns de Hiromi, David Murray, Sonny Rollins, entre outros



Maio já avança e lá vem o Na Mira querendo repassar abril. O que podemos fazer se a quantidade de lançamentos no mês quatro teve padrão tão elevado a ponto de exigir certa minúcia na escolha dos discos retratados?

A curadoria desta seção não é nenhum bicho de sete cabeças, já que a momentaneidade acaba levando a escolhas deliberadas.

Alguns podem não saber, mas a quantidade de discos de jazz lançados por mês é imensa, principalmente porque a cena está mais globalizada do que nunca – e as plataformas não entram num consenso de reunir essas novidades de uma forma minimamente amigável.

É bem comum, nessa pesquisa, encontrar discos de meses anteriores que sequer tivesse ideia de que estava na área. Mas, comprometimento é comprometimento: podemos não ser pontuais a ponto de publicar a coluna no mesmo dia que você recebe o salário do mês, mas a regra é que cada um destes 10 álbuns seja lançado no mês em questão.

Em resumo, abril nos brindou com muitos lançamentos de fusion jazz, do trio poderoso liderado por uma jovem pianista japonesa a um coletivo de mais de 10 instrumentistas que veem o funk com olhar projetado para o futuro.

A seleção também traz um disco de ragtime (ainda presente, 100 anos depois), metais surpreendentes e uma lenda do saxofone que, em mais de seis décadas de carreira, enche nossos ouvidos de beleza e maestria.

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Com vocês, 10 discos de jazz lançados em abril que você precisa ouvir. Enquanto lê, ouça uma playlist com uma música de cada álbum mencionado:

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Otis Was a Polar Bear

Allison Miller’s Boom Tic Boom

Gravadora: Royal Potato Family
Data de Lançamento: 8 de abril de 2016

O nome parece circense, mas o grupo Boom Tic Boom denota incrível serenidade em suas construções sonoras: o horn de Kirk Knuffke, o clarinete de Ben Goldberg e as notas saltitantes da pianista Myra Melford são sobressalentes no projeto capitaneado por Allison Miller. A baterista, no entanto, é mais técnica, como se suas baquetas tivessem a mesma função da batuta do maestro. “Staten Island” deixa isso bem evidente, dando destaque ao desprendimento virtuoso de Melford (“ela é especial”, elogia Miller). “High T” ensaia um hard-bop à lá The Jazz Messengers, com Knuffke conduzindo as interjeições e paradas, enquanto “Hoarding the Pod” é impulsionado pelas tensões de cordas, com um momento Jean-Luc Ponty da excelente violinista Jenny Scheinman. As modulações de cada faixa surpreendem por suas quebras naturalizadas pelos instrumentos. Miller, a condutora, vem da escola do rock. A unicidade de cada um é bastante explorada em Otis Was a Polar Bear. A forma, aqui, importa menos que o resultado.

Ouça: “Otis Was a Polar Bear”


EM DESTAQUE

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Spark

Hiromi

Gravadora: Telarc/Concord
Data de Lançamento: 1º de abril de 2016

A capa do 10º disco desta pianista, dona de uma excelência técnica que não condiz com sua idade (37 anos), parece de um álbum de K-pop. As luzem que emanam dela têm tudo a ver com o que Hiromi Uehara e os também magníficos Anthony Jackson (baixo/guitarra) e Simon Philips (bateria) teorizaram: a faísca enquanto inspiração e tônica dos 9 temas. Nesse sentido a faixa-título é um disparo de canhão: com interlúdio que nos remonta ao sci-fi anos 1980, a canção é arrebatada por clusters que se entremeiam aos solos, numa rigidez que se dissolve ao macrodinamismo estético. “Spark”, canção, é um lampejo efervescente de virtuosismo. O swing de Philips tem altas dosagens de Max Roach e mune Hiromi de artilharia pesada. Ela responde às deixas e automaticamente sonoriza todas as notas de piano como se fosse uma antiga máquina de tear descontrolada. “Wonderland” e “Indulgence” são dois fragmentos desse clímax contínuo entre os instrumentistas. “What Will Be, Will Be” adentra a esfera funk, favorecido por uma síncope que parece ter seu ponto de partida na música brasileira. Mesmo no take solo de Hiromi, em “Wake Up and Dream”, seu piano não deixa de surpreender. Diz o texto de divulgação que ela deixou-se inspirar pelo clima etéreo do sonho, mostrando que a luz, antes de ser emanada, já havia sido internalizada.

Ouça: disco na íntegra


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Black Coffee White Pepper

Le Dancing Pepa Swing Band

Gravadora: Snibor Records
Data de Lançamento: 26 de abril de 2016

O Dixieland não morreu! O swing está na veia do jazz, e apesar das constantes mudanças com o passar dos anos, caras como Jelly Roll Morton, Fletcher Henderson e Duke Ellington conectaram as orquestras aos bailes de rua. Diretamente de Valência (Espanha), a Le Dancing Pepa Swing Band rememora o swing e inventividade de outrora, refazendo clássicos como “Take The ‘A’ Train” (Ellington) e “Down By The Riverside”, bastante conhecida por ser uma canção anti-guerra. “Splanky”, aquele tema da abertura do Programa Jô Soares, de Count Basie, também é um dos destaques. O álbum de estreia do septeto possui uma produção límpida e um cuidado com arranjos e entradas de metais. Além do aprendizado com as estruturas, eles também tomaram cuidado com a roupagem – por isso mesmo, ouvir Black Coffee White Pepper é ter plena ciência da atualização do ragtime, swing e blues no século XXI. Parece pura diversão – e é legal que soe dessa maneira. Mas não deixa de ser uma honra a um dos períodos mais férteis do jazz.

Ouça: disco na íntegra


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Nihil Novi

Marcus Strickland’s Twi-Life

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 14 de abril de 2016

É comum ver o jazz influenciando o hip hop, mas nos últimos anos esse processo tem sido inverso. Um grupo como The Roots e um produtor como J Dilla têm bastante a ensinar à atual geração de jazzistas, e Nihil Novi não deixa de ser prova disso. Longe de limitar, essa proximidade conecta com as expressões das ruas, e embora o sax-altista não profira nenhuma gíria, é dotado da sapiência urbana ao saber colocar muito bem suas notas. O grupo de Marcus Strickland é formado pelo trompetista Keyon Harrold, os tecladistas Mitch Henry e Masayuki Hirano, o baixista Kyle Miles e o baterista Charles Haynes. Juntos, eles parecem coexistir em todos os continentes do mundo: há um pouco de Bali (“Truth”), Peru (“Tic Toc”) e Gana (“Sissoko’s Voyage”), entre outros cantos. A limpidez da produção de Meshell Ndegeocello é típico do efeito Blue Note: há valorização de cada entrada, de cada phrasing e do intercâmbio musical como um todo, que se destaca como uma das principais riquezas do disco. O estilo de Strickland adequa-se não apenas ao conjunto, mas às propostas de cada canção: no funk espacial de “The Chant”, as notas são altamente espaçadas, como um Pharoah Sanders mais brando. Já em “Cycle”, o performer é mais atento ao silêncio e à sintonia com o trompete – como ocorre em alguns discos de Herbie Hancock, em que o afastamento acaba tornando-se o próprio foco da composição.

Ouça: trailer do disco


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Perfection

Murray, Allen & Carrington Power Trio

Gravadora: Motéma
Data de Lançamento: 15 de abril de 2016

Os trios de jazz estão cada vez mais versáteis, e isso não tem nada a ver com idade de músicos. O veterano saxofonista David Murray, aos 61 anos, desafia a si próprio escapando das fixações classificatórias dos críticos. Ao lado da pianista Geri Allen e da baterista Terri Lane Carrington, ele formatou um som que não parece nada compactado. Na verdade é tudo tão bem preenchido, que nenhum elemento ‘faz falta’: a ausência do contrabaixo não é problema para Allen, que preenche com linhas intermitentes no que parece ser uma espiral arrebatadora. Carrington lembra os melhores anos de Charles Moffett, baterista que esteve ao lado numa das fases mais criativas de Ornette Coleman. Por falar nele, vale lembrar que Perfection foi gravado um mês depois da morte do ‘pai’ do free-jazz. A faixa-título foi composta por Coleman, apesar de nunca ter sido lançada. O resultado é totalmente free: as arestas são reparadas pelo piano de Geri, enquanto Terri cria uma passagem escatológica para Murray brilhar, como sempre faz, com seu sax-alto. Já em “The David, Geri & Terri Show” o que impressiona é a sinergia: as instrumentistas já tocam juntos há pelo menos uns 30 anos. E, como bem disse Carrington: “as credenciais de Murray falam por si só”. Não é à toa que ele permanece como um dos saxofonistas mais exuberantes da atualidade.

Ouça: “Geri-Rigged”


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Parallax

Phronesis

Gravadora: Edition Records
Data de Lançamento: 8 de abril de 2016

A questão de ordem é acelerar. Acelerar brilhantemente, reluzindo sob todos os ângulos, de todos os fronts. O trio Jasper Høiby (contrabaixo), Ivo Neame (piano) e Anton Eger (bateria), que forma o Phronesis, já está no 6º disco, levando o jazz a uma indexação com a cultura escandinava. A forma livre em que se baseiam é bem musculosa: eles criam thrillers próprios durante o processo, o que mostra disposição para ir bem mais além que o quesito técnico – como mostra “Stillness”, por exemplo. Parallax é um álbum estruturalmente modulado: as variações são sutis diante dos riffs de piano ou do seguimento do baixo. Mesmo as baladas estão submetidas à rigidez estrutural: “A Kite For Seamus”, por exemplo, aposta na desenvoltura de Høiby, que toca com maciez e precisão, sem precisar ‘cobrar’ demais das cordas de seu instrumento para endossar sua unicidade. De fato, o Phronesis parece ser regido por um entrecruzamento de ‘sistemas próprios’: como se Høiby seguisse uma linha de raciocínio, Neame outra e Eger, outra também. O interessante é que essas linhas não são retas; elas se encontram, sugerem novos caminhos e servem como um guia para que o ouvinte saiba diferenciar muito bem que lado acompanhar com mais detalhe.

Ouça: disco na íntegra


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Swing The Vote

Scott Bradlee’s Postmodern Jukebox

Gravadora: Mudhut
Data de Lançamento:
13 de abril de 2016

Você já conhece todas as músicas deste álbum. O projeto Postmodern Jukebox, liderado pelo pianista e arranjador Scott Bradlee, nasceu com a proposta de trazer um arranjo jazzístico para músicas conhecidíssimas do universo pop. Bradlee costuma lançar uma média de três álbuns por ano desde 2014, quando iniciou o projeto. Swing The Vote já é o segundo trabalho de 2016, e vem com uma proposta política: “estamos no meio de uma das eleições mais polarizadas da história política dos EUA”. Nenhuma menção específica à Donald Trump é feita: nas versões de “Same Old Love” (Selena Gomez), “Hollaback Girl” (Gwen Stefani) e “Call Me Maybe” (Carly Rae Japsen), não resta um autotune; somente a influência do jazz à lá Broadway, com bastante influência de Judy Garland e Frank Sinatra nos arranjos. “Sweet Child O’ Mine” (Guns’ N Roses) nem precisou do solo de guitarra: o piano à lá Jerry Lee Lewis de Bradlee faz a vez para que a voz do jovem Casey Abrams brilhe com seu misto de country rasgado e jazz vocal dos anos 1950. Para cada canção há um convidado especial diferente. Ao ouvir Swing The Vote, você perceberá: é possível um universo musical sem autotune.

Ouça: “Hollaback Girl”


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Culcha Vulcha

Snarky Puppy

Gravadora: GroundUp Music LLC
Data de Lançamento: 28 de abril de 2016

Funk industrial. Se ainda não conhece o Snarky Puppy, não se deixe levar pelo nome. Nada é fofinho aqui; o grupo formado por 14 integrantes tem o que considero ‘swing estético’. Culcha Vulcha é globalizado, mas pende mais pro lado oriental do globo que oriental; “Tarova” põe o órgão em confronto com uma musicalidade que parece ambientada em Togo ou Gana, enquanto o esoterismo de “Beep Box” parece ter sido composta num templo budista (com alguns equipamentos eletrônicos, claro). Mulatu e Fela também pulsam bastante na sonoridade do grupo: “GO” e “Grown Folks” são exemplos chacais de como o jazz africano ajuda a ferver o funk. Se formos utilizar referências ocidentais, poderíamos dizer que o Snarky Puppy enfatiza o que The Budos Band e Sly & Family Stone têm de melhor. O grupo liderado por Michael Lange pede para ser apreciado ao vivo: a pulsação dos timbres é envolvente a ponto de deixar qualquer ouvinte balançando que nem tonto com os fones de ouvido. Ah, uma dica: ouvir alto, ou em algum momento de ira, vai te fazer se sentir melhor, renovado.

Ouça: “Tarova”


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Holding the Stage: Road Shows Vol. 4

Sonny Rollins

Gravadora: Doxy Records/OKeh Records
Data de Lançamento: 8 de abril de 2016

Sonny Rollins é uma instituição musical. Sua importância não está exclusivamente reservada a movimentos jazzísticos; é seu estilo de empunhar o sax-tenor, porém, que impressiona. Ele já tocou com cânones como Horace Silver, Miles Davis e Thelonious Monk, mas sempre se destacou nos temas em que tocou por suas rápidas respostas. Os álbuns Road Shows capturam os diversos insights do saxofonista em performances variadas. O quarto volume encapsula os anos entre 1979 e 2012: na imortal “In a Sentimental Mood”, a baladaça de Duke Ellington é adornada por linhas estilosas, mas o solo ao final da canção é uma joia de registro. “Keep Hold of Yourself”, tema do próprio Rollins, possui uma simbiose arrebatadora com o piano de Stephen Scott. Apesar de carregar o sobrenome de Thelonious, “Disco Monk” tinha sido composta por Rollins, em 1979, valorizando a abordagem percussiva do pianista (aqui tocada por Mark Soskin) em tempos em que só se falava de Embalos de Sábado à Noite. As luzes e os holofotes, neste caso, são antecedidas por uma dança mais contígua, com elementos do ragtime e, ao mesmo tempo, do cool-jazz. Mais uma vez: que solo, Rollins!

Ouça: “Keep Hold of Yourself”


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Cohearence

Yellowjackets

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento:
21 de abril de 2016

Quando o Yellowjackets surgiu na cena do fusion-jazz, em 1977, já era tarde: o Weather Report já estava em fase final, Herbie Hancock e Miles Davis estavam em outra, a Mahavishnu Orchestra havia acabado, enfim, a chama havia diminuído. Quase quatro décadas depois, o quarteto não goza de fama, mas não deixa a influência de lado: o 22º disco pode não ter guitarras sobressalentes, mas é dotado de um estilismo cheio de pompa. “Guarded Optimism” dá as boas vindas ao novo baixista da banda, Dane Alderson, com bastante ênfase nas escalas. “Inevitable Outcome” é baseado num baixo funky e certamente vai agradar os ouvintes mais antigos. Já a faixa-título é contornada por um teclado que parece obedecer um esquema ritualístico, enquanto Bob Mintzer toca um sax-soprano como se tivesse num processo de compor uma canção folk. Sobre a canção que encerra Cohearence, o bandleader Russell Ferrante disse: “Possui um sentimento de música clássica com um ritmo fixado dentro dela”. Ou seja, as fronteiras foram absolutamente rompidas: o Yellowjackets já deixou de ser (só) fusion há muito tempo!

Ouça: disco na íntegra


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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