Groovin’ Jazz: 10 álbuns de julho/2016 que você tem que ouvir

Novos álbuns de Charlie Hunter, Kenny Garrett e dois brasileiros ligados por uma bandleader



Dois lançamentos brasileiros marcam presença na edição deste mês de Groovin’ Jazz. Um é estreante, e outro é considerado uma das maiores autoridades do instrumento. Antes de descer a barra de rolagem para descobrir quem são eles, uma dica. Há um nome que interliga os dois: Maria Schneider.

Julho foi um dos melhores meses do ano para lançamentos jazzísticos. Pelo menos dois grupos foram bastante celebrados, e não apenas nos meios especializados do gênero: trata-se do BADBADNOTGOOD – que, inclusive, teve o álbum IV como Disco da Semana no Na Mira – e do guitarrista Charlie Hunter, cujo título já é uma pancada surpreendente.

Gostamos de estreias – e fazemos questão de enfatizá-las. Mas, para que elas entrem nessa seleta, têm que valer a pena. Dê uma conferida em caras como Elliot Galvin e Jacob Collier, dois britânicos bem novinhos, mas que estão ajudando a colocar a Grã-Bretanha em destaque num continente em que o jazz tem sido ovacionado e praticado mais e mais (Alemanha que o diga).

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Confira, a seguir, 10 discos de jazz lançados em julho que você tem que ouvir. Pra aquecer, ouça uma música de cada disco na playlist abaixo (aproveite e siga nossas playlists no Soundsgood):

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IV

BADBADNOTGOOD

Gravadora: Innovative Leisure
Data de Lançamento: 8 de julho de 2016

Acredite ou não, o BADBADNOTGOOD é o mais próximo que o jazz fornece hoje em dia de aproximação com o público mais jovem – principalmente por suas conexões com o hip hop e o R&B. Mas, o que IV deixa bem evidente é que existe proficiência nisso tudo. Com um espírito devoto ao fusion-jazz, Matthew Tavares (teclados), Chester Hansen (baixo), Alex Sowinski (bateria) e Leland Whitty (sax) sabem como injetar eletricidade com perspicácia. Em takes como “Speaking Gently” e “Confessions Part II” (com o saxofonista Colin Stetson), o grupo arranca energia sabendo dosar muito bem a permanência dos instrumentos (fato: eles também são bastante influenciados por caras Fela Kuti e Mulatu Astatke). No meio disso tudo, a banda sabe como soar relax, como na deliciosa “Times Moves Slow”, com o vocalista do Future Islands, Sam Herring. Dentre os colaboradores, o BADBADNOTGOOD também cede sua multiplicidade para o produtor haitiano Kaytranada (no nu-jazz de “Lavender”), o jovem rapper Mick Jenkins (“Hyssop of Love”) e pro R&B, com Charlotte Day Wilson (“In Your Eyes”). São muitas direções, com olhar afiado em todas elas. Por isso o BADBADNOTGOOD merece o prestígio que vem conquistando.

Ouça: disco na íntegra


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Everybody Has a Plan Until They Get Punched in the Mouth

Charlie Hunter

Gravadora: GroundUP Music
Data de Lançamento: 22 de julho de 2016

Após muito tempo trabalhando com trios, o guitarrista nova-iorquinho Charlie Hunter decidiu adotar um quarteto para um blues pungente (o título, para se ter uma ideia, vem de uma frase do boxeador Mike Tyson). Com ele, Bobby Previte (bateria), Curtis Fowlkes (trombone) e Kirk Knuffke (corneta) exploram sonoridades que parecem golpeadas em várias partes do nosso corpo, de diferentes magnitudes. Os sopros de Fowlkes e Knuffke são abertos, mas quando eles decidem seguir uma linha ágil, é como se eles tivessem comprimindo possíveis barreiras, fazendo com que o mencionado blues se transfigure em algo misterioso, macabro até. A faixa-título, que abre o disco, faz isso numa tranquila transição, mas quando chega “Latin For Travelers”, as esticadas parecem reverenciar caras inquietos, como Albert Ayler ou George Adams. A maioria das faixas, entretanto, busca linhas sinuosas, como costumamos ouvir em takes minimalistas: um exemplo é “Who Put You Behind The Wheel?”, em que a guitarra de Hunter pega leves traços do funk e do flamenco num som nada comprometido com o ritmo. O mesmo comportamento é mantido em “(Looks Like) Somebody Got Ahead of Schedule on Their Medication”, blues desacelerado que dá protagonismo ao compasso (e assim fica, mesmo com a entrada da dupla de sopros). Para um disco advindo de um combo “insondavelmente massivo”, como disse o guitarrista ao Wall Street Journal, Everybody Has a Plan Until They Get Punched in the Mouth parece leve na sonoridade, mas joga peso bruto quando se trata de irromper as barreiras. Não precisa de muitas notas para causar impacto; assim como no boxe (lição que Miles Davis muito associou à sua carreira), vale mais quando é certeiro.

Ouça: “Latin for Travelers”


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Punch

Elliot Galvin Trio

Gravadora: Edition
Data de Lançamento: 29 de julho de 2016

Adquirir via Bandcamp

Punch geralmente pressupõe algo pesado, mas não é bem o que o grupo do pianista Elliot Galvin entrega. Apostando mais na imprevisibilidade, ele, o baixista Tom McCredie e o baterista Simon Roth criam temas fugidios, mostrando que bebop e avant-garde podem caminhar numa mesma direção. Galvin é um instrumentista bem inquieto: em “Blop”, ele faz do acordeão algo que muitos DJs fazem de suas picapes. Em “Lions”, é a kalimba que entra em cena, em ritmo saltitante que se entrega à agilidade. No que se esperaria de um trio, a faixa inicial, “Punch and Judy”, não deixa de ser um vislumbre: Elliot Galvin desfila notas com uma exuberância tonal rara, agregando as escolas jazzística e clássica. O crítico do The Guardian John Fordham declarou que Galvin lembra Django Bates, principalmente pela interessante forma de incorporar o humor nas suas melodias. Digamos, ora, que se trata de um humor serial. O britânico tem apenas 25 anos de idade, mas sabe bem o que faz.

Ouça: “Blop”


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Still Euge

Euge Groove

Gravadora: Shanachie
Data de Lançamento: 22 de julho de 2016

Smooth-jazz com orgulho. Reconheça: é difícil alguém enfatizar essas credenciais – nem mesmo Stan Getz ou Charlie Byrd, grandes representantes dessa vertente jazzística, o fizeram. Euge Groove, pseudônimo assumido pelo saxofonista Steve Grove, chega ao 10º disco acumulando passagens pelo soul, funk, R&B, gospel e, claro, jazz. Still Euge é um álbum tonificado pela miscelânea estética de todas essas expressões musicais. Em “Twelfth Night”, há um clima nostálgico anos 1980 que até parece evocar os mares da costa brasileira. “Coffee and a Kiss” é uma sinuosa jornada por sentimentos atrelados à juventude, enquanto a entrada do guitarrista Chuck Loeb na faixa-título faz com que Euge enverede pelo blues, com sopros pontuados. Entre outras participações do disco: o violonista Peter White, em “Another Perfect Moment”, ajuda Euge a erigir uma bonita balada, que não faria feio numa valsa de casamento, por exemplo. Duas canções têm apoios vocais: em “Much Love”, prepondera o soul otimista entoado por Rahsaan Patterson; já em “Flowers”, Oleta Adams parece cantar rodeada de madressilvas e belas orquídeas, celebrando a natureza de um bom relacionamento. Euge Groove segue a linha da suavidade com seu sax, dando seguimento a uma escola cada vez mais rejeitada.

Ouça: “Still Euge”


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In My Room

Jacob Collier

Gravadora: Membran
Data de Lançamento: 1º de julho de 2016

Logo de início, a voz lembra um certo Ed Motta. Mas, a saber: Jacob Collier tem uma aparência praticamente contrastante comparado ao carioca. É um garoto londrino, caucasiano, que acabou de completar 22 anos (fala se não parece a descrição de integrante de banda hipster indie-rock?). O jazz vocal e a soul-music estão entrelaçados em suas influências: “In My Room” e “Down the Line”, por exemplo, remetem a caras como D’Angelo e Nat King Cole ao mesmo tempo. A versão de “You and I” (Stevie Wonder) parece reproduzida por uma equipe de mais de cinco integrantes à capella. A interação com baixo e órgão em “Saviour” mostra que Collier é bastante competente em dinamizar a voz: com um recurso ou outro do GarageBand, dá pra superar difíceis técnicas vocais. Claro que um cara tão jovem tinha que fazer alguma graça: em “Flintstones”, ele refaz o tema da icônica animação de Hanna-Barbera numa agilidade descomunal, explorando cordas vocais que a gente nem sabia que existiria, misturando scats, instrumentações, solos de harmônica e uma enfática vontade de entreter.

Ouça: “In My Room”


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Do Your Dance!

Kenny Garrett

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 8 de julho de 2016

Kenny Garrett domina sax-alto, soprano e flauta, mas está bem próximo ao instrumento de Charlie Parker quando se fala em excelência. Já com um Grammy na bagagem, o músico de Detroit vem agora com um disco capaz de aproximar as múltiplas audiências de jazz – inclusive os menos afeitos. Do Your Dance! é repleto de ginga, um post-bop feito para as pistas, mesclando referências do cuban-jazz, calypso (“Calypso Chant”), música brasileira (“Bossa”) e até mesmo hip hop – como em “Wheatgrass Shot (Straight to the Head)”, com vocais do rapper Mista Enz. As linhas exploradas pelo saxofonista interligam a singeleza do piano de Vernell Brown Jr. à percussão exasperada da dupla de bateristas Ronald Bruner Jr. e McClenty Hunter. Kenny Garrett toca como se extraísse músculos de seu instrumento: não importa o caos sonoro que seja evocado – como em “Philly” – é ele quem doma, como se fosse o craque de um time que não seria campeão sem ele. As quebradas rítmicas de “Backyard Groove” e a agilidade ácida de “Chasing the Wind” são típicas de um músico que, mesmo virtuoso, quer ser acompanhado. Portanto, fervo no pé e improvise tua dança.

Ouça: “Backyard Groove”


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Pladeshop

Laura Toxvaerd, Simon Toldam & Marilyn Mazur

Gravadora: ILK
Data de Lançamento: 1º de julho de 2016

De Copenhague (Dinamarca), a saxofonista Laura Toxvaerd parece fazer um som doentio. Pontuações fragmentárias e lapsos escabrosos fazem de Pladeshop um álbum inovador mesmo nas prateleiras dos inovadores. Na escola de Henry Threadgill e Heather Leigh, ela conta com o pianista Simon Toldam e a experiente percussionista Marilyn Manzur. Foi tudo registrado num primeiro encontro: por isso temas como “Mangrove Fantasy” e “Vandet” soam estranhos e desconexos. Não se deixe enganar pelos adjetivos negativos: Pladeshop é um álbum tão original, que qualquer esforço de tentar reproduzí-lo novamente pode soar frustrante. Os sons despedaçados são impulsionados por improváveis criações rítmicas. Em “Naughty Mirrors”, por exemplo, paira a impressão de que uma bola de pingue-pongue rebate sem cessar durante a execução das curtas e rasgadas notas de Laura. Este é o 5º trabalho da série “White Label”, do selo ILK. O álbum também foi lançado em vinil, mas apenas 40 cópias foram prensadas, todas escritas à mão pelo trio. Uma raridade de produto e uma raridade de som, mesmo para os acostumados ao free-jazz.

Ouça: não disponível


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O Corpo de Dentro

Lourenço Rebetez

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 22 de julho de 2016

Arranjadores: quando se fala no papel deles no jazz brasileiro, geralmente citamos Moacir Santos e Paulo Moura, não apenas pela suma importância de cada um, mas principalmente por ser uma escola de poucos adeptos por aqui. Atualmente, o nome que pulsa firme é o de Letieres Leite, mas, logo com o disco de estreia, o jovem paulistano Lourenço Rebetez, guitarrista de apenas 30 anos, já crava seu trabalho firmemente numa seara que torcemos para ser ampliada. Por isso mesmo, O Corpo de Dentro é um álbum que se diferencia de toda produção jazzística nacional. Ritmos como samba, vassi e ijexá são parte de uma complexa estrutura ambiciosamente amalgamada. As múltiplas expressões culturais do Brasil são mais que meras inserções: elas habitam um universo tangível, em que todas elas podem coabitar. Isso fica claro na nevrálgica “O Mais Profundo é a Pele”, enquanto “Pontieva” parece dar o devido espaço aos 13 instrumentos que figuram no disco. Rebetez compõe para todos os instrumentos; aprendeu ritmos brasileiros com Letieres, estudou guitarra com Chico Pinheiro, conheceu música erudita, piano e percussão. Formou-se na renomada Berklee College of Music. Academicismo à parte, O Corpo de Dentro cativa justamente por uma brasilidade pouco explorada. Assim como as célebres arranjadoras Carla Bley e Maria Schneider, Rebetez entende a importância das pontuações, construindo um diálogo musical de riquíssimo vocabulário. Assim, nasce um rebento de ouro da nossa discografia jazzística.

Ouça: três faixas


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Day to Day

Sarathy Karwar

Gravadora: Ninja Tune
Data de Lançamento: 8 de julho de 2016

Adquirir via Ninja Tune

Mais uma estreia bem poderosa. O cruzamento oriente e ocidente no campo jazzístico é algo que existe há muito tempo: quando Ahmed Abdul-Malik lançou, há cinco décadas, East Meets West (1959), alguns críticos passaram a se interessar mais pelas expressões culturais de lugares como o chifre africano e a Índia. Em tempos onde muito se fala de imigração, a música passa a ser importante moeda cambial de conhecimento cultural. O baterista e percussionista Sarathy Karwar sabe muito bem disso: “Imigração é ingrediente-chave de tudo que faço”, explicou ao jornal The Guardian. Nascido nos Estados Unidos, Karwar cresceu na Índia e passou a morar em Londres, onde fez cursos com caras como Four Tet e Floating Points. Protegido do influente radialista Gilles Peterson, ele lançou Day to Day focando nas expressões do povo Siddi, da Índia. Como eles têm herança no islamismo e no bantu africano, a música inevitavelmente é de característica polirrítmica. Teclados, kora e leves batidas pré-programadas fluem numa exuberante riqueza rítmica. As músicas de Day to Day parecem ser pertencentes umas às outras, como parte de uma experiência que só pode ser validada se contemplada em sua totalidade. Em canções como “Bismillah” e “Karam”, os vocais hindus parecem uma extensão das percussões – enquanto, ao fundo, destila-se uma sonoridade ágil, intensa, viva. Mais uma prova de que o jazz se beneficia, e muito, nesses entrelaces multiculturais.

Ouça: “Bismillah”


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A Gata Café

Toninho Ferragutti Quinteto

Gravadora: Borandá
Data de Lançamento: 5 de julho de 2016

Toninho Ferragutti é um dos maiores acordeonistas de todos os tempos. Conhecedor profundo do choro ao som das big bands (ele já tocou com a Maria Schneider Orchestra), chega ao 10º disco, A Gata Café, explorando ritmos latino-americanos como um todo, do frevo rasgado de “Bipolar” ao tango de “Nem Sol, Nem Lua” (que, de início, parece embocar para o lado do forró). Nela, o violão de Vinícius Gomes brilha em confluência com o sax-soprano de Cássio Ferreira (que também toca sax-alto no disco). Aliás, Ferragutti só tem feras ao seu lado neste quinteto: além dos já mencionados, o baixo elétrico é conduzido por Thiago Espírito Santo (que já tocou com Paulo Moura, Hermeto Pascoal, entre outros) e o baterista Cleber Almeida (Airto Moreira, Trio Curupira). Mas nem só de tradição vivem os instrumentistas: em “Cortejo do Rio do Peixe”, o som aberto do acordeom esconde um mistério estético, que passa a ser desvendado por cada um dos músicos. É dessa forma exploratória que eles também homenageiam o renomado Egberto Gismonti, em “Egberto”, reunindo expressões tão variadas, que seria um desperdício ficar nomeando. Mas, quando se fala em acordeom, inevitavelmente lembramos dos lamentos: Ferragutti cria baladaças com beleza única, como pode-se vislumbrar na faixa-título. Se você ainda acha que o instrumento ainda está limitado ao regional, A Gata Café é uma excelente oportunidade de contemplar outras possibilidades. Se gosta da complexidade tratada pelos acordeonistas, o álbum é obrigatório.

Ouça: três faixas


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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