Wu-Tang Clan | Wu-Tang Forever (1997) – 20 anos

Complexo como Thomas Pynchon, intrincado como as relações da máfia. Eis o disco que dividiu o grupo de vez

Gravadora: Loud Records LLC
Data de Lançamento: 3 de junho de 1997

Nove membros, dezenas de associados e um líder. Não raro, as comparações com a máfia caem bem ao Wu-Tang Clan.

Não pelas rimas de violência ou o cotidiano associado à vida dura nas ruas.

Foram as desavenças internas mesmo que levaram o supergrupo responsável por uma das estreias mais barulhentas da história, com Enter the Wu-Tang (36 Chambers) (1993), à lenta dissolução de seus membros. Se a famiglia dos Corleone passou a ruir de cima para baixo, aconteceu fenômeno contrário na família Wu-Tang: a liderança de RZA, mentor e produtor responsável pelos discos (além de colaborar com diversas rimas), perdia a influência aos poucos.

Encaremos a situação como em O Poderoso Chefão 2: Vito Corleone se torna respeitável com a ajuda dos jovens Peter Clemenza e Salvatore Tessio – o último, porém, revela-se traidor da família após a morte de Vito, no primeiro filme d’O Poderoso Chefão.

RZA teve mais de uma dezena de aliados, mas acabou perdendo as forças, principalmente após Raekwon se recusar deixar tudo nas mãos do produtor.

É uma história de reviravoltas, e as consequências chegariam ao extremo por volta de 2007.

Dez anos antes, porém, o grupo já dava indícios de que a utopia inicial de ‘todos juntos para provocar o sistema’ dava suas primeiras rachaduras. De certa forma, Wu-Tang Forever, que completa 20 anos em 2017, seria o centro de tudo isso – embora o resultado final não fosse afetado em nada.

Antes do segundo estrondo

Antes de formar o Wu-Tang Clan, os primos RZA e GZA já tinham experiência com o mercado fonográfico e aconselharam aos demais membros do clã a não ceder às pressões das gravadoras. Ao fechar com a RCA, os membros tiveram liberdade para lançar trabalhos com outros selos musicais.

Com o alarde após 36 Chambers, alguns MCs lançaram discos de seus projetos solo: Method Man foi o primeiro deles, com Tical (1994); Raekwon transcendeu a produção entrecortante em Only Built 4 Cuban Linx… (1995); GZA selou o nome como um dos rappers mais inteligentes de todos os tempos em Liquid Swords (1995); Ol’ Dirty Bastard reinterpretou à sua maneira indefectível o clássico do Wu em Return to the 36 Chambers: The Dirty Version (1995); Ghostface Killah deu início à prolífica discografia solo em Ironman (1996)…

Todos esses discos tiveram a produção ou envolvimento próximo de RZA e uma ou outra colaboração dos parceiros de Wu.

Mas, o público ainda ansiava pelo retorno dos cavaleiros de Shaolin do rap – melhor ainda se melhorassem a analogia dos samurais do disco de estreia.

Antes mesmo de se revelar um álbum duplo, com 27 faixas e quase 2h de duração, Wu-Tang Forever já nasceu grandioso. É um trabalho com ambiciosa direção a um som mais orgânico, ao vivo, com complexos arranjos de cordas.

Em termos de venda, compensou: só na primeira semana de lançamento, 600 mil cópias foram vendidas, levando o rap novamente ao topo das paradas Billboard.

Durante muito tempo, criou-se a teoria de que RZA queria provar sua habilidade como produtor aos demais membros do grupo ou oferecer sua própria versão ao rap em voga naquele momento, com produções requintadas de Diddy, em Nova York, e Dr. Dre, na Califórnia.

RZA e nova forma de produzir

Justiça seja feita, naquele momento RZA estava com agenda lotada produzindo nada menos que 13 trabalhos dos membros ao mesmo tempo. Natural que ele buscasse outras referências além do peso dos graves do baixo e dos teclados bem justapostos que resultaram na crua sonoridade de 36 Chambers.

Após a longa produção, é possível ver essa diferença em “Reunited”, com marcante presença do violino, onde RZA canta: ‘Retornamos como Jesus, quando o mundo inteiro precisava da gente’, citação que faz sentido quando se lembra que havia pouco tempo o mundo do rap havia perdido dois de seus maiores expoentes: Tupac e Notorious B.I.G.

A música seguinte, “For Heaven’s Sake”, aglomera uma orquestra inteira de cordas como se fosse uma avalanche, com um teco de “Don’t Leave Me Lonely”, de King Floyd.

“Cash Still Rules/Scary Hours” dosa o grave de Method Man e a voz meio moleque de Ghostface Killah num looping melancólico que parece ter sido composta numa sentada ao piano.

Fica bem claro para o ouvinte, logo no primeiro disco, que a ideia era romper com a secura e o ar pesado do disco anterior. Em 1996, RZA passou a estudar teoria musical depois de ter que pagar mais de US$ 10 mil pelos samplers do filme Ninja Assassino (1980), que conduzem Liquid Swords, de GZA.

“Em vez de cortar e esticar samples a seu favor, RZA estava trazendo músicos para tocar ao vivo. Em termos literais, RZA passou a ser um condutor musical”, escreveu o biógrafo Alvin Blanco no livro The Wu-Tang Clan and RZA. (Um ano depois, em entrevista ao New York Times, RZA disse que estudar música era uma forma de despistar os imitadores: “Porque eles não podem fazer isso [estudar], não podem imitar”.)

A nova direção musical do Wu-Tang Clan convencia mais em takes sérios, como “A Better Tomorrow”. Dedicada às pessoas injustamente encarceradas, a música oferece conforto a quem errou na vida pela falta de oportunidades.

Entretanto, “A Better Tomorrow” não é uma produção de RZA, e sim de 4th Disciple, que também foi influenciado pela diretriz de RZA. Em “Impossible”, ele deixa que o background da cantora Tekitha seja a consciência das altas taxas de criminalidade sob as rimas de U-God, Ghostface e RZA, com trechos da melodia de “Sonata Pathétique”, de Beethoven, de 1799.

Disciple também assina duas das melhores canções do disco: “Older Gods”, com a excelente trinca Raekwon-Ghostface-GZA; e a sinistra “The City”, onde Inspectah Deck brilha sozinho num drama urbano que Ice Cube jamais encarnaria nas telonas.

As duas canções não eram favoráveis à proposta live que RZA queria incorporar ao grupo, mas são ótimos exemplos de equilíbrio. A atmosfera pesada do baixo se mantém como força propulsora, mas no geral convida o ouvinte à reflexão, e não ao mosh. (Inspectah Deck mostrou que entendeu a mensagem do chefe ao propor cordas monocromáticas na produção de “Visionz”, com rimas de Method Man, Raekwon, Masta Killa e Ghostface.)

Baixo? Não, cordas!

A complexidade sonora de Wu-Tang Forever mal deu espaço para a propagação de singles. O mais próximo disso que o disco ofereceu foi “Triumph”, lançada em fevereiro de 1997 – o que deixou parte dos fãs confusos.

Ela é o compêndio perfeito do que RZA imaginava para o grupo naquele momento: arranjos elevados de cordas, com as diferentes vozes de cada membro (incluindo CappaDonna) como se fossem instrumentos à parte.

O grande pecado da música é a ausência de Ol’ Dirty Bastard, mas, como bem pontuou análise do site The Quietus, nada impede que ela se mantenha como uma das melhores do grupo.

“’Triumph’ captura o clã em seu auge, e era claramente vital que eles fossem vistos nessa escalada à sua própria maneira”, escreveu o jornalista Angus Batey.

Desajuste perfeito

Passados 20 anos desde o lançamento de Wu-Tang Forever, pouco importa se as músicas que eternizaram eram pesadas demais ou musicais demais.

Atrelada ao passado de 36 Chambers tem a excelente “Severe Punishment”, que retoma as participações dos MCs como se eles tivessem numa batalha de freestyle; e o single “It’s Yourz”, que o próprio RZA declarou ser um hit para as pistas, embora não tenha um refrão tão empolgante.

As produções que emulam grandes orquestras, com requintes de grandiosidade, são apenas excertos – em “Bells of War”, por exemplo, o sax sampleado de Tom Scott é um detalhe; importante, mas ainda assim um detalhe.

Por fim, Wu-Tang Forever não poderia ser outra coisa que não uma obra coletiva. O disco 2, por exemplo, é praticamente sustentado pela dinâmica de Ghostface e Raekwon, especialmente em “The Projects” e “The M.G.M.”. Ol’ Dirty Bastard permanece a figura jovial e irreverente em sons como “As High As Wu-Tang Get” e “Dog Shit” e CappaDonna prova ter credenciais de sobra para ser membro permanente em “Maria”.

Na época de lançamento, Wu-Tang Forever foi comparado pelo NY Times a uma obra do recluso romancista Thomas Pynchon, cuja complexidade se mistura com a fragmentação.

Pynchon não é um escritor preocupado com perfeição, tanto que suas obras misturam detalhes do mundo real com estranhas proposições da ficção científica. Essa característica do perfeito como algo escapista está de certa forma intrínseco ao álbum. Os desajustes são evidentes, mas o que seria do 2º disco do grupo se não fosse desse jeito?

Seja na distorcida vivência familiar dos Corleone ou no pitoresco ambiente de Pynchon, a megalomania de RZA foi apenas um módulo acima da intensidade de cada integrante. Felizmente, as coisas não ruíram em Wu-Tang Forever. Discussões posteriores relacionadas a dinheiro e liderança de grupo, porém, seriam tão inevitáveis como o deslize de Tessio com a máfia italiana.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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