G. Álbuns: Violeta de Outono | Violeta de Outono (1987)

Psicodelia, complexidade e beleza: três adjetivos em um dos melhores discos do rock nacional

01 Outono
02 Declínio De Maio
03 Faces
04 Luz
05 Retorno
06 Dia Eterno
07 Noturno Deserto
08 Sombras Flutuantes
09 Tomorrow Never Knows (Beatles)
10 Noite Escura
11 Caminho
12 Om Voice
13 2000 Light Years From Home (Rolling Stones)

Gravadora: Plug/RCA
Data de Lançamento:
7 de julho de 1987

Adquirir o disco via BandCamp

Alguém já lhe disse que o Violeta de Outono é uma das melhores bandas de rock nacional de todos os tempos? E que o disco de estreia, homônimo, é referência mundial quando se fala de progressivo?

A banda é de São Paulo e, a despeito da cena dita ‘Vanguarda Paulistana’, existe pouca ligação entre o trabalho do trio formado por Fabio Golfetti (voz e guitarra), Cláudio Souza (bateria) e Angelo Pastorello (baixo) com os trabalhos de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé ou o rock torto da Patife Band – essa conexão existia com o grupo anterior de Fabio e Cláudio: o Zero.

Violeta de Outono, o disco, é mais uma grande valia de 1987, ano de grande importância mundial quando se fala em música. Ano de Sister, dos primeiros estouros dos Pixies, da consolidação do heavy-metal, dos primeiros passos do acid-house (808 State).

Pois bem, e a banda paulista mais uma vez não se encaixa em nenhuma dessas cenas.

A ponte que se pode estabelecer sobre o primeiro disco do Violeta de Outono seria a influência da psicodelia sessentista com o novo contexto de rock que se criava no Brasil. Ninguém melhor que eles para assimilar essas referências estéticas lisérgicas em um rock tão sério como enigmático.

Partindo para a redundância, é bem outonal mesmo.

Pois a grandeza de Violeta de Outono está mais na sua execução e técnica que nos valores estéticos.

Incopiável, a banda criou um estilo de progressivo com letras em português que permaneceria invejado mesmo nos dias de hoje.

Analisemos a versão da banda para “Tomorrow Never Knows”. Carrega toda a complexidade musical instituída pelos Beatles, muito por conta do aparato sonoro que a gravadora RCA Victor tinha à disposição. A voz de Fabio remonta aos momentos mais alucinógenos de John Lennon, mas é no baixo de Angelo que a canção melhor se sustenta. A opção por deixar o instrumento como protagonista, mesmo diante do belo solo de Fabio, trouxe uma perspectiva similar a que os Fab Four gravaram quase duas décadas antes. Um primor de execução.

Mas este cover é apenas um pequeno delinear.

“Outono”, que abre o disco, é influência direta de Smiths numa letra que traça o retrato paisagístico perfeito para contemplar esta obra.

“Declínio de Maio”, que fez relativo sucesso com a demo-tape lançado em 1985 pela banda, ganhou produção mais esmerada. O ritmo de bateria mantido por Cláudio impressiona por sua sofisticação. A agilidade nas notas ao final da canção, algo novidadeiro em nossas terras naquele momento, hoje é marca registrada de boa parte de bandas indie no estilo Grizzly Bear.

É na agilidade que “Sombras Flutuantes” se beneficia. Começa lenta, com o onipresente baixo servindo de cortina, enquanto os demais instrumentos entram esparsamente. A partir dos 2min, a guitarra de Fabio demanda a viajeira ao jeitão Syd Barett.

Após loopings fantasiosos, a faixa instrumental engrandece e passa a gerar expectativa no ouvinte, até surpreender com ranhuras intergalácticas e se firmar com a estrutura prog-rock que inicia. Viagem das boas.

“Noturno Deserto” é um dos takes mais misteriosos do disco. Sua linha percussiva toma rumos exploratórios, como se estivéssemos perdidos em uma floresta cheia de beleza: ‘Passos calmos me levam pra dentro/Sob as nuvens eterno silêncio’.

E a jornada prossegue, após uma magnética explosão instrumental eclodir: ‘Fraco o sol aponta distante/Outros meios de ir adiante’.

Um dos grandes louvores do Violeta de Outono é gerar complexidade com poucas palavras. Seus versos são curtos, mas carregados de uma profundidade bela e misteriosa.

Dentro de suas muitas abstrações, temos um pedacinho do que a vida nos esconde de melhor. Das ‘luzes constantes’ de “Dia Eterno” ao ‘reflexo escuro’ de “Faces”, reina a impressão de estarmos diante de um dos discos de rock mais bonitos já feitos.

 

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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  1. TRANSDUTOR 6 Março, 2017 at 02:24 Responder

    Adorei o texto mas deixe-me fazer uma correção: Violeta de Outono não é uma das melhores bandas de rock nacional de todos os tempos, e sim, uma da melhores bandas de rock MUNDIALMENTE. 😉

  2. carlos 31 Março, 2017 at 18:11 Responder

    Singular e impar. São os únicos adjetivos possíveis para a banda. Até hoje mantenho bem guardado o bolachão lançado em 1987, apesar de haver a versão em CD, que também tenho, autografada por Fábio Golfetti. Toda vez que escuto aquelas músicas, me sinto, como disse João Gordo, do Ratos de Porão, “bêbado num bosque de neblina”.
    Há quem ache as músicas depressivas, como disse um esquecido astro do rock nacional, sugerindo que quem gosta das músicas da banda, deveria dançar “virado pra parede”. Mas como bem observou uma famosa cantora sertaneja, “É para quem tem sensibilidade”.

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