Tom Zé | Todos os Olhos, 1973 (G. Álbuns)

“Era folguedo, cheio de malandragem”. Eis o disco com a capa que quase foi de um cu e responsável pelo sumiço do artista

Gravadora: Continental/Warner
Data de Lançamento: 1973

Todos os Olhos é um disco mais conhecido por sua capa do que por suas músicas. Por anos percorreu a história de que a fotografia seria de uma bolinha de gude em um ânus.

Na verdade, é quase isso. O poeta concretista Décio Pignatari, amigo pessoal de Tom Zé, seria o responsável pela produção da capa. Então, acionou sua agência de publicidade E=mc2 e encomendou que o sócio Reinaldo de Moraes levasse adiante a ideia de ter um ânus na capa.

Reinaldo, então, contratou sua namorada à época. Por ser fã do Tropicalismo, ela topou na hora. É assim que se desenrola a coisa (via Espaço F/508 de Fotografia):

“Reinaldo de Moraes carrega sua câmera fotográfica alemã Praktica, sem flash, quatro filmes Kodacolor ASA 100, dois abajures e uma caixa de bolinhas de gude, e dirige-se ao motel “Retiro Rodoviário” com a modelo. Utilizando a lente 50 mm invertida, para fazer a função de macro, e a 20 centímetros do corpo da garota, começa a clicar”.

Sim, as fotos foram tiradas, mas Reinado achou que estava muito na cara que se tratava de um ânus. Lembrando que, em 1973, o País vivia em uma Ditadura Militar, e todo material artístico passava pelo crivo de censores. Zé e Pignatari, porém, queriam tirar sarro da situação política.

Reinaldo, então, preparou uma segunda sessão de fotos com uma nova ideia: colocar a bolinha de gude sobre os lábios da modelo. “Os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com o que devem parecer, porém de forma mais sutil”: perfeita definição do F/508.

O vídeo abaixo resume a situação:

Seresta distorcida

A história da capa é rica (e divertida), mas não ofusca a importância do que foi o 4º álbum na carreira de Tom Zé.

Com produção de Milton José, Todos os Olhos foi gravado com o Grupo Capote e os músicos Cleon e Dualib na percussão – que têm marcações estranhas, como se fossem um relógio que seguisse uma lógica inexistente do tempo.

Os arranjos de corda são bem tortos, ideia do violonista/guitarrista Heraldo do Monte, que integrou o importante Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal).

O ritmo do disco lembra serestas contorcidas. A faixa-título, uma das mais emblemáticas da carreira de Tom Zé, confunde vozes, percussões, coros e violão, como se chegassem a um terreno celestial.

Realmente Zé brinca de ser o centro das atenções, já esperando a reação do público: ‘De vez em quando/Todos os olhos se voltam pra mim/De lá do fundo da escuridão/Esperando e querendo que eu saiba’.

A música contextualiza um tipo de polarização dos anos 70 diferente do que acontece hoje no Brasil. Remete muito bem à discussão de duas pessoas que têm argumentos diferentes para defender no que acredita. Ao dizer ‘esperando e querendo apanhar’, Tom Zé poderia se referir tanto às ideias ‘subversivas’ naquele tempo de Ditadura, quanto ao ato de já esperar represálias ao manifestar oposição. ‘Eu não tenho chicote’, diz o músico – ou seja, ele pendia para o outro lado, do oprimido. ‘Mas eu sou até fraco’ – porque quem não tinha os militares ao seu lado, não dispunha de apoio, nem de armamento.

Rei da dubiedade

Ao longo dos anos, Tom Zé se tornou mestre dos posicionamentos dúbios. Certamente ele malhou bem essa técnica em Todos os Olhos, cuja própria musicalidade possui um tipo proposital de som canhestro do interior.

Prova disso é a divertida “Dodó e Zezé”, com cavaquinho de Rogério Duprat. Quem acompanha a seresta com Tom Zé é Odair Cabeça de Poeta, líder do Grupo Capote. A música parece ter sido composta no alpendre de uma longínqua casa do sertão. Nela, Odair e Tom fazem o jogo de repente com perguntas nada óbvias – e respostas, menos ainda. Tipo assim:

– Por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé.

– É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?

– Mas por que é que a gente tem de viver com esse medo danado de tudo na vida? Diga, Zezé.

– É pra aprender que o medo é o nosso maior conselheiro, viu, Dodó?

Todos os Olhos e o sumiço de Tom Zé

Anos depois, Tom Zé disse que Todos os Olhos foi o grande responsável por ele ter sumido. Em documentário sobre o disco, ele contou que os produtores já esperavam que o músico criasse por vias experimentais, mas queriam arranjos como quarteto de cordas, samba ou algo que remetesse à ideia de música popular brasileira.

“Eu pensava que este disco que iria me botar em circulação, porque era folguedo, cheio de malandragem”, disse Zé. Mas, ao recitar “Todos os Olhos”, reiterou que aquilo assustava as pessoas.

Havia outra contribuição forte para esse possível afastamento: “Complexo de Épico”. Nela, Tom Zé joga a culpa em ‘todo compositor brasileiro’, por terem perfis muito sérios e marrentos. ‘Ah meu Deus do céu, vá ser sério assim no inferno!’.

Mesmo assim, Todos os Olhos é um dos discos mais positivistas da carreira de Tom Zé. “Augusta, Angélica e Consolação” é mais uma homenagem a três bairros da cidade de São Paulo que ficam próximos à avenida Paulista, com trocadilhos divertidos (Angélica ‘cheirando a consultório médico’: não poderia haver melhor definição para um local cheio de hospitais e consultórios). Zé disse que, ao compor a canção, lembrou de Adoniran Barbosa e Os Demônios da Garoa, que eternizaram o hit “Trem das Onze”.

“Botaram Tanta Fumaça” é uma das mais irônicas, porque puxa ritmo carnavalesco para ressaltar que os cidadãos estão com a ‘consciência podre’. “Cademar” é uma brincadeira de palavras que reforça a distância da cidade e da praia, enquanto “Um Oh! E Um Ah!” é um tipo de scat nordestino que seria radicalizado em obras posteriores, como Danç-Êh-Sá (2006).

Curto, satírico e totalmente tergiverso, Todos os Olhos foi a direção mais obtusa de Tom Zé a um estilo próprio de compor. Seu estilo mudaria bastante com o passar do tempo: no seguinte Estudando o Samba (1975), ele levaria a sério a ideia de arranjos complexos até transfigurar a ideia de seriedade musical mais pra frente, a partir de The Hips of Tradition (1992), primeiro lançamento depois da redescoberta de sua obra por parte de David Byrne (Talking Heads), nos anos 1980.

Artistas Tom Zé

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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