G. Álbuns: Tom Waits | Blue Valentine (1978)

O poeta dos excluídos em suas baladas mais complexas e soturnas

Gravadora: Asylum
Data de Lançamento:
Setembro de 1978

Nos anos 1970 Tom Waits popularizou-se como a voz que externava o existencialismo em sua forma mais improvável. Vinhos, paqueras, drogados, marginalizados e obsessivos tinham a vez em suas composições que não distinguiam sadismo de sinceridade.

Neste sentido, Blue Valentine, 6º disco do músico californiano, encara essas histórias detalhadamente descritivas como baladas soturnas, recorrentes de um submundo escondido por debaixo dos panos.

Em “Red Shoes by the Drugstore”, por exemplo, Waits fala de um ‘vestido vermelho numa noite triste’ em negociatas misteriosas do tráfico de drogas.

“Romeo is Bleeding” começa com um órgão que pende para um sax-tenor com fraseados totalmente anos 1940. Fala de um mexicano gangster numa cadeia de eventos típica de um filme de Martin Scorsese: Romeo sangra, conta como matou um xerife com facadas, se envolve em brigas na rua, quebra um carro e torna-se herói de um bairro hispânico.

A narrativa de Waits é virulenta como a de Jack Kerouac, e sua voz, antes mesmo de ser considerada única, é tão pungente quanto o teor de suas composições. Numa entrevista ao Twin City Readers, de 1978, Waits declarou que suas músicas “apresentam problemas de minha vida pessoal”. “Não posso cantar ‘Oh, meu amor, te amo e tudo vai acabar bem’. Eu desenvolvi mais e mais uma atitude severa”.

“A Sweet Little Bullet from a Pretty Blue Gun” conta a história de uma garotinha que se suicida como se tivesse cantando fumando um cigarro num cabaré com músicos que ganham por hora. ‘Prefiro morrer do que ter que acordar’, diz Waits, ao imitar a garota. ‘Como Marilyn Monroe’.

Pode parecer ficção, mas a inspiração para essa música veio de um suicídio de uma garota de 15 anos no Hollywood Boulevard, que se jogou do 17º andar de um apartamento. “Você nunca vai ouvir essas histórias [em outro lugar]”, declarou o músico.

Blue Valentine faz parte de um cancioneiro de Tom Waits que antecede suas experimentações avant-garde com ritmos ‘seculares’, como polca e ragtime. Antes de Swordfishtrombones (1983) e Rain Dogs (1985), Waits era um compositor focado na escrita, por isso, aqui, elas soam complexas e filosóficas.

Ouvir Blue Valentine é contemplar asfaltos esburacados com poesia derrotista. Ou, como analisou o crítico Don Shewey, da revista Rolling Stone, “as ideias gerais são como pão velho, mas os detalhes [das canções] são de valor inestimável”.


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Artistas Tom Waits

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

    • Tiago Ferreira 29 setembro, 2016 at 09:33 Responder

      Na verdade o canto dele é erroneamente depressivo. As composições falam de situações urbanas que podem parecer ridículas, mas são corriqueiras. É, claro, Blue Valentine é, de fato, uma das obras mais reflexivas de Waits. Se gostou bastante do ritmo dele, vá atrás de outros clássicos, como Rain Dogs (1985) ou Mule Variations (1999).

      Um abraço!

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