G. Álbuns: Prince | Sign O’ The Times (1987)

Todos os detalhes do álbum duplo que chegou aos 30 anos ainda como a maior referência pop de seu tempo

Gravadora: NPG Records/Warner
Data de Lançamento: 31 de março de 1987

Os anos 1980 foram um desastre para boa parte da seara do rock: o punk deixava de ser interessante para as massas, David Bowie não conseguiria recuperar o sucesso depois de Let’s Dance (1982) e o público se abalou com a morte de John Lennon no início da década.

Prince, por outro lado, estava galgando o auge. Antes de lançar aquele que é considerado sua obra-prima, ele já tinha na bagagem 1999 (1982) e Purple Rain (1984), mas queria levar sua extravagância musical para outro patamar.

Em 1985, ele tinha a ideia de gravar um disco duplo, Dream Factory, com a banda Revolution, mas não gostou de algumas edições – parte do material gerou Parade no ano seguinte.

Nesse ínterim, escreveu uma música para Miles Davis (“Can I Play With You?”), que estava explorando o funk, e gravou uma jam session com Sheila E. e Eric Leeds, o instrumental The Flesh, que nunca foi lançado, embora o disco tenha feito parte do rico acervo de sobras e bootlegs que foram pirateados com o passar dos anos.

Álbum triplo?

Chegou 1986, e Prince se ocupou de novo. Queria gravar um álbum triplo, que se chamaria Crystal Ball. A Warner achou uma empreitada arriscada, mesmo se tratando de um artista tão vendável quanto Prince.

Aos 29 anos, ele não era de desistir assim tão fácil. Com o recém-construído estúdio na cidade de Chanhassen (Minnesota, EUA), ele gravou a primeira canção do disco que tinha em mente: “The Ballad of Dorothy Parker”. O funk lento já não tinha mais Sly Stone como referência: ele deu um novo tipo de protagonismo ao baixo e se derreteu em vocais, revelando um misterioso lado feminino. (A música fala sobre como ele ficou incomodado quando pediu um coquetel de frutas e foi zoado por uma garçonete.)

Susan Rogers, engenheira de som e coprodutora de Sign O’ The Times, disse à Rolling Stone que Prince havia sonhado com essa composição e gravou de imediato. Demorou 24 horas pra ficar pronta – coisa rápida na metodologia Prince, sempre meticuloso com seu trabalho.

“O console ainda não tinha sido testado, então enquanto estávamos gravando “Dorothy Parker” e eu estava pensando ‘deus, como está terrível’. Mas não podia testar o equipamento, porque ele estava lá, trabalhando nela. Típico de Prince. Não saímos de lá até o dia seguinte. Ele estava totalmente feliz. A semente da canção veio em um sonho de qualquer forma, então ele usou isso para fins artísticos – ele só deixou a coisa ficar meio abafada”, contou Susan.

Apesar de testemunhar de perto uma das canções-chave do disco, Susan não esteve assim tão próxima de Prince durante as gravações. “Para ser bem claro, muito do que está nesse disco ele fez por conta própria”, contou à BBC o tecladista Matt “Dr” Fink, que emprestou a ele um sintetizador Prophet-5 com bateria pré-programada que ele usou bastante. Sabe aquele som meio chicoteado de “If I was Your Girlfriend” ou o ritmo frenético de “Hot Thing”? Então, vem daí.


As músicas entre vários projetos

Em 1986 Prince tinha “Kiss” no topo das paradas Billboard (o 2º lugar era uma versão de The Bangles para “Manic Monday”, escrita por ele). Ele fez uma turnê na Europa, e aproveitou algumas pausas para escrever alguns materiais.

Naquela época, ele ainda tinha o Dream Factory na cabeça, tanto que tinha uma fita com 11 canções exclusivamente para esse projeto. Em Paris, ele gravou “It’s Gonna Be a Beautiful Night”, registrada ao vivo no disco, que levava a aura disco das pistas norte-americanas a um patamar à lá James Brown.

“Gravamos a música ao vivo durante o concerto em uma noite em Paris”, contou o saxofonista Eric Leeds. “Semanas depois, adicionamos algumas partes no estúdio”.

Em julho daquele ano, ele já tinha 18 músicas prontas, mas ficou receoso: sua banda, Revolution, estava se dissolvendo. Portanto, não fazia muito sentido seguir com algo ambicioso sem um rumo certo para seu futuro musical.

De qualquer forma, ele tinha muito o que fazer. Voltou para seu estúdio caseiro, registrou a excitante “Hot Thing”, com o metal swingante de Leeds, e focou em projetos de terceiros, que incluíam trilha para o filme The Dawn, além de músicas para Dolly Parton, Deborah Ellen e até Michael Jackson (“Wouldn’t You Love to Love Me”).

Assim que terminou com o Revolution, Prince foi gravar “Housequake” que tem aquele esquema call-and-response do início do hip hop, mas se dissolve num funk enérgico, original – ou, como disse o texto de divulgação na época, “a brand new groove”.

Das jams funk à religião

Nessa época, ele ainda tinha Crystal Ball em mente, e chegou a gravar “Adore”, que encerra Sign O’ The Times. Com a recusa da Warner, ele agilizou para ter o material pronto já no começo de 1987. Decidiu incluir algumas já compostas antes – caso de “I Could Never Take the Place of Your Man”, de 1982, e da pegada new-wave de “U Got The Look”, que se tornou um dos principais singles do disco.

Entre baladas, jams funk, diferentes narrativas e canções reflexivas, Prince também abordou religião. Em “The Cross”, ele fala da segunda vinda de Jesus num escopo blues-psicodélico que vai adquirindo aquele misticismo sônico típico dos anos 1960. Alguns anos depois, esse viés obscuro seria levado a outro patamar com The Black Album, que ficaria engavetado por muitos anos por ser considerado ‘demoníaco’ por ele mesmo.

Até hoje Sign O’ The Times é tido como o maior álbum de Prince, mas a verdade é que ele não passa de uma amostra da versatilidade de sua técnica, de seu appeal, do seu tratamento próprio dado ao pop. Ele fez melhor quando levou sua extravagância a pontos extremistas, como no seguinte Lovesexy (1988) ou no mencionado Black Album.

Mas, quando se trata de importância, Sign O’ The Times prevalece, por ter mudado as regras da música pop mostrando seu lado artisticamente mais completo, inspirado e original.

Não era preciso se fixar em batidinhas padrão, temas delimitados ou som para as pistas. O público dos anos 1980 também queria saber de criatividade, e ele ofereceu esse sabor com riqueza de tempero em seu projeto mais ambicioso.

Artistas Prince

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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