30 anos de Bad, de Michael Jackson (G. Álbuns)

De uma nova postura surgiu uma espécie de manual da excentricidade

Gravadora: Epic/CBS
Data de Lançamento: 31 de agosto de 1987

Eu devia ter uns 10 anos quando vi o clipe de “Bad” pela primeira vez, lá nos anos 1990. Gangues no estacionamento, jaquetas maneiras e aquele Adidas invejável me deram a primeira impressão de um cara cheio de atitude que tava disposto a meter o pé em todo obstáculo no meio do caminho.

Quando se é criança, símbolos são importantes. Por mais que já tivesse se passado uma década desde que Michael Jackson havia lançado o sucessor do estrondoso Thriller (1982), o impacto daquela simbologia de certa forma cravou em mim as escusas iniciais ante qualquer polêmica sobre Michael.

Não era um ‘mau’ na acepção negativa; era um tipo de atitude que gostaria de ter ao enfrentar os caras que me zoavam no colégio, ou ao querer impressionar algum amigo novo, seja qual fosse o motivo.

Anos depois, “Bad”, o single, me deu nova perspectiva sobre o Bad álbum. O cenário criado por Martin Scorsese no clipe enalteceu uma persona mais admirável. Foi-se o garoto com adorável sorriso comendo pipoca no clipe de “Thriller” para entrar alguém mais viril, mau encarado, líder.

Frágil versus viril

Apesar dos muitos mistérios em seu torno, Michael foi muitas coisas, menos viril. Isso é parte de sua representatividade desde os anos do The Jackson 5, tanto que nos brindou com ótimas baladas justamente graças a essa doçura, por mais que sua vida pessoal fosse rodeada de amarguras.

Mesmo em Bad vemos essa fragilidade. Em “Liberian Girl”, ele confessa que uma garota fez com que seu mundo mudasse com aquela distinta sutileza vocal. Mas, perceba a diferença: nela, a mulher está ali presente, mesmo que em backings tímidos. Não se trata de uma relação platônica; a presença dela mostra que a tal garota foi uma conquista. Ele a amou, ela está junto a ele. Isso é totalmente diferente de contemplar a beleza à distancia (como em “Rock With You”, por exemplo, em que ele fala da conquista como algo que poderia acontecer a partir do groove da dança).

Em “I Just Can’t Stop Loving You”, ele diz que o ‘amor é a resposta‘ de uma relação sincera. Relação trata-se de troca, não de algo idílico. E essa troca pode ser fruto de uma conquista, termo associado à virilidade.

Percebe? Michael Jackson insiste, por mais que a mensagem não seja direta, em ser o cara que quer ser admirado por todos.

Por isso faz todo sentido que “Bad”, com todos os trejeitos de rock-funk com engrenagens típicas da ficção científica, seja a primeira faixa. Ele precisa convencer de cara que é essa a persona que lidera o disco que veio após as muitas quebras de recorde de Thriller (com mais de 100 milhões de vendas).

Talvez justamente por estar desvinculada do indivíduo Michael Jackson, “Bad” foi um dos singles que melhor envelheceram. Trinta anos depois, ela representa um paradoxo instigante: de um lado, o perfil que MJ queria ser; por outro, tudo aquilo que ele exatamente não era.

Este é um dos muitos argumentos que fazem de Bad uma influência sem precedentes no universo pop. Pois esse universo trata-se mais de aspirar do que realmente ser. Por isso convencer, na música pop, é a ordem.

Fora de seu espectro, a música entra no campo de atuação onde quem parece ser o melhor predomina. É essa a dinâmica que mantém e afasta do topo músicos que vão de Prince a Katy Perry.

Michael fora de si

O single “Bad” convence, e como convence. Mas, o que convence mais é a natureza estrutural do disco por inteiro. Porque há outros exemplos de incorporação de persona que mostram o quanto MJ queria – e foi – além de “Bad”.

Quer exemplo melhor que “Smooth Criminal”?

Da pulsação pré-hip hop, o som cru e os trejeitos malandros, MJ chega a soar astuto e perigoso como jamais conseguira ou conseguiria mais tarde. Ele se apegou tanto a esse personagem que levou às telonas no filme Moonwalker um tipo gangsta em que, claro, o momento do clipe de “Smooth Criminal” é o auge.

Diferentemente dos discos anteriores, Bad é o álbum em que MJ tomou exímio cuidado com a construção desse personagem. Com exceção de duas músicas, todas foram escritas por Michael (tanto que uma delas, a parceria com Stevie Wonder, em “Just Good Friends”, foi algo que o próprio produtor que incentivou essa união, Quincy Jones, confessou anos mais tarde não ter obtido o resultado esperado. Em entrevista recente à Rolling Stone, ele disse que não adianta nada ter grandes cantores quando não se tem uma grande canção).

A outra composição entregue à MJ foi o sucesso de “Man in the Mirror” – que, a bem dizer, foge bastante do tipo de persona idealizado em Bad. Escrita por Siedah Garrett e Glen Ballard, tornou-se o passo inicial para uma fase de conscientização musical que ele enfatizaria em Dangerous (1991).

A música foi encomendada por Quincy: ele ouviu, adorou, mas não sabia como criar os arranjos. Então, chamou Andraé Crouch, que respondeu com uma orquestração num crescendo vibrante como resposta à veia gospel que sobressaltou de Michael na canção.

São intervenções desse tipo que fazem com que o álbum de um artista soe como uma fábrica de singles. Quem duvidava que naquele momento Michael surpreendesse ou pelo menos chegasse próximo à alta vendagem de Thriller deve ter ficado espantado com os números de Bad: chegou ao topo das paradas em 14 países. Cinco singles do disco lideraram o Top 100 da Billboard: o rock à lá Prince de “Dirty Diana”, o soul envolvente de “The Way You Make Me Feel”, a balada “I Just Can’t Stop Loving You”, além, claro, de duas de suas melhores canções em todos os tempos: “Bad” e “Smooth Criminal”.

A excentricidade quase sempre escapa das capacidades de um artista. Nesses casos, é a natureza criativa e o já mencionado convencimento que fazem com que um trabalho tido como excêntrico soe original.

Foi fugindo de sua individualidade que, sem querer, Michael deu a receita do bolo para as diferentes criações pop que surgiram nos anos posteriores. Kanye West raciocinou como Michael em My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), assim como Lady Gaga em The Fame (2008) e provavelmente Taylor Swift em seu próximo disco. De certa forma, todos eles quiseram ser o que jamais seriam.

Artistas Michael Jackson

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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