G. Álbuns: Jorge Ben | Ben é Samba Bom (1964)

Novas possibilidades de arranjos marcam o terceiro disco de um músico que fugiu de todos os rótulos da música brasileira desde o seu surgimento. Ouça na íntegra

01 Descalço no Parque
02 Onde Anda o Meu Amor
03 Bicho do Mato
04 Vou de Samba com Você
05 Samba Legal
06 Ôba Lá Lá
07 Gabriela
08 Zópe Zópe
09 Saída do Porto
10 Dandara Hei
11 Samba Menina
12 Guerreiro do Rei

Gravadora: Universal
Data de Lançamento: 1964

Terceiro disco de Jorge Ben, Ben é Samba Bom muitas vezes é descrito como uma continuação da ruptura estética do compositor que veio com o emblemático Samba Esquema Novo (1963) e foi seguido com Sacundin Ben Samba (1964).

Algumas bem conhecidas deste álbum realmente lembram a fase inicial: temos “Bicho do Mato”, com aquele violão irresistível que introduz uma festança que nos remete a uma “Rosa, Menina Rosa” mais acelerada. Jorge direciona sua letra a uma beleza de pouca percepção – o tal bicho do mato -, sugerindo que essa pequena beleza, por si só, já é motivo de celebração.

Outra canção nesta linha é “Samba Legal”, onde Jorge diz ‘não ter matado o desejo’ por não ter chegado a tempo de sambar. Isso é coisa de “Menina Bonita Não Chora”, em que Jorge também lamenta só de pensar que uma beleza pode ser corroída. No caso de “Samba Legal”, ele se martiriza por ter ‘bobeado’ por ter chegado no final do samba; “Menina Bonita…” é um conselho dado a uma garota que ele está afim (‘estou aqui para lhe consolar’). As duas composições estão conectadas justamente pela ideia do ‘desperdício do belo’. Na primeira, o fato de ter chegado atrasado no samba (que representa o belo); na segunda, o fato de a (bela) garota chorar. Singelezas.

A mudança oriunda em Ben é Samba Bom fica claro logo na primeira faixa: “Descalço no Parque”. A produção de Armando Pittigliani e os arranjos de metais do trombonista Nelsinho a transformam numa marcha dos anos 1940, dando um clima nostálgico a uma canção que fala de estar ‘descalço esperando’ – uma das muitas improbabilidades nas canções de Jorge, que fugiam de clichês de praias, horizontes, carnavais etc.

Esses arranjos, sedutores, se encaixam lindamente em “Onde Anda o Meu Amor”, com direito a sutis passagens de piano. Por incrível que pareça, elas casam bem com o crescendo de Jorge, quando diz: ‘Onde anda o meu amooooor?!?/Sambando/Sacun den den den/Sacun den den den den’.

“Vou de Samba Com Você” exibe um experimento ainda maior nos arranjos – que fazem uma espécie de ligação entre bossa nova, modinha e cool jazz. A composição pode ser entendida como um ‘lado B’ do primeiro álbum, já que fala de ir ao samba com uma garota, em uma roda animada. Nada muito diferente do ‘boom’ de Samba Esquema Novo. No entanto, essa nova forma de colocar os arranjos (ainda mais com a bateria mais ácida de Dom Um Romão) mostra que a música é um horizonte aberto para Jorge Ben, que naquele momento lutava para não ficar preso à estética do debut.

Conforme o disco avança, vemos que as singelezas das canções de Jorge Ben também se aplicam ao seu fator mudança. “Gabriela” retoma o ‘voxê’ sensual e iconoclasta de “Quero Esquecer Você”, mas ganha um acompanhamento mais encorpado: os instrumentos de sopro dão fervor a uma estética que poderia ser bossa nova, mas tem mais a ver com um samba transfigurado. Talvez samba-soul, estética que Ben iria explorar com mais propriedade alguns anos depois.

Mesmo à parte de movimentos como Bossa Nova e Jovem Guarda, Jorge Ben aos poucos foi condensando uma estética própria inimitável.

Ben é Samba Bom pode não ser entendido como um álbum de transição musical como O Bidú: Silêncio no Brooklyn (1967) e Jorge Ben (1969) – chegando ao ápice com A Tábua de Esmeralda (1974) -, mas marca uma mudança de arranjos e novas formas de contornar suas canções que lhe abririam a cabeça para novas possibilidades musicais.

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A seguir, ouça Ben é Samba Bom, de Jorge Ben, na íntegra:

Jorge Ben – Ben é Samba Bom by Tiago Ferreira on Grooveshark

Artistas Jorge Ben

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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