G. Álbuns: Hermeto Pascoal | Slaves Mass (1977)

Disco internacional do alagoano provou que a vibração jazzística era apenas um elemento de um som inclassificável

Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 1977

Miles Davis chamava Hermeto Pascoal de ‘albino maluco’. Apesar de nunca ter se sentido ofendido pelo trompetista, o fato de ser albino fez com que muitos professores se recusassem a dar aulas de instrumento a ele, dizendo que não tinha capacidade de ler partituras. No interior de Alagoas, teve que aprender a tocar sozinho e do seu jeito (começou com acordeom, aos 7), e isso ajuda a explicar a extensão da liberdade criativa de toda sua obra.

“Sou um músico de jazz quando toco jazz”, disse Hermeto ao The New York Times em 2004, quando se preparava para mais uma de suas surpreendentes turnês musicais. “Mas isso é apenas uma das coisas que eu faço, não somente uma coisa”.

Puxando pela abordagem, o jazz ajuda bastante a serpentear pela carreira de Hermeto. Ele ficou famoso a partir de 1966, quando integrou o grupo Quarteto Novo, que lançou um único disco (homônimo), referência até hoje.

O percussionista Airto Moreira, que também integrava o grupo, morava nos Estados Unidos e convidou o alagoano de Lagoa da Canoa para gravar um disco por lá.

Moreira integrava o grupo de fusion-rock de Miles Davis, e Hermeto fez importante colaboração em um dos discos mais influentes dessa era, Live-Evil (1971), compondo “Little Church” e “Nem Um Talvez”. O trompetista não só adorou as composições, como chamou-o para excursionar como pianista. (Detalhe importante: as duas canções são creditadas a Miles, mas por conta de um problema da gravadora, segundo o próprio Hermeto. “Eu e ele tínhamos uma amizade bem espiritual”.)

Quando Hermeto voltou ao Brasil, gravou um disco em que reimaginou nossa cultura popular sob ótica livre, atingindo inúmeras possibilidades em A Música Livre de Hermeto Pascoal (1973). Nos EUA, o músico ficou famoso por apresentações tão improváveis quanto viscerais. Foi nesse período que ele gravou um de seus álbuns mais enérgicos: Slaves Mass, com aquela capa que o exibe como um tecnicista do piano num contraste P&B que me remete a An Electric Storm (1969), do White Noise.

Airto e sua esposa, Flora Purim, assumem a produção desse disco que leva o termo frenético para outro patamar. É como se ele injetasse a fissão sonora do Weather Report na diversidade harmônica da música brasileira – inclusive, um dos músicos do grupo, o baterista Chester Thompson, toca no disco.

O fusion é um elemento importante principalmente porque fazia parte do universo de Hermeto naquele momento. Mas, seria errado colocar Slaves Mass na mesma prateleira que The Inner Mounting Flame (1971) ou Black Market (1976), porque ele traz a riqueza do regional brasileiro e a crueza de seus experimentos com a profusão jazzística dos anos 1970 – que, além do fusion, inclui hard-bop, free-jazz, música latina.

Na faixa-título, por exemplo, ele traz um porco pra complementar um som de forte raiz nordestina. A seguinte, “Little Cry For Him (Chorinho Pra Ele)”, pega o baião e transforma-o num exercício de intensa agilidade, enquanto “That Waltz (Aquela Valsa)” é uma balada romântica à lá Hermeto: começa numa dança a dois, até que os ritmos entrem em euforia e o peso do trombone de Raul Souza dê lugar à agudez do sax-soprano, tocado pelo próprio Hermeto.

O alagoano alterna entre diversos instrumentos no disco, incluindo flauta, guitarra e teclado Fender Rhodes. “Gosto de todos os instrumentos, mas se tivesse que escolher apenas um, seria o piano”, disse o compositor certa vez, citando o fato dele ser o mais completo em termos de construção rítmica e harmônica. É ao instrumento que ele devota “Just Listen (Escuta Meu Piano)”, num solo que parece uma miscelânea do esquema temporal da Rapsódia nº 1 de Béla Bártok com o estilo de Cecil Taylor.

Outro instrumento em que Hermeto era fera: a flauta. Isso é possível ouvir em “Cannon”, dedicada ao saxofonista Cannonball Adderley, falecido em 1975. O solo é misturado a sons estranhos gravados, dualidade que foi colocada como algo proposital. É mais um exemplo do uso inusitado da voz em seu trabalho. Sua importância é tão grande, que estudiosos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) a destrincharam num estudo acadêmico:

“”Cannon” pode ser considerada uma obra-prima do repertório da flauta por diversas razões. Primeiro, parece tratar-se da primeira peça surgida no cenário da música brasileira, até onde sabemos, para flauta e fita magnética. Segundo, trata-se de uma obra em que se vislumbra uma escrita altamente idiomática da flauta, não só com a sua utilização instrumental tradicional virtuosística dentro da linguagem modal expandida e dentro do espírito da cadenza de concerto, mas também por explorar eficientemente um grande leque de formas de ataque e técnicas expandidas, como multifônicos e, especialmente, o humming. Outro aspecto que torna “Cannon” revolucionária e que também transgride a barreira entre os mundos erudito e popular, é a hibridação de práticas de performance que fazem referência a gêneros populares (como o jazz, a embolada ou o repente) e às práticas eruditas (como o modalismo quase-atonal, a música eletroacústica, a cadenza de concerto), deixando irreconhecíveis os limites entre a composição prévia e a improvisação”.

“Cherry Jam (Geleia de Cereja)” tem um título engraçado, mas trata-se de um dos takes mais ousados do disco. O baixo de Alphonso Johnson contrasta com o som expressivo do soprano e das guitarras (assinadas por David Amaro). O resultado é uma jam que visualiza as notas dos instrumentos como conexões de ideias. Todas elas estão entrelaçadas como acordes precisos, quando estão justapostas de um jeito totalmente ao contrário: com notas espalhadas, que na simulação de desconexão cria exatamente a conexão perfeita.

“É muito difícil alguém descrever o meu trabalho, porque ele é universal”, classificou Hermeto.

Slaves Mass foi gravado nos EUA e os resultados tolhidos por ele ajudaram a expandir essa linguagem para palcos de todo o mundo. Suas raízes, porém, vão muito além de qualquer nacionalidade.

O mundo é pequeno demais para as ideias de Hermeto.

Artistas Hermeto Pascoal

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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