G. Álbuns: Gil Evans | Gil Evans & Ten (1957)

A estreia inovadora de um dos maiores arranjadores de jazz de todos os tempos


Gravadora: Prestige
Data de Lançamento: 2º semestre de 1957

Quando se fala em líderes de big bands do jazz, geralmente costuma-se separar em dois períodos: antes e pós-guerra (no caso, II Guerra Mundial).

Isso porque antigamente havia demanda maior para as grandes orquestras, onde Count Basie e Benny Goodman começaram a se destacar.

Ainda assim, muitas delas só foram reconhecidas posteriormente, como a de Jelly Roll Morton (que sempre se autoproclamou o ‘inventor’ do jazz).

Do período pós-guerra, destacaram-se Stan Kenton e Duke Ellington, mas nenhum deles teve uma trajetória como a de Gil Evans.

Famoso por sua parceria com o trompetista Miles Davis (certamente uma das mais importantes de toda a história do jazz), Evans já era considerado um arranjador de alta estirpe antes mesmo de lançar um disco próprio: nos anos 1940, ganhou notoriedade por trabalhar na orquestra de Claude Thornhill.

Dias depois de gravar Miles Ahead (1957), Evans percebeu que finalmente era hora de ter um trabalho com assinatura própria.

Já contratado da gravadora Prestige, onde se uniu com Miles Davis, ele pensou em estruturar algo diferente do que havia proposto no álbum do trompetista.

No final dos anos 1950 os managers já não eram tão entusiastas com as grandes bandas. Por isso, geralmente restringiam as gravações para, no máximo, 11 músicos – um número ‘cabalístico’ que permitia não gastar tanto com casting e, ainda assim, obter um som volumoso em estúdio.

Gil Evans viu isso como um ‘desafio criativo’, e para seu primeiro álbum, Gil Evans & Ten, fez uma separação diferente: além do escopo piano (que ele mesmo tocava), baixo (assumido por Paul Chambers) e bateria (Nick Stabulas, com exceção de “Remember”, tocada por Jo Jones), Evans contou com 3 instrumentos de sopro (dois saxofones e trombone) e uma sessão de metais com 5 músicos.

Primeiro de tudo: o sax-soprano e o trombone, dois instrumentos que se destacam no disco, não eram tão apreciados na época. Vale lembrar que isso foi pouco antes de caras como John Coltrane e Wayne Shorter ‘repopularizarem’ o soprano (aquele de som mais agudo). Quanto ao trombone, com exceção das orquestras de Duke Ellington, já não tinha a importância das grandes bandas do pré-guerra.

Numa época em que não havia muitas referências estilísticas de soprano, Gil Evans lembrou que certa vez tinha gostado muito de um músico que, de tão habilidoso, o fez lembrar do pioneiro Sidney Bechet.

Em 1957, Steve Lacy tinha apenas 23 anos e nem fazia ideia de quem era Gil Evans quando recebeu uma ligação inusitada.

“Eu não sabia muito de partituras, e era o pior da banda. Eles tinham que ficar repetindo as coisas toda hora porque eu errava na leitura”, disse o saxofonista tempos depois.

Evans deu a Lacy o peso de ser o principal instrumentista do disco. Lacy era um bom improvisador – se você ouvir “Ella Speed”, por exemplo, percebe que ele delineia as notas sem contrapor a pulsação do baixo, embora esteja de certa forma desafiando-o.

“Não eram bem as notas que eram difíceis, era mais os ritmos mesmo – eles eram bem precisos e bastante sutis, eram como ritmos ditados”, disse o músico.

Quando Lacy exerce a liberdade, você entende a escolha meticulosa de Evans: basta ouvir o belíssimo solo de “Just One of Those Things”, adaptado de um tema de Cole Porter.

Se Steve Lacy agradou o maestro por tocar num grupo de Dixieland, o trombonista Jimmy Cleveland tinha um traço da era do swing que o lembrava Bart Varsalona, que instigou big bands de Artie Shaw e Woody Herman. (Varsalona também toca no álbum, assumindo o trombone-baixo.)

Cleveland sabia como extrair blues do instrumento, como na belíssima intro de “Big Stuff”, mas também marcava importante dinamização com Lacy, como na animada “Jambangle”, com uma das performances de metais em conjunto mais exuberantes da época.

Entre outros feras, Gil Evans & Ten trouxe Lee Konitz, sax-altista que ficou famoso no cool-jazz, mas já estava testando as estribeiras no free-jazz: ele participou da gravação que trouxe o ‘primeiro free-jazz da história’: “Intuition”, de Lennie Tristano – isso em 1949.

Evans admirava a técnica de Cecil Taylor e prestou atenção no início do free-jazz, mas só foi testar algo nessa linha depois de Out of the Cool (1960). Seu estilo no piano, em Gil Evans & Ten, era mais econômico, como Basie e Ellington – mas não se pode negar que há uns takes bem sórdidos, como o início sepulcral que ele dá a “Nobody’s Heart” (de Richard Rodgers e Lorenz Hart) ou o lindo lamento blueseiro de “If You Could See Me Know” (Tadd Dameron e Carl Sigman).

Assim como o parceiro Miles Davis, Evans “sabia como combinar certas pessoas que nunca tinham tocado juntas, pessoas mais velhas, mais novas, de estilos diferentes, escolas diferentes”, como disse Lacy.

Foi a justaposição de tudo isso que fez com que Gil Evans & Ten se tornasse uma estreia brilhante – embora não tenha refletido bem em vendas, algo que infelizmente costuma acontecer.

“As inovações de Evans neste álbum – sua escolha não usual de instrumentos e engates, seus passeios por tempos e temas e seu fraseado prolongado – são obscurecidas pela espiritualidade alegre e o swing”, escreveu a biógrafa de Evans, Stephanie Crease.

O teor mais inventivo viria em clássicos como Sketches of Spain (1960), de Miles Davis (levando ainda mais adiante a proposta de trazer instrumentos inusitados para orquestra, como a tuba), e no misterioso Out of the Cool.

De qualquer forma, não haveria forma melhor de cravar pela primeira vez assinatura própria como bandleader e arranjador – ou o cara que dá nova abordagem a clássicos de um jeito particular e meticuloso – do que em Gil Evans & Ten.

O maestro canadense já era consagrado. A partir daqui, então, rumou longos passos para se tornar um dos jazzistas mais importantes do século passado.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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