G. Álbuns: Cymande | Cymande (1972)

Grupo revolucionou a música negra britânica, mas seu estrondo teve mais peso nos EUA

Gravadora: Janus
Data de Lançamento:
1972

O disco de estreia do Cymande já foi sampleado por grupos conhecidos como De La Soul e Fugees (que rendeu um processo a Wyclef Jean, de US$400 mil), mas sua popularidade deve-se mesmo ao interesse dos pioneiros DJ Kool Herc e Grandmaster Flash pelas guitarras, flautas, percussões e, principalmente, o baixo de Stephen Scipio.

Começo do rap tem a ver com extração de elementos musicais, mas são mais profundos do que isso. Escolhas são idiossincráticas, e o legado do Cymande estar associado às raízes do hip hop não é mera aleatoriedade.

Início e o single “The Message”

Minimamente populares nos EUA, principalmente pelo resgate dos DJs interessados (que se multiplicaram com o passar das décadas) em sua originalidade musical, o Cymande foi formado em Londres em 1971 por Patrick Patterson (guitarra, voz e órgão) e Stephen Scipio (baixo) com músicos de diversas partes da América Central, como Guiana, Jamaica e São Vicente e Granadinas.

O nome, Cymande, era um termo bastante utilizado nas músicas de calypso que designava pomba branca. Por isso, em todos os discos do grupo ela aparece, porque significa paz e amor.

No mesmo ano de formação, o grupo liderado por Patterson e Scipio foi descoberto no Soho por John Schroeder, que buscava novos artistas para sua gravadora Alaska Records.

Schroeder estava lá de boa, curtindo um som, até que ouviu a vibe de rock-funk-soul-R&B-reggae que o Cymande tava tirando.

Em pouco tempo, Schroeder os chamou para uma sessão em estúdio, de onde saiu “The Message”, que seria escolhida como single principal.

Eles apostaram na levada slow-funk com uma investida naturalista e forte proximidade com o reggae – isso anos antes dos britânicos caírem nas graças pelo reggae no ano seguinte, com Jimmy Cliff e o sucesso de The Harder They Come (1972).

Cymande nas paradas dos EUA

Schroeder apresentou as demos do Cymande ao empresário Marvin Schlachter, que tinha ampla circulação no circuito soul R&B nos Estados Unidos. Ele ficou tão impressionado, que conseguiu fazer com que uma subsidiária da lendária Chess Records, a Janus, desse o dinheiro para que o Cymande gravasse o disco.

“The Message”, por si só, era tão boa, que chegou ao top 20 das paradas de R&B nos Estados Unidos naquele ano. Isso impulsionou o grupo a excursionar com Al Green, e logo eles já estavam tocando no Harlem Apollo Theatre e fazendo os americanos dançarem ao som que eles classificaram como ‘nyah rock’, em referência a Nyabinghi, ritual da cultura rastafári muito ancorado na percussão.

Percussão, na verdade, é uma força bem propulsora do grupo. Mas não de um jeito óbvio. Na primeira música, “Zion I”, o coro de percussão obedece a uma oração, enquanto os elementos musicais se espalham como as ramificações de uma árvore bem enraizada.

Esse tipo de fluidez tem uma riqueza de diversidade, representada pelo multiculturalismo dos 9 integrantes do grupo.

O mais impressionante é como o resultado podia ser límpido como “Listen” ou efervescente como em “Rickshaw”, onde o baixo de Scipio exerce a função de maestro, antecipando naipes de metais e dando passagem para o inspirado solo de flauta de Mike Rose.

A escolhida para o segundo single foi “Bra” (gíria dos caras para ‘bro’, irmão). Dá pra entender assim que as congas começam a ressoar nos primeiros acordes: o vocalista Ray King vem tomado de intensa espiritualidade (a música fala da filosofia Rasta), radicalizada pelo solo de sax-alto, que dá ainda maior vibração à música. O estilo reggae-dub-soul fica ainda mais extremado em “Mighty Have Loaded”, lançada como bônus anos depois (e uma das melhores músicas já feitas pelo Cymande).

Importância na música negra

A riqueza estética do Cymande é algo que, como já pontuou a FACT Magazine, só poderia ter surgido na Grã-Bretanha, mais aberta aos ritmos caribenhos.

O que puxou o sucesso nos EUA foi associar o grupo a uma onda soul, ritmo que também se encaixa na estética sonora do Cymande.

E eles extraíram o máximo que puderam em seu auge. De 1972 a 74, gravaram três discos: este Cymande, além de Second Time Round  (1973) e Promised Heights (1974).

Mas, Patterson e Scipio acabaram voltando para a região do Caribe para trabalhar em escritório, e o grupo acabou tornando-se obscuro – pelo menos até os anos 1980, depois de Grandmaster Flash usar “The Message” como base do single “On We Go”, de Doom, e o grupo da era pré-hip hop Raze usar “Bra” como base de “Jack The Groove”.

O acadêmico Paul Gilroy, autor de “O Atlântico Negro: Modernidade e Dupla Consciência”, explicou em poucas palavras a representatividade do Cymande na Inglaterra dos anos 1970: “O que eles estavam tentando fazer – antes que as pessoas tivessem realmente prontas – foi reescrever as regras da música negra, mas em uma cidade que não a suportava, e isso só mostra um pouco de sua criatividade maravilhosa”.

Hoje o eco do Cymande é mais sentido. Eles voltaram nos anos 1980, com Arrival (1981), e após uma turnê em 2014, acabaram lançando A Simple Act of Faith no ano seguinte. Atualmente, o grupo continua na ativa – tanto que vem para o Brasil no Nublu Jazz Festival nos dias 6 (Sesc Pompeia, em São Paulo) e 7 de abril (Sesc São José dos Campos).

Artistas Cymande

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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