G. Álbuns: Burial | Untrue (2007)

10 anos depois, o disco que melhor interliga a eletrônica à solidão continua despertando novas sensações

Gravadora: Hyperdub
Data de Lançamento: 5 de novembro de 2007

Falar de dubstep é, invariavelmente, falar de uma proposta sonora exacerbada. Skrillex e Skream, dois de seus expoentes mais populares, multiplicaram a velocidade das batidas e trouxeram referências mais intimidadoras do dancehall jamaicano num mix mais atrativo para as pistas.

Tanto que, quando se fala que as origens do que chamamos de dubstep vem de um projeto desconhecido, cru, também notívago, só que mais insone, muitos até duvidam.

O que a música do Burial, mais ambient, reflexiva e solitária, tem a ver com essa eletrônica pesada, que anseia ser épica?

A referência, claro. Investigando a fundo, “Burial” foi um single bem famoso na voz de Peter Tosh, do disco Legalize It (1976). Mas, como bem revelou o jornalista Simon Reynolds, da Pitchfork, o “Burial” tem mais a ver com a música de Leviticus, um jungle de 1994 que fez bastante sucesso em Londres, sua terra natal. Em suas muitas idas de ônibus a Londres, o músico por trás do Burial costumava compilar mixtapes de várias músicas eletrônicas com referências jamaicanas, incluindo jungle e drum’n bass.

Eletrônica individualizada

Seu segundo disco, Untrue, reforça um importante aspecto de individualidade na música eletrônica. As reflexões tendem a divagar sobre solidão, como se observa em “Dog Shelter” e “In McDonalds”, por exemplo, que parecem drones ambient mais próximos de uma estrutura post-rock do que da eletrônica em si.

Os diversos singles posteriores mostraram que o Burial soaria mais efetivo em suas mensagens nesse formato de canções. “Come Down to Us”, de Rival Dealer (2013), por exemplo, seria uma epopeia sobre identidade de gênero, reforçada por um dos irmãos Watchowski (Matrix, Sense8) numa declaração.

O problema de falar sobre individualidade é que muitas vezes ela é confundida com solidão. Colocando em termos políticos, reforçaria a tese do capitalismo liberal, em que o lucro e a prosperidade da vida se materializam no dinheiro – que, invariavelmente, é melhor aproveitado e melhor conquistado no espectro da individualidade (repartir, nesse sistema, é quase um pecado).

Na música de Burial, a individualidade é a busca de um encontro consigo. Um encontro desajustado, uma vez que tudo que te rodeia parece atrair mais para o caos que para a harmonia.

Quando foi perguntado uma vez sobre o que seria o título de Untrue, a resposta do Burial foi vaga, mas suficientemente complexa: “É igual a quando as pessoas não agem como elas mesmas. Elas são falsas, há algo errado, uma atmosfera estranha invadiu o espaço”.

Partindo desse pressuposto, Untrue é o exercício do próprio Burial em não ser verdadeiro, nem consigo, nem com o resto do mundo. Surgem, então, as contradições: o não-verdadeiro seria a freneticidade da bateria de “Near Dark” ou os trechos fragmentados que permeiam o som meio trip-hop da faixa-título?

‘Ciência vocal’

Essa dualidade é sustentada por uma técnica que acompanha o Burial até os dias de hoje, chamada ‘ciência vocal’. O termo é sustentado por pequenas edições vocais fragmentadas, de acordo com o ritmo e a melodia da música – não necessariamente combinando, mas de certa forma complementando, mesmo que surja algo atonal.

Grande exemplo disso é “Archangel”, com repetições que falam sobre abraço, confiança, beijos, amor. Elas são rememoradas como boas e importantes lembranças, mesmo que elas pareçam distantes naquele exato momento.

Em “Endorphin”, essa técnica se mistura ao que seria chamado de drone, caso se falasse de um álbum de post-rock. Parece trilha de sci-fi, mas se fosse realmente utilizar este som como trilha, ele certamente se encaixaria melhor em algum game de RPG futurista. Sim, porque o Burial faz um tipo de música de conexões distanciadas. Seu estilo meio sinistro e misterioso casa bem com alguns dos games mais celebrados da década. Menos mundos fantasiosos demais, como World of Warcraft e God of War; mais thrillers, tipo Syphon Filter e Metal Gear Solid 2, de onde o produtor extraiu trechos para “Archangel”. “Muito das baterias das minhas canções são de pessoas pegando algum tipo de armamento nos jogos”, disse o músico à revista The Wire.

E essa conexão da sua música também tem a ver com o longínquo tempo em que as raves eram redutos alternativos. Em entrevista ao Guardian, ele disse que não chegou a vivenciar bem esse período, mas que captou essa ‘magia misteriosa’ de tempos idos tendo seu irmão, já falecido, como referência. Ao ouvir “Shell of Light”, por exemplo, a impressão é que esse imaginário é uma utopia distante. Ele não tenta emular nada dos sons que fizeram a cabeça dos londrinos em garagens dos anos 1990; “Shell of Light”, inclusive, mostra um tipo de reverberação, como se esses encontros tivessem ecos da sua personalidade hoje. Como? Na vaga lembrança daquilo que não vivenciou, como se a música fosse uma experiência passada geneticamente.

Álbum londrino

Untrue, um disco que poderia ser chamado de eletrônica-subconsciente, só poderia ter sido concebido em Londres. Não é apenas uma crítica à comercialização do gênero; o disco se comunica a partir da solidão de um cara que gostaria de ter referências mais interessantes e, por isso, se conecta a uma genealogia musical da qual não foi membro ativo, da qual não participou.

Todo o mistério por trás de Burial, na real, faz todo o sentido. Ao se esconder, ele nos instiga a pensar o que maquinalmente passa por sua cabeça quando compõe música.

Uma de suas maiores inspirações foram as muitas voltas por Londres de madrugada – não necessariamente em clubes, mas nas ruas vazias, de encontro com poucos cidadãos solitários, pensando, voltando pra casa. Ele detalhou isso ao Guardian:

“Eu poderia sentar em algum lugar, esperar a noite cair ou o verão terminar. Ou poderia sair, esperar ficar escuro e então voltar e trabalhar na minha música, como se estivesse me hipnotizando. Eu amo essa sensação de quando você vê que quase todo mundo da sua cidade está adormecida, ou quando você sai e escuta as suas músicas no carro de alguém à noite. É como se estivesse hibernando”.

Artistas Burial

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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