G. Álbuns: Bruce Springsteen, Born to Run (1975); confira vídeo

Aventuras, sonhos, esperança. O disco que redefiniu o ícone Bruce Springsteen e tornou-se hino da América

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 25 de agosto de 1975

Bruce Springsteen passava por maus bocados antes do terceiro disco. Ele havia sido pressionado pela gravadora, Coumbia, pela má vendagem de Greetings From Asbury Park: NJ e The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle, ambos de 1973.

Por outro lado, os discos foram bem recebidos pela crítica especializada. Jon Landau, que tinha uma coluna no Real Paper, de Boston, chegou a considerar Bruce o “futuro da música”. O jovem músico de 24 anos guardou bem essa consideração e concluiu que ele poderia ajudá-lo a fazer com que mais pessoas gostassem da sua música. Afinal, se ele era o ‘futuro’, mais pessoas precisariam saber disso.

“Sua habilidade em ver pelo coração o que realmente importa pessoal e profissionalmente, e o amor que ele me deu mudou minha vida para sempre”, disse Springsteen sobre Landau em 1999, quando foi nomeado ao Rock’N Roll Hall of Fame.

Outro fator importante para Springsteen era reformular a E Street Band. A chegada do baterista Mark Weinberg e o pianista Roy Bittan foram fundamentais para esta renovação. Além disso, o saxofonista Clarence Clemons passa a ter mais protagonismo sonoro, deixando o som da banda mais encorpado.

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Identificação em New Jersey

Ainda em 1974, o antigo produtor de Bruce, Mike Appel, havia distribuído algumas fitas para disc-jockeys de New Jersey a canção “Born to Run”.

Não demorou para que a canção se tornasse um hino local. Afinal, ela tinha tudo a ver com o contexto da cidade, que sofria com subempregos. “Não era nada diferente de uma cidade provinciana”, disse Bruce mais tarde. “Havia algumas fábricas, algumas farmácias e coisas assim, e se você não fosse à faculdade, acabaria trabalhando nesses lugares”.

Para fugir disso, Bruce propôs um isolamento de todo esse contexto. Na faixa-título do álbum, ele compartilha o desejo de rumar para lugares melhores, conhecer o mundo, para ‘nunca mais voltar’. É o típico desejo utópico de encontrar algo melhor, seja nas grandes cidades ou em um lugar isolado que dê a oportunidade de prosperar – algo que New Jersey não podia oferecer naquele momento.

Naquela época, o então presidente americano Richard Nixon pregava um discurso conservador, de pouco investimento social. Isso, de certa forma, contribuiu para que muitos cidadãos americanos se tornassem desesperançosos com seus empregos e conquistas. Portanto, “Born to Run”, enquanto canção, tinha um poder de identificação muito maior do que Bruce previra.

Wall of sound

Volta-se, então, à tecla: mais pessoas tinham que escutá-lo.

Um fator estético também foi crucial para a efetividade da canção: o uso de um trejeito sonoro chamado wall of sound. Criado pelo produtor Phil Spector (Beatles, The Ronettes), essa técnica punha diversos instrumentos tocando a mesma nota ao mesmo tempo, em uníssono, para dar um clima mais catártico à canção.

Nesse sentido, Clarence e Bittan foram primorosos nessa essência, porque souberam como dinamizar a partir dessa proposta. Em “Backstreets”, eles se unem para potencializar o refrão de Bruce, um dos mais vigorosos de toda a sua carreira. Já em “Jungleland”, eles alternam entre solos emocionantes, dando uma humanidade grandiosa mesmo com as poucas intervenções vocais de Bruce.

Outro instrumentista fundamental para Born to Run é o guitarrista Steve Van Zandt. Ele, que era contra a suavização que havia tomado conta do rock nos anos 1970 (vide Elton John, Bee Gees etc), carregava a influência de blues, Motown e do rhythm’n blues.

Portanto, Zandt era o meio-termo essencial entre os metais de longas notas e o virtuosismo do piano de Bittan. Com poucas notas, ele fez “Thunder Road” ressoar como um rock de gente grande. Os riffs abertos de “Night” garantiram que Bruce tivesse um ar ainda mais imponente como protagonista.

Esperança quase interrompida

Demorou mais de um ano para que Born to Run fosse do single ao álbum.

Quando recebeu a versão final da fita, Bruce ouviu e disse ainda não estar convencido. Talvez fosse a qualidade da fita, ou talvez ele não estivesse em um dia bom. Mas o fato é que ele decidiu jogar tudo aquilo fora. Queria fazer tudo de novo. Nesse caso, a intervenção de Landau foi essencial. Ele ouviu atentamente as reclamações do músico, manteve-se calmo e usou a psicologia reversa: será que Bruce estava disposto a passar por tudo aquilo de novo? Não era apenas excesso de insegurança?

Com todo o apoio de Landau, Bruce deu a aprovação final e Born to Run foi lançado.

A força poética do disco era tão forte, assim como a grandiosidade estética, que não demorou para arrancar elogios do crítico Lester Bangs, da Roling Stone, e estampar capas das influentes revistas Time e Newsweek.

Suas letras sobre sonhos, aventuras, sobrevivência e, principalmente, esperança eram o que o rock e a sociedade norte-americana precisavam ouvir naquele momento – momento que se estende até os dias de hoje, vale ressaltar.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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