Art Ensemble of Chicago | Les Stances à Sophie, 1970 (G. Álbuns)

O revolucionário disco de free-jazz que ficou mais conhecido que o filme do qual integrou a trilha sonora

Gravadora: EMI France
Data de Lançamento: segundo semestre de 1970

A base da música do Art Ensemble of Chicago é nos Estados Unidos, mas em 1969, um ano após ser formada pelos saxofonistas Joseph Jarman e Roscoe Mitchell, o trompetista Lester Bowie e o baixista Malachi Favors, eles estavam onde deviam estar: na Europa. Precisamente, Paris.

Eles eram membros integrantes do coletivo Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), que alinhava história da música com a multiplicidade das artes e o conhecimento das raízes africanas. À procura de conscientizar a riqueza cultural negra como parte da luta dos direitos civis nos EUA, o coletivo AACM realizava diversos concertos, aulas e palestras. De lá também saiu outros jazzistas grandiosos, como Anthony Braxton, Henry Threadgill, Wadada Leo Smith e muitos outros.

“Éramos músicos com o desejo de ter um melhor controle sobre nosso próprio destino. Foi essa a questão da AACM”, disse posteriormente Roscoe Mitchell.

Devido à proposta essencial de liberdade, o free-jazz não demorou para virar terreno para as explorações do AACM. Foi depois da revolução de Ornette Coleman, John Coltrane e Albert Ayler que foi formado, em 1968, o Art Ensemble of Chicago, que logo começou a impressionar o público com seus temas quase teatrais.

Um de seus primeiros sons, “Get in Line”, do álbum A Jackson in Your House (1969), parece uma apresentação de um teatro de vanguarda, com os instrumentistas intercalando picos de virtuosismo com uma pancada de instrumentos, incluindo vibrafone, marimba, guitarras e até gongos.

Uma das maiores virtudes do Art Ensemble of Chicago era que todos os músicos eram multi-instrumentistas, tornando o desenho sônico ainda mais irreconhecível – e, de certa forma, mais libertador.

Mas, com a eleição do presidente conservador Richard Nixon (1969-74), os EUA não estavam muito abertos para a mensagem do free-jazz. Na Europa, porém, selos como BYG e Actuel promoviam o gênero, e não demorou para que músicos como Don Cherry (trompetista do grupo de Ornette Coleman), Anthony Braxton e dois dos principais saxofonistas do free-jazz, Archie Shepp e Albert Ayler, fossem morar em Paris.

Trilha de filme francês

Com essa base por lá, o Art Ensemble of Chicago seria o próximo grupo a causar estrondo na cena de free-jazz na Europa.

Antes mesmo de terminar uma turnê por casas de show francesas, entre 1969 e 70, eles foram convidados pelo diretor de descendência egípcia Moshe Misrahi a compor a trilha sonora de um filme que tinha o propósito de ser o Madame Bovary de sua época.

O filme foi chamado de Les Stances À Sophie e mostrava a história de uma garota que, entediada após casar-se com um rico empresário, experimenta outros comportamentos sexuais de uma amiga.

O grupo topou fazer a trilha antes mesmo das gravações com o filme começarem. O diretor gostou tanto, que chamou o grupo para participar de uma cena: os músicos apareciam num aspecto meio tribal no que seria um pequeno clube fechado. Nesse local, a personagem começa a se aproximar mais de uma amiga, deixando o marido dela meio desconfiado.

Então, entende-se por que rola “Theme de Yoyo”, certamente a música mais conhecida do grupo. Sua levadinha soul no início era marcada pela voz de Fontella Bass (tecladista e vocalista já conhecida pelo hit “Rescue Me”; ela era casada com Lester Bowie). Mas a levada estrepitosa de Favors no baixo e a entrada arrebatadora dos metais significava a própria subversão comportamental.

Em “Theme de Yoyo”, a trinca Jarman, Mitchell e Bowie buscou um som cheio de robustez, que deixaram os vocais de Fontella ainda mais espirituosos. Quando entra o solo de Jarman, percebe-se um aspecto mais rudimentar, como se fosse o som de ancestrais clamando para serem ouvidos. Em seguida, surge o trompete de Bowie, que liga o grupo a um tipo irreconhecível de hard-bop, até a chegada do sax rasgado ao máximo de Mitchell.

Características dos músicos

Vale a pena entender um pouco mais a característica de cada músico do Art Ensemble of Chicago.

Jarman tinha um estilo mais próximo aos sons africanos, enquanto, por outro lado, Roscoe Mitchell era dotado de uma linha mais cerebral do sax-alto, em um modo mais econômico que depois seria amplamente explorado em projetos solo. Essa calmaria é bem captada nas duas partes de “Variations Sur Un Theme De Monteverdi”.

Ao lado da corpulência de Jarman, o baixo elétrico de Malachi Favors fazia a ponte com a sensibilidade de Mitchell.

Mas o grande gênio que ligou o free-jazz aos ritmos africanos foi o baterista Don Moye que, após se libertar do set convencional de bateria, foi do ritualístico ao impulsivo em sua forma de encarar a percussão.

Os créditos do disco mencionam todos os outros instrumentistas, com exceção de Fontella, como percussionistas, certamente liderado pelas ideias esparsas de Moye, que provavelmente pensava numa execução reflexiva para todos os temas do disco.

Moye tinha entrado recentemente para o grupo naquele ano, ao lado de Fontella. Sua chegada foi de extremo valor, porque trouxe maior complexidade ao lado pouco explorado do antigo quarteto: a direção das percussões.

A calmaria de “Theme Amour Universal”, por exemplo, parece carregada de magia justamente pela precisão de Don Moye. A flauta parece transportar-nos ao Tibete, numa região longínqua acalantada pelas longas notas de sax-soprano de Jarman.

Diálogo ancestral

Nos sons mais explosivos de Les Stances à Sophie, Moye sabia como trazer para o kit de bateria a profusão dos metais.

Em “Theme de Celine”, Jarman-Bowie-Mitchell levaram ao máximo a potência de seus instrumentos, enquanto Favors e Moye pareciam tacar fogo em um dos melhores temas de free-jazz de todos os tempos. Não à toa, a música também tem importante score no filme de Misrahi.

Um dos maiores exemplos de liberdade no disco, porém, pode ser conferido em “Theme Libre”. A música parece sonorizar os navios cargueiros da época dos tráficos de escravos, provocando uma sensação de sofrimento, dor, estranheza. Sem melodias definidas, os músicos parecem evocar uma cena a partir de diálogos onde não há um protagonista, mas diversas histórias misturadas que compartilham o mesmo destino.

Parece uma associação vaga, mas essa conexão com o passado é uma das prerrogativas do Art Ensemble of Chicago. Tanto que eles descreviam suas músicas como ‘Grandiosa Música Negra – Antiguidade para o Futuro’.

“Eles poderiam recorrer à música africana ou discutir Monteverdi, enquanto, ao mesmo tempo, referiam-se ao legado musical de Duke Ellington ou do blues”, diz o texto de encarte do disco da Soul Jazz Records, que relançou o álbum em 2000.

Sobre a importância do grupo, o autor de O Livro do Jazz: de Nova Orleans ao Século XXI, Joachim Ernst-Berendt, foi ainda mais além:

“Anos antes do surgimento do jazz pós-moderno, o Art Ensemble reuniu elementos de execução free com alusões a reggae, bebop, soul, canto sul-africano, minimalismo, jazz de Nova Orleans, música concreta, vodu e performances teatrais. Com isso, a banda criava longos e sofisticados arcos de great black music, em que a comunicação entre os músicos constituía um fator estruturador”.

A força de Les Stances à Sophie como trilha sonora é tão extrema, que o disco ficou muito mais conhecido que o próprio filme. Por muitos anos ele ficou fora de catálogo, até ser relançado pela Soul Jazz e ser considerado a prova inconteste da unicidade do Art Ensemble of Chicago.

***

Apesar de ter outro título, American Swinging in Paris foi relançado anos depois, com as mesmas músicas de Les Stances à Sophie e o acréscimo de “People in Sorrow”, tema de outro disco de mesmo nome do Art Ensemble of Chicago, lançado em 1969.

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

Sem Comentário

Adicione um comentário