G. Álbuns: Alexander Robotnick | Ce N’Est Q’Un Début (1984)

O grande clássico da italo-disco mostrou que a world-music tinha muito a contribuir para a eletrônica

Gravadora: Materiali Sonori
Data de Lançamento: 1984

Italian-disco pode ser um termo estranho, mesmo para quem estuda música eletrônica a fundo. Para o começo de qualquer conversa sobre o gênero, Alexander Robotnick é o ponto de partida essencial. Mesmo quem não quer se aprofundar tanto nessa cena, um disco dele é fundamental. O nome dele: Ce N’Est Q’Un Début. Tradução: Isso não é um jeito de começar.

Maurizio Dami, que criou o Alexander Robotnick como alter-ego para alavancar suas produções eletrônicas, nunca gostou do rótulo italian-disco. Tudo começou quando ele foi estimulado pelo dono da gravadora Materiali Sonori, de Florença (Itália). Giampiero Bigazzi disse que Dami deveria investir na disco-music: “Basta colocar o ritmo de bateria em 4/4 e você vai vender 100 mil cópias”.

Dami já tinha experiência musical: estudou jazz, tocando os standards. Aprendeu composição tocando violão e guitarra, mas ficou fisgado mesmo foi pela música eletrônica do Kraftwerk e do Depeche Mode.

Antes de ouvir o conselho de Bigazzi, ele deu início ao projeto Avida, que ele mesmo classifica como “dança eletrônica de cabaré”. Mas o sucesso veio mesmo quando Dami tornou-se Alexander Robotnick e entregou ao empresário o single “Problèmes d’Amour”, hit certeiro com a voz de Martine Michellod.

“Problèmes” deu início a uma onda de interesse pelo techno não somente na Itália, mas por toda Europa. “A canção continua rotulada como italian-disco, mas não é”, contou Dami posteriormente. “É mais eletro, ou proto-house. De fato, essa música tornou-se altamente inspiradora para a cena de house e techno que emergia nos Estados Unidos”.

A passagem por outros terrenos musicais fez com que o Alexander Robotnick pensasse na música numa estrutura matematizada. “Problèmes” utiliza os elementos de repetição da música eletrônica, mas dinamiza guitarra, sintetizadores, voz e percussão como certamente não se ouviria mais das centenas de influências que surgiriam depois.

Estreia de Alexander Robotnick tornou-se uma das maiores influências do início do techno e house nos Estados Unidos e na Europa

Com o sucesso do single, lançado em 1983, natural que um álbum viesse a ser pensado. Pesou bastante o fato de “Problèmes” ter sido exportado para os clubes underground norte-americanos. No ano seguinte, então, Ce N’Est Q’Un Début, um pequeno LP com 6 faixas, veio para consolidar Robotnick como a principal linha criativa do que chamavam de italo-disco – quisesse ele ou não.

A primeira e mais importante coisa a se notar é: “Problèmes”, sensacional por sua dinâmica e energia, era apenas mais uma no álbum.

Ce N’Est Q’Un Début era repleto de canções bem melhores que o single principal.

“Computer Sourire”, por exemplo, levava a experiência da disco-music a um universo digitalizado tão excêntrico quanto Computer World (1982), do Kraftwerk.

“Dance Boy Dance” é até hoje considerada um opus criativo de Robotnick: os elementos pingando sobre um progressivo que agrupa avant-garde e techno, com estouros graves contrastando com sussurros… Aquilo realmente bagunçou o cérebro e os passos de dança de muita gente. “É pop, é dance, é obscuro, é tanta coisa que poderia enumerar”, descreveu o influente DJ Matias Aguayo à FACT Magazine.

“Holla Macci Kola” mostra os primeiros indícios de proximidade de Dami com a world-music. Demi, fã nato da música indiana, formou projetos posteriores com músicos do Curdistão e Argélia. Quando o som de um clarinete sai cortando as batidas aceleradas, sugerindo novas rotas musicais ao ouvinte, certamente os clubes europeus e norte-americanos estavam distanciados de sua lógica musical.

Demi foi ainda mais longe na última faixa, “African Kola”, certamente a que melhor assimila o termo world-music. Com notas cheias de misticismo do sax-soprano de Stefano Cocco Cantini e percussões onipresentes, Robotnick já deixou pistas de que nem só de sintetizadores e batidas pré-programadas a eletrônica deveria se apoiar.


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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