Chuck Berry domou o poder de uma invenção sólida

Considerado ‘pai’ do rock, compositor e guitarrista morreu aos 90 anos em casa; confira uma playlist especial

Eu estava a uns 20 metros de distância de um palco onde Chuck Berry denotava aparência de incansável, mesmo aos 81 anos, tocando “Johnny B. Goode”, “Maybellene”, entre outros clássicos que formataram o que chamariam de rock’n roll na segunda metade dos anos 1950.

A lenda prevalecia sobre a técnica, e a maioria das pessoas que assistiram ao show que ele fez no então Credicard Hall (hoje Citibank Hall), em 18 de junho de 2008, em São Paulo, entenderam que a qualidade da performance não era tão importante quanto a representatividade do homem que influenciou Beatles, Rolling Stones e Beach Boys – tanto que John Lennon chegou a declarar que, se o rock tivesse outro nome, teria que ser Chuck Berry.

Na verdade, Chuck fez o que sempre fez de melhor. Divertiu os espectadores, chamou gente da plateia pro palco, fez todo mundo dançar como se os anos não tivessem passado para o rock…Sua invenção foi tão sólida, que qualquer tentativa de se reinventar soou vã.

Mas, o fato é que o tempo passou ligeiramente rascante. Principalmente para Chuck.

Início da carreira de Chuck Berry

Nascido Charles Edward Anderson Berry em 18 de outubro de 1926, ele tocou guitarra em grupos de blues e country no começo dos anos 1950. Após aprender a técnica de segurar duas cordas ao mesmo tempo, com T-Bone Walker, ele ajudou o grupo do pianista Johnnie Johnson a criar um novo tipo de som.

Em 1955, o bluesman Muddy Waters o apresentou à Chess Records, onde conquistou o proprietário da gravadora, Leonard Chess, com uma canção que se chamava “Ida Red”. Com algumas adaptações, Chuck a renomeou “Maybellene”, que causou um verdadeiro rebuliço por mostrar uma abordagem do rhythm-and-blues até então desconhecido – mas que o levou ao nº 1 das paradas Billboard de R&B.

A partir daí, ele gravou a maioria das canções que seriam associadas à sua carreira até hoje: “School Day”, “Rock and Roll Music”, “Johnny B. Goode”, “Sweet Little Sixteen”. Eram canções que agradavam os jovens colegiais, que adoravam sua alegria nos palcos e aquela dancinha ao mesmo tempo em que tocava (duck walk) – que Angus Young certamente pegou ’emprestado’ décadas depois.

Os arranjos de seu disco de 1960, Rockin’ At the Hops é praticamente um manual que os Beach Boys seguiram à risca. Mas Chuck teria problemas com o grupo californiano: anos depois, eles usariam o mesmo ritmo de “Sweet Little Sixteen” em “Surfin’ U.S.A.”; Chuck os processou por direitos autorais, e ganhou.

Desinteresse do público

Pouco tempo depois, Chuck Berry foi preso por transportar uma adolescente em turnê. Pegou uma sentença de quase 2 anos e quando voltou, em 1964, o cenário musical já não estava tão amigável às suas produções. Beatles e Stones dominavam tudo, e embora ele tenha gravado boas canções, como “No Particular Place to Go” e “Promised Land”, os únicos que se aproximavam dos Beatles em popularidade eram do casting da Motown, como The Supremes e Martha & The Vandellas.

Se nem as canções tiveram a popularidade de outrora, muitos deram as costas ao disco Two Great Guitars, que gravou ao lado do também revolucionário Bo Diddley – um formato que seria considerado pioneiro para discos como Super Session (1968), de Al Kooper, Mike Bloomfield e Stephen Stills.

Quando mudou para a Mercury Records, gravou Live at the Fillmore Auditorium (1967), trazendo a vivacidade da jam pro seu repertório – algo que também não lhe rendeu sucesso.

Seu último grande hit foi “My Ding-a-Ling”, gravada ao vivo para o disco The London Chuck Berry Sessions (1972), com o interlúdio que dizia: ‘Não há nada errado com sexo’. Foi a única música dele a chegar ao topo das paradas pop, e o que se seguiu rapidamente caiu no esquecimento.

Bio (1973) foi lançado com o propósito de fazer com que Chuck deslanchasse novamente, mas poucos deram atenção. Um crítico da Phonograph Record assim descreveu como o guitarrista era percebido naquele momento: “Ele continuou fazendo a mesma coisa, se enfraquecendo para caber no seu conforto, enquanto aumentava a ênfase no que sempre foi seu atributo principal, de qualquer maneira: sua personalidade”.

Tempos depois ele foi preso por não pagar impostos, em 1979 – quatro dias depois de tocar para o então presidente norte-americano, Jimmy Carter. Em 1990, encontraram maconha em um restaurante de sua propriedade, e ele foi à Corte novamente, mas não foi preso.

Seu último disco de estúdio foi Rock It (1979), com canções como “Oh What A Thrill” e “I Never Thought”, que tinham uma pegada vocal mais voltada pro country, mas sem perder a essência eternizada por ele: acordes saltitantes de guitarra e um boogie animador puxado pela banda.

Em 1982 foi lançada uma compilação que serve como base para qualquer um que queira conhecer Chuck Berry numa perspectiva geral: The Great Twenty-Eight, que pincela os principais clássicos de sua carreira.

Morte do rock?

Em outubro do ano passado, ao completar 90 anos, ele disse que lançaria um disco inédito. Com o título de apenas Chuck, a previsão era que fosse lançado em junho de 2017.

Apesar da idade avançada, a morte de Chuck Berry – anunciada pela polícia de St. Charles, cidade do Missouri (EUA), onde morava – se confunde com a própria vida do rock’n roll.

Será que a morte de um dos (se não O) maior criador do rock deve carregar todo o gênero para sua lápide?

Artistas Chuck Berry

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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  1. Ariel L. Lázaro 19 Março, 2017 at 15:25 Responder

    Se estiver falando do mainstream, o rock já morreu faz tempo. Agora, no cenário alternativo, o rock ainda tem muita a oferecer.

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