Benny Goodman e a orquestra que fez dele o rei do swing

Como Benny Goodman levou o jazz ao Carnegie Hall

80 anos do dia em que o bandleader apresentou pela 1ª vez no templo sagrado da música clássica o que seria o novo gênero popular nos EUA

Benny Goodman tinha 28 anos quando tornou-se o primeiro jazzista a tocar no famoso Carnegie Hall, em Nova York.

Antes daquele rapaz alto fazer uma audiência acostumada à música clássica cair de vez no swing de sua big band, ele estava bem receoso.

Aquele estilo contagiante já era bem conhecido antes mesmo dele se tornar o ‘Rei do Swing’, alcunha que também lhe deixava preocupado – afinal, ele tinha medo de que aquele som encorpado de metais, feito para dançar mesmo, acabasse saindo de moda, culminando, consequentemente, em sua derrocada comercial.

Infelizmente, essa previsão acabou se concretizando, só que em partes. Entre o final dos anos 1930 e começo dos 1940, Benny Goodman foi um dos mais bem-sucedidos bandleaders de sua era, mas ficou apagado após a explosiva chegada do bebop.

Ele foi considerado um dos maiores nomes da Era do Swing por dois motivos: por ser um cara branco tocando jazz (o que já lhe dava vantagem ante colegas como Count Basie ou Duke Ellington, por exemplo); e, claro, pelo talento. Goodman deu protagonismo ao clarinete de forma nunca antes vista dentro do jazz – a não ser, claro, por seu ‘rival’ que surgiu pouco tempo depois, o também líder Artie Shaw.

O jazz chega ao Carnegie Hall

No dia 16 de janeiro de 1938, o clarinetista de Chicago subiu ao opulento palco do Carnegie Hall para o que seria o primeiro show de jazz no local.

O público já tinha ouvido falar no tal de swing que seria ali apresentado. Nomes como Fletcher Henderson e Louis Armstrong tinham ajudado a dar os primeiros passos do movimento, sob diferentes formas – todas elas, não muito aceitas pela classe média norte-americana, que não aceitava o fato de contemplar negros liderando orquestras musicais.

Benny Goodman nasceu em Chicago, a terra natal do swing. Ele era adolescente quando surgiu o encontro de seus conterrâneos com o estilo de New Orleans, culminando naqueles quatro compassos típicos.

É importante destacar, também, a influência da música europeia nesse processo de ‘evolução’ do jazz. E Benny Goodman, de certa forma, enfatizava essa representação não apenas por ser um músico branco, ou por sua elevada técnica. Ele era um músico exigente.

Embora a liberdade de improvisação fosse importante para os músicos de sua orquestra, ele demandava leitura de partituras, treinos com seções rítmicas e muita disciplina de seus colegas.

Benny Goodman e orquestra no dia da apresentação no Carnegie Hall

“Ele tocava seu clarinete 15 vezes mais que toda a sua banda combinada”, disse o trompetista Harry James, que integrava o grupo de Goodman naquela época. “Em todo momento que estava com Goodman, ele nunca estava satisfeito”, contou ao New York Times.

Goodman era fascinado pelos tempos musicais. Na apresentação do Carnegie Hall, por exemplo, é possível perceber a emolduração de um som geométrico – tudo está encaixado em seu devido lugar, seja na performance de “Stompin’ at the Savoy”, marcada pelo vibrafone de Lionel Hampton, ou na primeira balada que apresentou àquele público, “Sometimes I’m Happy”, com o pianista Teddy Wilson respeitando as entradas dos metais.

Temperamento difícil de Benny Goodman

Os instrumentistas Lionel Hampton e Teddy Wilson causaram estranhamento na plateia não por suas técnicas. Muitos se perguntaram por que Benny Goodman traria músicos negros em sua orquestra.

Pelo menos desde 1935, quando começou a fazer turnês pelos Estados Unidos em busca de solidificar a carreira, Benny Goodman já havia percebido as distintas feições do público em certos lugares. Tanto ele, quanto os bandleaders Artie Shaw e Charlie Barnet foram pioneiros em empregar solistas negros numa época de segregação racial, mas em termos contraditórios.

A princípio, diz o pesquisador Joachim-Ernst Berendt, os líderes se valiam de métodos ‘diplomáticos’: “Para evitar que o público norte-americano imaginasse que brancos e negros dividiam o mesmo espaço na banda, os músicos negros eram apresentados como ‘atrações especiais’”, escreveu Berendt em O Livro do Jazz. Isso, de certa forma, ‘maquiava’ qualquer tipo de integração entre os músicos de diferentes raças.

Quem insistiu para que Goodman mantivesse o mix racial em seu grupo foi o crítico de jazz John Hammond. Em 1936, a agente de publicidade Helen Oakley também aconselhou que o clarinetista não deixasse Teddy Wilson escapar.

Mesmo tocando por bastante tempo com ele, Teddy Wilson não suportava a difícil personalidade de Goodman. Segundo o biógrafo James Lincoln Collier, o clarinetista era egocêntrico, arrogante, não sabia como lidar com os demais integrantes do grupo e mantinha um “comportamento insensível e, às vezes, brutal com relação aos seus músicos”.

Benny Goodman (clarinete), Gene Krupa (bateria), Teddy Wilson (piano) e Lionel Hampton (vibrafone)

Benny Goodman (clarinete), Gene Krupa (bateria), Teddy Wilson (piano) e Lionel Hampton (vibrafone)

Na hora certa

O fato de ser um virtuose no clarinete ajudou a Benny Goodman encontrar alguns dos melhores instrumentistas do jazz em seu tempo.

Além de Hampton e Wilson, ele tinha a seu lado o baterista Gene Krupa, uma das principais forças motoras de seu swing, e o trompetista Harry James, importante adição na base rítmica dos metais.

Mesmo com toda a pompa de ‘rei do swing’, Goodman estava a muitas léguas de distância de caras como Duke Ellington ou Stan Kenton quando se falava em composição.

O importante crítico musical Gary Giddins polemizou ao afirmar que muitos temas creditados a ele, na verdade, tinham sido escritos por outros músicos.

“Goodman realmente não compunha. Eu perguntei a ele se realmente havia feito a composição de muitas de suas peças da qual é co-creditado. Ele confirmou: ‘ah, talvez uma ou duas, mas eu duvido’”, revelou Giddins.

Autor do livro Visions of Jazz, Giddins publicou o ensaio The Mirror of Swing após a morte de Benny Goodman que questiona o verdadeiro contexto por trás de sua apresentação no Carnegie Hall.

Segundo o autor, Goodman destacou-se em um momento em que a América “estava fazendo descobertas sobre a natureza de sua vida cultural”. Seu estereótipo racial e musical, de certa forma, lhe favoreceu para que tocasse no Carnegie Hall no que considera um “grande acordo” feito há 80 anos:

“Ele era, em todos os importantes aspectos, distintamente americano, perseguindo uma música inegavelmente americana com, pelo menos, a tentativa de aprovação de acadêmicos e eurocêntricos em cujos círculos se aproximou. Suas conexões o colocaram no Carnegie Hall cinco anos antes de Duke Ellington. O público se consolou com ele, também. Era branco, mas não muito branco, ou seja, judeu, mas não muito judeu. E sério, mas não tão sério assim, o que quer dizer ser alegre, mas sóbrio. No auge da Depressão, ele tinha credenciais perfeitas para entreter uma nação que sofria e era direcionada à culpa”.

Fletcher Henderson revolucionou as big bands de jazz com seus arranjos

Arranjos de Fletcher Henderson

A análise de Giddins permite vislumbrar com outro olhar temas tão animados, como “Sensation Rag” ou “Honeysuckle Rose”, que fez o público bater os pezinhos naquela importante noite no Carnegie Hall.

Muito do crédito de seu sucesso na Era do Swing se deve ao papel de Fletcher Henderson como principal arranjador de sua obra.

Essa parceria foi sedimentada em 1934, quando tocou por 26 semanas no programa de rádio “Let’s Dance”, em Hollywood.

Henderson criou uma forma contrastante de execução para as orquestras de Goodman, separando o ritmo do piano dos solos de metais. Foi esse modus-operandi que garantiu que temas como “Sugar Foot Stomp”, “Blue Skies”, “Sometimes I’m Happy” e “King Porter Stomp” dessem uma boa base para o repertório inicial de uma extensa turnê de Goodman que quase levou-o a desistir da ideia de ser bandleader.

(Antes de ser o ‘Rei do Swing’, Benny Goodman era um músico free-lancer de prestígio, que ganhava entre US$350 e US$400 por semana, um dinheirão na época. Foi quando o cachê diminuiu consideravelmente, para cerca de US$50 por semana, que ele decidiu que tinha que fazer seu grupo dar certo.)

De fato, Fletcher Henderson não teve a mesma sorte de Benny Goodman que, com o contrato com o “Let’s Dance”, embarcou numa turnê que ia de Nova York à Califórnia. Em 1934, Henderson já havia desistido de sua banda – um feito que provoca até hoje muitos questionamentos, visto que foi ele o responsável por formatar o primeiro padrão de big bands de jazz naquele momento.

“As ideias de Fletcher Henderson eram bem avante a seu tempo. Sem Fletcher, provavelmente eu teria uma banda muito boa, mas seria algo bem diferente do que ela viria a se tornar”, disse Goodman sobre a importância do bandleader em suas composições. Ele lhe pagou exatos US$37,50 para cada arranjo.

Importância de Benny Goodman para o jazz

Devido a esses acontecimentos, deve-se questionar a importância de Benny Goodman para o jazz?

Acredito que, se não fosse dessa maneira – um instrumentista branco formando a ponte para um som de raízes negras –, seria adiado o momento em que o gênero realmente conquistaria as massas americanas. Infelizmente, muito da música pop norte-americana estourou quando um performer branco estava na linha de frente, algo que se repetiria com Elvis Presley anos depois.

Goodman era um excelente clarinetista, e soube como extrair a criatividade do que rolava de melhor no jazz naquele momento.

Além disso, não se deve esquecer a importância de Goodman em tornar acessível o mix racial nas big bands de jazz, por mais controversas que as histórias ressoem décadas depois.

Ele foi a ponte para que o swing se tornasse o que o rock representou 30 anos depois.

Não à toa, o empresário George Wein, responsável por criar os primeiros festivais de jazz, chamou Benny Goodman de “Beatles de sua era”. Afinal, “ele foi a figura mais popular na história do jazz a alcançar um público que não era do jazz”.

Leia também: Como Stan Kenton mudou o som das orquestras no pós-guerra em Innovations in Modern Music (1950)

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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