Representatividade LGBT: Gê de Lima fala sobre o clipe “Acaso”

“O clipe fala de afetividade, independente de orientação, gênero ou padrão de relacionamento”, disse o cantor e compositor

Conhecido nos arredores de bairros como Jd. Castro Alves e Grajaú, na capital paulista, por suas apresentações como intérprete, Gê de Lima decidiu que tinha que compor.

Ele lançou disco homônimo, mas sua visibilidade aumentou quando veio o clipe de “Fotografia”. Com a colaboração de fãs e ouvintes, que enviaram suas fotos, vê-se o desenrolar de um encontro de um casal gay.

O protagonismo de Gê de Lima foi importante. “Depois que comecei a me mostrar de verdade, o retorno foi imediato”. Assim, conseguiu agendar mais apresentações e criou até mesmo proximidade com outro artista que saiu do Grajaú para os palcos brasileiros: Criolo.

Mas, em tempos onde tudo acontece e se desvanece tão rápido, é preciso sempre ter uma novidade na manga. Por isso mesmo, Gê de Lima acaba de lançar outro clipe, “Acaso”, para reforçar seu vínculo com a comunidade LGBT. “O clipe fala de afetividade, independente de orientação, gênero ou padrão de relacionamento”, disse Gê ao Na Mira.

Lançado somente como single, a canção foi masterizada por Ygor Becyk. Para o clipe, roteirizado pelo próprio Gê e dirigido por Leo Carter – o mesmo de “Fotografia” – ele conta que fez uma seleção de atores pelas redes sociais.

O elenco é composto por Isaquiel Winchester, Shirley Rosa, Mellanie Reis, Chris Gomes e Victor Rodrigues, além do próprio Gê.

“Não tivemos nenhum apoio financeiro. A realização deste vídeo é devido à união e à força de vontade de todos”, disse o cantor e compositor.

Confira a entrevista completa:

Como rolou a ideia de gravar este novo clipe?

Primeiro veio a música. Minha inspiração para compor veio de momentos que vivi em uma fase da minha vida. Sabe quando você encontra uma pessoa e rola tudo tão especial? Aí cada um vai pro seu lado viver a sua vida corrida e, quando menos espera, você a reencontra na rua e revive o momento como se fosse a primeira vez? Esse é o acaso a que me refiro!

A música foi gravada à capela e ficou guardada um tempo, até o dia que o produtor musical Hadisui me convidou para uma parceria. Ele disse que gostaria de produzir uma música comigo e então sugeri que fosse “Acaso”.

Mandei pra ele a gravação só com a voz, e em mais ou menos 15 minutos ele me respondeu já com a base. Fiquei chocado com a rapidez e me apeguei de cara com o beat que ele criou!

Simples, sexy, bonita, captou perfeitamente a essência da música. Ajustamos os detalhes e fechamos a mix e a masterização com Ygor Becyk.

Decidimos então que seria melhor pra divulgação fazer um videoclipe, teria mais impacto.

Sem apoio financeiro, minha ideia foi de fazer um clipe simples, numa só locação para minimizar o trabalho. Conseguimos uma parceria de filmagem com o amigo Claudinho Irennio [autor das fotos que ilustram este texto]. Eu mesmo fiz o roteiro, coloquei no papel cenas de casais se amando e trocando carícias nesse encontro por acaso.

Depois fomos à escolha dos atores e atrizes para interpretarem esses papéis. Com a ajuda do Facebook, encontrei candidatos. Fiz questão de manter o protagonismo do clipe totalmente negro, devido à falta de representatividade nas produções audiovisuais. Também incluí no roteiro a representatividade LGBT.

O clipe fala de afetividade, independente de orientação, gênero ou padrão de relacionamento. Fala do acaso.

Não tivemos nenhum apoio financeiro. A realização deste vídeo é devido à união e à força de vontade de todos. Juntos, nós fazemos a revolução! “Acaso” é uma produção totalmente negra e periférica, da música ao vídeo. Sou muito grato a todos envolvidos. Fico feliz e orgulhoso, nosso clipe ficou lindo!

Bom, vendo você falando dos clipes, e de como acredita que eles têm potencial para fortalecer sua obra musical, você pensa em trabalhar em um clipe com mais recursos lá pra frente?

Tenho muita vontade de fazer superproduções, ideias não me faltam. Inclusive, já estou pensando nos próximos. A ideia é caminhar rumo a isso, vou produzindo conforme as minhas condições, mas também acredito muito no potencial da simplicidade.

Atualmente, nomes como Liniker e Pabllo Vittar têm mostrado que a música LGBT é mais abrangente do que se pensava. Você se vê em uma direção distinta? Como acha que sua obra caminha atualmente nesse cenário?

Sinto que o público LGBT vem crescendo cada vez mais, assim como o público negro. Depois que me tornei compositor, percebi a aproximação das pessoas por identificação. Para mim, tudo isso ainda é uma descoberta.

Quanto a mim, Liniker e Pabllo possuem linguagens diferentes, mas todos nós temos em comum a representatividade LGBT.

E você sentiu essa proximidade depois do lançamento do clipe “Fotografia”?

Muito! Depois que comecei a me mostrar de verdade o retorno foi imediato.

Recentemente houve um caso lamentável em que grupos conservadores, incluindo o MBL, pressionaram para que uma exposição de arte queer fosse cancelada em Porto Alegre. Acha que ainda existe um longo caminho na discussão sobre LGBT? Como você vê o Brasil, como um todo, dentro desse debate?

Acho! Esse ano faço 30 anos e a minha geração ainda é muito conservadora e tem muita coisa pra entender, reaprender. Eu acredito muito na força da nova geração, mas até ela chegar nos espaços de poder será um processo muito difícil.

Nossa política está mumificada e isso faz com que a desconstrução do Brasil quanto às questões LGBTs, raciais e do machismo caminhem a passos de tartaruga.

Você acha que a música tem o poder de unificar uma nação tão dividida quanto a nossa?

A música é muito poderosa, mexe com a gente, é espiritual. É usada até em tratamentos, é onde a gente também se expressa, se comunica, se informa, protesta. Mas o mercado não é justo quanto aos gêneros musicais.

A música não chega de forma equilibrada para as pessoas. Na grande maioria das vezes, é o dinheiro que determina o que vai ser cantado na boca do povo. Isso atrapalha o conhecimento e a conscientização através da música.

E o próximo disco: já tem alguma previsão, ou algum direcionamento? Acha que deve seguir uma linha bem diferente em comparação ao álbum de estreia?

Já selecionei as músicas para o próximo disco. Será um disco mais político, mais elaborado. Mas, para esse trabalho se tornar real, precisamos de apoio. Estamos em busca de patrocínio e de parcerias para realizar mais esse sonho.

Artistas Gê de Lima

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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