Entrevista: Barulhista fala sobre Desfiado, seu álbum mais ‘literário’

“O que faço é cozinhar cenas, com os melhores ingredientes que tenho e com um único tempero: a sinceridade”, disse o músico

Barulhista, projeto do mineiro Davidson Soares, é focado em composições sensoriais.

Em sua página no BandCamp, já chegou a classificar como “música para dançar sentado”, e isso faz todo sentido: elas são lúgubres, cristalinas, divagam, rodeiam o ambient, vão de encontro ao noise, usam recursos repetitivos da eletrônica.

A ideia, como ele contou em entrevista via e-mail ao Na Mira, é “desfazer os pedacinhos de alguns momentos e organizá-los em ruídos, melodias, ritmos e harmonias”.

O Barulhista lançou em 22 de julho deste ano seu 13º disco, Desfiado, pelo selo Fluxxx.

Segundo o texto de divulgação, o trabalho é “exemplo de técnica e sensibilidade, reunindo composições que são conduzidas pelo fio da temporalidade, em uma construção que lentamente revela nuances e desdobra-se do melancólico ao sublime”. Realmente, uma viagem [ouça no player abaixo].

Para entender mais sobre a ‘obra literária’ do Barulhista, confira a entrevista:

Percebi algumas melodias mais lúdicas nesse trabalho. Foi intencional? Qual a proposta por trás de Desfiado?
Não me lembro de ter premeditado melodias mais lúdicas nesse disco. De fato elas estão lá, assim como novos timbres e uma estrutura pronta para ser desfiada pelo ouvinte. O disco é, como todos os outros, uma obra literária. São trilhas sonoras para acontecimentos de todo tamanho: desfazer os pedacinhos de alguns momentos e organizá-los em ruídos, melodias, ritmos e harmonias.

Quem é o cara de barba na capa?
A capa foi produzida pelo amigo-irmão Nando Motta. Deixei-o livre com o disco na orelha e ele me devolveu essa imagem de um afegão com longos pelos no rosto.

Nas palavras dele: “Um fio de barba demora mais ou menos um ano para crescer 5cm, essa barba tem muitos anos. Uma barba com tempo ou um tempo de barba. Uma barba de história. Suas músicas contam histórias.”

Desfiado é um álbum sobre o tempo, o grande deus da música.

Desde sempre percebo que existe uma relação sensorial no seu trabalho, mas me parece que a dinâmica ‘causa-efeito’ aplica-se mais em Desfiado. É verdade? Que percepções tinha em mente ao concebê-lo?
Um dos maiores prazeres que tenho é o de construir música, sugerir ao ouvinte uma construção autônoma, ou mesmo que ele se divirta (sem se entreter) vendo as peças sendo montadas no seu ouvido.

Já me disseram que faço música simples com títulos complicados. Penso que nossa escuta tem sido habitada por produtores muito perversos, que escolhem caminhos já conhecidos para que o conforto nos coloque num sofá ou numa pista de dança seguindo o mesmo padrão. (E olha que eu adoro o que esses perversos fazem, mas há mais barulho no mundo além do que conhecemos.)

O que faço é cozinhar cenas, com os melhores ingredientes que tenho e com um único tempero: a sinceridade. Ela faz todo mundo entender o que está acontecendo – assim como no futebol. [O poeta e publicitário] Décio Pignatari dizia: “O futebol é uma arte que todo mundo entende”.

Que instrumentos utilizou para o disco?
Pela primeira vez: guitarra e violão. E, como sempre: computador, objetos e gravadores.

No release você disse que as 10 faixas “contam uma história sobre o movimento do tempo”. Pode nos explicar melhor? De que jeito essa história é contada?
O disco começa com uma faixa chamada “Trança”, no meio temos “Mãos na Lateral da Estrutura” e, por fim, “Música para Adultos”. Só aí já tem muito material pro ouvinte desfiar sua própria interpretação.

A história é contada através de memórias sonoras. Há timbres que percorrem todo o disco; não tem manual de instruções, é uma escuta livre. Eu poderia explicar melhor e deixar claro o caminho das pedras, mas foi uma luta danada desfiar isso tudo – a graça está em entrelaçar isso tudo no seu ouvido.

Dá trabalho, mas o que é fácil nessa vida, né?


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Artistas Barulhista

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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