O músico e guitarrista André Sampaio, ex-Ponto de Equilíbrio

Entrevista: André Sampaio (ex-Ponto de Equilíbrio) fala sobre o disco Alagbe

Guitarrista viajou para três países africanos e propôs uma linguagem que busca compreensão histórico-musical

Você já ouviu falar de afro-rock? Basicamente, trata-se de uma variante da música africana com a guitarra como instrumento principal.

Não se trata bem de um gênero, mas uma caracterização estética que traz influências do afro-beat, da música caribenha e, claro, do terreiro candomblé.

Em seu primeiro álbum solo, o guitarrista André Sampaio que, após fazer carreira junto à conhecida banda de reggae Ponto de Equilíbrio, lançou disco com o grupo Os Afromandinga – Desaguou, em 2013 – retorna ainda mais imerso de uma viagem que fez a três países do continente africano, em 2012.

Seu novo álbum, Alagbe, faz reverência ao guardião da música sagrada do candomblé, Ogan Alagbe. “Sinto que é o disco em que minhas vivências com a capoeira angola, o candomblé e uma aproximação mais recente com o coco e o samba-de-roda se encontram com a bagagem que acumulei nas viagens e experiências na África, e nas trocas com músicos de lá”, disse Sampaio em entrevista ao Na Mira.

Ele conta como foi a experiência de conhecer a família do ídolo Ali Farka Touré, que faleceu em 2006, e como decidiu seguir uma nova experiência artística e musical após conhecer países como Mali, Moçambique e Burkina Faso.

Sobre o novo trabalho, afirma: “É um disco muito da experiência de contar essas histórias na busca de nos compreendermos e também de construirmos soluções para as questões de nosso tempo”.

Capa do álbum Alagbe, de André Sampaio, lançado em 2017

Você viajou para países como Mali, Moçambique e Burkina Faso para buscar mais referências musicais. Em 2013, você lançou Desaguou, que tinha uma veia mais de afro-beat. Seu novo trabalho, porém, parece buscar uma raiz mais original, brasileira mesmo. O que mudou de um disco pro outro?

O novo disco reflete o momento que eu vivo e também o amadurecimento dessas influências todas na minha música. É sobretudo quando se consolida em mim o alagbe guitarrista, que constrói pontes entre sonoridades africanas e da diáspora, das “Áfricas” brasileiras, ancestralidades e contemporaneidades daqui e de lá.

Sinto que é o disco em que minhas vivências com a capoeira angola, o candomblé e uma aproximação mais recente com o coco e o samba-de-roda se encontram com a bagagem que acumulei nas viagens e experiências na África, e nas trocas com músicos de lá.

Também é o primeiro disco que gravo totalmente focado no meu trabalho solo, e com o Cris Scabello (guitarrista do Bixiga 70) assinando a produção junto comigo. Esses dois pontos são chave, pois se em Desaguou eu expresso o encantamento e reconhecimento dessas musicalidades de matriz africana em mim, já em Alagbe a fusão delas com minha identidade musical pode ser ouvida de forma mais madura, coisa de tempo para absorver mesmo, sabe?

Já ter o Cris produzindo e gravando no Estúdio Traquitana, com aquela sonoridade super especial de lá, foi essencial para ter uma segurança e uma segunda opinião de um guitarrista que respeito tanto, além de um grande amigo. O som que ele tirou de guitarra, bateria, baixo… A forma como me ajudou a tirar o melhor de mim como cantor, guitarrista e compositor e, principalmente, a força que me deu de investir na estética afro-rock, deixando a guitarra em primeiro plano nos instrumentais e abrindo mão de naipes de metais em todo o disco, foi algo que eu não tinha visto ainda nos discos de música afrocontemporânea por aqui.

Outra mudança está na distribuição. Você teve que fazer crowdfunding para lançar o disco anterior, enquanto Alagbe já conta com distribuição da Sony. Isso exigiu que você adotasse uma estética mais abrangente, mais pop?

Na verdade a distribuição foi fechada com o disco já pronto, então ela não influenciou no processo de produção e composição do disco. Acho que no primeiro disco tem mais espaços, mais essa temporalidade da savana, dos rios de Burkina, Mali e Moçambique e que remete também às músicas de tempo prolongado de Fela Kuti e do afro-beat clássico.

Hoje até os filhos dele [como Femi e Seun Kuti] gravam músicas de 4 ou 5 minutos, mas que estão mais sintéticas e potentes.

Como é o primeiro disco que lanço totalmente solo, senti essa vontade de ter músicas mais enxutas e potentes, mas mantendo dinâmicas e ambientes. Mais uma vez a produção do Cris e a mixagem do Victor Rice foram fundamentais para chegarmos nesse resultado, e deixo os climas de 10 minutos pros shows e lançamentos entre os discos.

André Sampaio: foto de divulgação do álbum Alagbe

Após o sucesso com o Ponto de Equilíbrio, você disse que estava em busca de outras formas de compor e pensar música. A experiência, claro, foi positiva, como você mesmo conta em algumas canções do disco. Mas qual foi a maior mudança, o que distingue o André antes da viagem à África e o André pós-viagem à África?

Ainda no Ponto fiz esses mergulhos na África e nasceu dessas viagens e das minhas vivências com o candomblé e capoeira angola aqui no Brasil – um híbrido que se tornou meu trabalho solo.

Essa identidade se tornou mais consciente ao ser confirmado (iniciado) Ogan Alagbe na casa de Mãe Beata de Iyemanjá, minha eterna mestra que hoje descansa com seus ancestrais. Quando fui a esses lugares, na África, essa herança e aprendizado de nossas ancestralidades daqui me abriram muitos caminhos e ajudaram a trazer para a consciência a missão que é lidar com essa música.

Acredito que sempre me envolvi com música por esse viés, mas após mergulhar e reconhecer em ancestralidades profundas na África. E aqui, em nossas “Áfricas” que resistem, me conheço e entendo muito melhor a função e responsabilidade que tenho. E como uma pessoa não-negra, como o ‘eu’ se relaciona com isso, tudo de maneira a ser um parceiro, vejo como alguém que tá aqui pra colaborar na construção dessas pontes entre vozes e lugares.

Por isso o nome do disco, a função do Ogan e, principalmente, do Alagbê é estabelecer essas conexões. É uma compreensão muito mais da vivência e do sutil do que algo racional ou intelectual, mas é interessante pensar sobre isso.

O mais engraçado é que hoje me sinto muito mais leve e descontraído, sobretudo no palco, apesar de toda essa responsabilidade e do momento que atravessamos no país e no mundo. Acredito que é uma consequência desse processo de autoconhecimento e também de tanta convivência com gente que, com todos os problemas do mundo, mantém uma vibração altamente positiva. Com certeza é esse o axé que me mantém vivo e me impulsiona a ir adiante.

Você disse ser muito fã do Ali Farka Touré, e que ficou emocionado de conhecer a casa dele. Por que toda essa reverência a ele? Conta como foi esse momento.

Sim, pra mim Ali Farka foi o maior guitarrista da África moderna e teve um papel fundamental nessa mudança de direção da minha música.

A forma como ele combinava os diversos estilos e línguas do Mali, com o blues do Mississipi de John Lee Hooker, revolucionou o que eu buscava enquanto referência musical. Era artista enorme, muito generoso que abriu as portas do mercado internacional da world-music para outros grandes nomes, como Toumani Diabaté, Bassekou Kouyate e, ao mesmo tempo, abriu mão das turnês mundiais para voltar à sua terra natal e estabelecer um sistema de irrigação e agricultura que é mantido até hoje por sua família, numa área praticamente dentro do deserto e que gera alimento e prosperidade a todo seu vilarejo de Nyafunke (que homenageio em música do primeiro álbum).

Era uma grande alma e um homem simples, que rompeu os tabus de ser de uma família de nobres agricultores e se tornou um dos maiores nomes africanos na música mundial, mas sem nunca deixar sua espiritualidade e seu povo.

É minha grande influência na guitarra ao lado de [Jimi] Hendrix, Santana, [Jimmy] Page e Ernest Ranglin (da Jamaica). Absorvi muita coisa das suas fusões, muito mais no sentido do feeling e da forma da guitarra se colocar na música do que ficar esmiuçando os detalhes de sua técnica, apesar de ter aprendido muito com ela.

Quando fui ao Mali, em 2012, ele já havia falecido, mas pude conhecer pessoalmente seu filho, o também grande Vieux Farka Touré, que me recebeu na casa que herdou do pai em Bamako, capital do país. Desse encontro, nasceu a música “Desaguou”, que compomos juntos em estúdio e deu nome ao meu primeiro disco, e também uma amizade que mantemos e trocamos bastante, apesar da vida de turnês e shows.

É realmente uma grande honra e emoção aprender e fazer música com esse tipo especial de artista e ser reconhecido por seus mestres e ídolos. Quando Vieux ouviu umas faixas minhas tocando guitarra, realmente se mostrou impressionado, o que mostra o quão generosos e sinceros são os grandes mestres dignos desse nome. Nem em sonhos podia imaginar o tanto que vivi nesses dias.

Ultimamente o Brasil tem sido palco de muitos grupos influenciados pela música africana, como Abayomy, BNegão, Orquestra Voadora, entre outros. Como o seu novo disco se diferencia nesse meio?

Acho muito boa essa retomada do interesse no que se faz em música africana por artistas daqui. Além da internet, muitos festivais têm trazido artistas da África e da diáspora que têm em comum essa linguagem afro-contemporânea (que vai bem além do afro-beat de Fela) ao Brasil. Isso tem gerado encontros e uma diversidade interessante de novos produtos artísticos desses fluxos e refluxos da diáspora.

Acredito que meu disco traz um elemento fundamental que se diferencia do que tem sido feito, que é a guitarra assumir esse papel central no instrumental, ao invés do naipe de metais. Além de propor fusões entre africanidades e brasilidades contemporâneas e ancestrais, é um disco muito da experiência de contar essas histórias na busca de nos compreendermos e também de construirmos soluções para as questões de nosso tempo.

E também tem muitos elementos dub e modernos, junto à visceralidade e aos timbres orgânicos e vintage. É como nós, ogans, zeladores e artistas nos mantemos atuais e defendemos a sobrevivência de nossas tradições.

Um disco pra dançar, mas também que propõe reconectar e abrir portas de consciência. Mandinga rock, psicodelismo, dub e terreiro. Tudo junto com muito axé e verdade.

Artistas André Sampaio

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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