O grupo britânico Hookworms lança em 2018 seu terceiro disco: Microshift

Hookworms dá aula primorosa de space-rock em Microshift

O aprendizado de vários perrengues fez com que a banda de Leeds atingisse a originalidade em 3º disco

Gravadora: Domino
Data de Lançamento: 2 de fevereiro de 2018

Disco da Semana: Hookworms, Microshift

Quando o Hookworms lançou seu primeiro disco, Pearl Mystic (2013), parece que finalmente o space-rock de Spiritualized tinha ganhado um expoente à altura. Veio The Hum (2014), as expectativas baixaram, mas agora com Microshift a banda de Leeds (Reino Unido) deu um tom mais versátil à sua proposta musical.

Mas, para o Hookworms finalmente se distinguir em meio a um emaranhado de bandas ótimas – incluindo Wooden Shjips e Moon Duo – alguns perrengues vieram somar às influências musicais do grupo.

Microshift: tretas até o 3º disco

Em 2015, quando a banda se animava para um 3º disco, uma inundação no estúdio acabou comprometendo não só boa parte do catálogo da banda, como alguns materiais que os integrantes queriam gravar.

Essa foi a cereja do bolo de muitas marés de azar, que incluem equipamentos quebrados durante as primeiras turnês e a perda do principal engenheiro de som da banda, pouco tempo depois de The Hum.

“Assim que ele faleceu, eu estava em um supermercado e o vi”, contou Matthew MJ Johnson, vocalista da banda, ao jornal britânico The Guardian. “Então, você percebe que não é aquela pessoa”.

O engenheiro chegou a ouvir a primeira faixa do disco, “Negative Space”, e gostou do resultado. Sua estrutura que parece unir trip hop, jungle e sons vocais percussivos a um tipo de rock tribal não só ganhou a bênção, como tornou-se uma meta a perseguir para o próximo trabalho.

A música fala justamente da dor – seja da dor da perda de alguém, ou simplesmente uma dor injustificada: ‘Se você deseja futuros melhores/Vamos tentar seguir em frente’.

Johnson disse que a canção também manifesta um problema que ele lida desde a adolescência: depressão crônica. “Todas as minhas músicas são sobre saúde mental”, disse MJ.

E, quando o vocalista fala em ‘saúde’, é exatamente no aspecto positivo. Por isso, em “Static Resistance”, ele decide enfrentar o tédio: ‘Não há nada errado em ser frágil na vida’, confessa o vocalista, contornado por um speed da guitarra de Sam “SS” Shjipstone que a torna uma ótima canção para ouvir na estrada.

Capa de Microshift, 3º disco do Hookworms

Hookworms e a reflexão sobre a atualidade

Microshift é um álbum que não distingue rock, eletrônica, psicodelia e avant-garde. Sua originalidade, porém, vai além de fronteiras estéticas.

Surtos explosivos nos refrões e riffs carregados não raro perdem espaço para a saturação eletrônica, até que tudo entra nos eixos e, no fim, fica a impressão de que cada uma das 9 músicas do disco tem seu próprio peso catártico.

“The Soft Season” inicia lenta, mas acaba pegando o ouvinte quando as estranhezas sonoras tomam conta da canção, transfigurando-a num prog-rock acenando para o cool-jazz.

“Reunion”, a mais curta do disco, se assemelha àquele momento de passeio no lago, para refrescar as ideias – sensação muito bem captada pelo solo distanciado de saxofone. Ela dá entrada para a última faixa do disco, “Shortcomings”, a que tem mais cara de indie-rock, que clama pela desconexão após dizer que ‘ultimamente, amor soa algo cínico’.

A melhor música do disco, “Opener”, é também a mais longa. O grupo se arrisca ao falar que, como homens, todos falharam – principalmente em um momento em que se discute o feminismo na sociedade. Épica desde o início, com a integração da bateria de Jonathan JN Nash e as guitarras de SS, a canção é um exercício sobre como ser um homem melhor, mais compreensivo, mas sem soar piegas. Fala dos perigos de abordagem – ‘É difícil encontrar uma palavra melhor, ou você pode castigar suas falhas’ – e sobre assumir os erros de desrespeitar as mulheres: ‘Pressione-os até que estejam escondidos do mundo’, aconselha MJ a elas.

“Opener” é um dos exemplos mais bem-sucedidos de como a energia do rock pode ser catalisada para refletir sobre os problemas atuais.

O Hookworms quis expressar a forma com que absorve a complexidade do mundo com uma variedade estética que prova mais que a capacidade dos integrantes de serem bons músicos.

Na real, Microshift revela os esforços da banda em aprender e evoluir com tudo que está a nossa volta.

Leia também: Crítica de Pearl Mystic (2013), disco de estreia do Hookworms

Outros lançamentos relevantes:

The James Hunter Six: Whatever It Takes (Daptone)
Giant Gutter From Outer Space: Charred Memories (Sinewave)
Aminoácido: Sem Açúcar (Tapete Voador)
Julian Lage: Modern Lore (Mack Avenue)

Artistas Hookworms

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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