Jazz e world-music são a mesma coisa para o Buku Broux

Electric Life é o 5º registro do grupo de Nova Orleans liderado por tocador de kora

Gravadora: Grass Roots
Data de Lançamento:
14 de janeiro de 2017

Quase um século depois de conquistar o mundo com suas origens do jazz, a música de rua de Nova Orleans continua a surpreender com sua expressividade e, principalmente, conexão com o que rola no mundo.

O Buku Broux é um desses exemplos. Liderado por Jonah Tobias, tocador de kora, instrumento bastante conhecido na música do Mali, o grupo faz uma fusão do jazz com ritmos africanos mais puxados pro lado do Oriente.

Em Electric Life, 5º trabalho do grupo, o legal é observar como o instrumento instiga a experiência jazzística. Numa primeira audição, parece que estamos na África sub-saariana, um misto de Tinariwen com Toumani Diabaté. A diferença é que Tobias usa pedais, permitindo um aspecto mais expressivo e, claro, eletrificado do instrumento.

A música é ancorada numa harmonia paisagística, cuja beleza ganha diversos tons de cores pelos solos de sax-alto de Phillip Sylve e passagens de um tipo de harpa africana, tocada por Tobias.

Para este registro, ele também adicionou o violino de Adrian Jusdanis, com notas ora rasgadas, ora melancólicas.

Um dos melhores exemplos de como essa confluência funciona está em “Down the Rabbit Hole”, em que a alternância kora-violino instiga uma fusão espiritualista, com um som com alta carga de energia e, ao mesmo tempo, alta carga de paz. As entradas de cada instrumentista buscam esse equilíbrio, ainda que a intensidade seja seu grande atrativo.

“Epic” tem uma passagem mais melancólica, como se estivesse recobrando um antepassado de sofrimento, enquanto “Lightning Strikes” coloca o grupo no mesmo rol de influências de Shabaka & The Ancestors, que também conectou as raízes afro-americanas do gênero à África.

A percussão do Buku Broux é um elemento crucial, e a forma com que ela se entremeia aos ritmos da kora e aos solos de sax e violino nos lembra trabalho de feras como Airto Moreira e Mauro Refosco. Quem assume o instrumento é o brasileiro Fernando Lima, que também toca bateria. “O Fernando tem um estilo distinto de tocar e ele sempre tá cheio de tantas ideias boas, das ranhuras de pratos aos tons mais inflados, onde ele usa a direção e o tipo certo de baquetas”, descreveu Tobias à revista The Guitar. “Ele é uma máquina de criatividade”.

O multiculturalismo do grupo tem mais a ver com world-music do que jazz em si. Mas a real é que o jazz é música do mundo, não é verdade? Ter Nova Orleans como ponto de partida é mais que salutar para o Buku Broux, mais preocupado com a essência do que separação de catálogo.

Outros lançamentos relevantes:

John Abercrombie Quartet: Up and Coming (ECM)
Colin Vallon Trio: Dense (ECM)
The xx: I See You (Young Turks)
Bonobo: Migration (Ninja Tune)


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Artistas Buku Broux

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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