O trem de SZA passa por rap, trip hop e R&B até atingir a emoção

Estreia da cantora de “Consideration” (com Rihanna) chega pra somar em ótimo momento para cantoras pop

Gravadora: Top Dawg Entertainment/RCA
Data de Lançamento: 9 de junho de 2017

Disco da Semana: SZA, Ctrl

Quem era SZA antes do dueto “Consideration”, que abre o disco mais recente de Rihanna?

A jovem cantora de 26 anos nasceu em St. Louis (Missouri, EUA) e cresceu na cidade de Mapplewood (New Jersey). Ela teve uma infância e adolescência bem-sucedida: seu pai, muçulmano, era produtor-executivo na emissora CNN, enquanto sua mãe, cristã, tinha um bom cargo na empresa de telefonia AT&T.

SZA foi educada por meio do islã ortodoxo e chegou a sofrer bullying na escola onde estudava após os ataques de 11 de setembro.

Seus pais a levaram para estudar artes liberais e, anos mais tarde, começaram a pagar o curso de biologia marinha.

No início da vida adulta, Solána Rowe concluiu que queria ser cantora. Em 2011, fechou contrato com a Top Dawg Entertainment (T.D.E.), a mesma de Kendrick Lamar. Por lá, lançou 3 EPs: See.SZA.Run, em 2012, S (de 2013, com destaque para “Aftermath”) e Z (2014), que mostrou um flerte do R&B lento com a eletrônica – e duas parcerias valiosas: Chance The Rapper (“Childs Play”) e Kendrick (na seca “Babylon”).

Em “Babylon”, SZA trilhou uma linha psicodélica meio flutuante, ensaiando uma abordagem anti-diva dilatante. Na época, ela disse que Kendrick tinha adorado a batida – algo que, pra ela, pareceu aleatório. A parceria tem um quê de downtempo sexy, e essa dinâmica é retomada na nova parceria com Kendrick, “Doves in the Wind”, lançada um dia antes do álbum Ctrl finalmente chegar aos ouvintes.

Contrato com RCA

Antes dela participar em ANTI (2016), SZA já estava bem adiantada com o que seria o álbum de estreia.

A ideia era que o disco fosse lançado ainda no ano passado – tanto que em outubro a cantora disse “eu desisto”, dizendo que o copresidente da T.D.E., Punch, poderia soltar o disco dela se quisesse.

A promessa para o que seria A (natural depois de dois EPs que se chamavam S e Z) foi para fevereiro, mas só viu a luz do dia agora, com Ctrl, depois de firmada uma parceria da T.D.E. com a major RCA.

“Finalmente não sou mais órfã”, tuitou a cantora após a parceria.

Firmeza emocional

Comparado aos EPs anteriores, Ctrl marca uma grande diferença. Nele, SZA fortificou a tonalidade vocal. A levada de R&B lento é preponderante, mas sua presença causa mais impacto.

Em “Supermodel”, ela inicia com versos de rap sobre cordas soltas. A produção de Antydote (o mesmo de “Complexion (A Zulu Love)”, de To Pimp a Butterfly) funciona porque coloca SZA numa espécie de módulo contínuo de controle temperamental.

O single “Drew Barrymore” mostra seu timbre vocal se aproximando daquilo que realmente deu certo em “Consideration”: a firmeza emocional. SZA traça um duelo consigo própria em uma canção que reflete baixa autoestima: ‘Me desculpe, não sou mais atraente/Me desculpe, não sou mais uma mocinha’, repete o que parece ser parte de sua consciência. ‘Eu estava tão envergonhada de mim mesma dizendo que precisava de terapia-a-a-a’.

Quando falo em firmeza emocional me refiro à resolução da própria SZA: ela não quer desistir. Mesmo dando breves pitadas do que caracterizariam o fim de um relacionamento (não se sente mais bonita? Uma nova garota apareceu?), a cantora tenta provar para si mesma que é possível recuperar a autoestima. Se isso tem ou não a ver com a reação do parceiro, só cabe a ela dimensionar.

A base que sustenta “Prom” é outro acerto dos grandes da cantora. Numa ponte entre Sia e Dawn Richard, SZA encontra um terreno entre o R&B e eletrônica, num escopo musical que não ficaria estranho num som do How To Dress Well.

Voz multiestilística

SZA tem livre trânsito entre hip hop, eletrônica e R&B. Seu sotaque musical também flerta com o ragga, e a forma com que ela explora todas essas vertentes em Ctrl faz dela uma cantora pop megacompleta.

Nas colaborações com Travis Scott e Kendrick (“Love Galore” e “Doves in the Wind”), sua voz se sobrepõe às batidas numa linguagem própria.

Em “Go Gina” é traçado um caminho nostálgico rumo ao passado, prova de que o hip hop também está associado a boas lembranças. A seguinte, “Garden (Say It Like Dat)”, é um trip hop, não somente pelas batidas, mas pela letra: ‘Porque você nunca vai me amar, você nunca vai me amar, você nunca vai me amar’. É SZA nos vocais, mas poderia ser Beth Gibbons, embora se trate de cantoras com características bem diferentes.

Uma única audição de Ctrl convence o ouvinte da forte veia pop de SZA, cantora que dá às emoções a projeção que elas merecem.

Canções que parecem clichês de desilusões amorosas se tornam grandiosas em sua voz. Dificilmente o álbum apresente um hit imediato, mas a grandeza de cada canção sobrevive, convence e cativa na hora.

Tracklist:

01 Supermodel
02 Love Galore (ft. Travis Scott)
03 Doves in the Wind (ft. Kendrick Lamar)
04 Drew Barrymore
05 Prom
06 The Weekend
07 Go Gina
08 Garden (Say It Like Dat)
09 Broken Clocks
10 Anything
11 Wavy (Interlude) (ft. James Fauntleroy)
12 Normal Girl
13 Pretty Little Birds (ft. Isaiah Rashad)
14 20 Something

Outros lançamentos relevantes:

Chuck Berry: Chuck (Dualtone Music)
Ambrose Akinmusire: A Rift in Decorum: Live at the Village Vanguard (Blue Note)
Big Thief: Capacity (Saddle Creek Records)
Jack DeJohnette / Larry Grenadier / John Medeski / John Scofield: Hudson (Motéma Music)
Ahmad Jamal: Marseille (Jazz Village)

Artistas SZA

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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