RZO de volta e à frente do tempo

Pirituba ficou pequena para as pretensões globalizadas que marcam o retorno de um dos grupos de rap mais importantes do país

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 2 de junho de 2017

Disco da Semana: RZO, Quem Tá no Jogo

Quem Tá no Jogo marca o retorno de um dos grupos de rap mais importantes do país

Com Quem Tá no Jogo, o RZO chega ao seu 3º disco. Dizendo assim, nem parece que estamos falando de um dos grupos de rap mais importantes dos anos 1990. Isso é porque sua influência foi maior por trás dos bastidores: antes da estreia, com Todos São Manos (1999), o grupo liderado por Sandrão e Helião abriu as portas para diversos nomes da cena nacional, como Negra Li, Dina Di e Sabotage, só para citar alguns poucos.

Numa entrevista ao Noisey, em 2015, o editor da revista RAP Brasil (que circulou entre 1999-2009), Alexandre De Maio, foi bem objetivo: “RZO, depois d’Os Racionais, era o grupo de rap mais importante do Brasil”.

Por isso mesmo, quando o grupo anunciou rompimento, em 2004, o mundo do rap ficou estremecido. O grupo tinha acabado de lançar Evolução é Uma Coisa (2002), prova de que estava atento ao que o futuro poderia contribuir nas periferias.

O grupo voltou em 2014 e a cena musical do rap passou por incontáveis transformações, mas algumas coisas não mudaram. Pelo menos, não para o RZO.

Extremidade sonora

Quando “Paz em Meio ao Caos” foi lançada como single, com participação do grupo de rap Bone Thugs N Harmony e backings de Negra Li, uma coisa ficou bem clara: o RZO estava em busca de uma mensagem globalizada.

A integração com o rap gringo mostrou que Pirituba já não era mais o epicentro de suas rimas.

O aceno com o discurso globalizado já tinha dado seus primeiros passos em Evolução é Uma Coisa (vide “Luta Cansativa”, onde Negra Li brilha), mas em Quem Tá no Jogo um detalhe deve ser enfatizado: as batidas são mais pluralistas, porque perderam o ar de melancolia para dar espaço a uma sonoridade mais aberta, com influência do som da gravadora Muscle Shoals (“Rap é Isso”, com participação de Rael) e do bom e velho N.W.A. (como em “Tráfico”, com participações de Nino Cobra e Lino Krizz).

A produção de DJ Cia fez com que a música do RZO estivesse antenada ao seu tempo – e, ao mesmo tempo, formasse uma distinção dos grandes nomes atuais. Sonicamente, o mais próximo que temos hoje de Quem Tá no Jogo seria um misto de Cores e Valores (2014), o disco póstumo de Sabotage e a ousadia de Ogi.

Entre guitarras alternadas com teclados ágeis, em “Orelhada”, à influência do rap de Atlanta em “Algo Me Tira do Foco”, DJ Cia ampliou os possíveis cenários das rimas de Helião e Sandrão – chegando a praticamente levá-los a outros extremos, como em “Revolta dos Humildes”, que faz uso de um som global ao falar sobre a violência generalizada em diversos bairros de São Paulo.

Jovens à frente do tempo

O RZO possui invejável habilidade como grupo mensageiro. Os integrantes sabem como dosar o peso ao falar da exclusão social (“Revolta dos Humildes”) e cobrar a participação da sociedade, como acontece em “Uma Multidão Rumo à Solidão”, com participação de Sombra.

Talvez por já ter sido lançada como single, “Jovens à Frente do Tempo” permanece como a grande marca da volta do RZO. O corre-corre do cotidiano e a dificuldade de morar na favela e se agarrar às oportunidades continuam sendo os grandes empecilhos de jovens que não tiveram as oportunidades daqueles que tiveram faculdade paga pelos pais.

Mesmo assim, o RZO se mantém otimista ao depositar o futuro na garotada que vive em meio a um contexto excludente. ‘Favela é um monstro dormindo’, canta Helião, numa acepção positiva do termo. Nesse sentido, a história do RZO não deixa de ser uma evidência.

Leia também: As 30 melhores músicas do rap nacional dos anos 1990

Outros lançamentos relevantes:

Roger Waters: Is This the Life We Really Want? (Columbia/Sony Music)
Benjamin Booker: Witness (ATO)
Omar Souleyman: To Syria with Love (Mad Decent)

Artistas R.Z.O.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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