Disco da Semana: Marcelle e a filosofia da incerteza

Segundo disco da cantora sergipana, Equivocada retoma parceria com Dustan Gallas (Cidadão Instigado)

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 10 de março de 2016

Equivocada é o segundo disco da cantora sergipana Marcelle, é o primeiro só com composições próprias.

O título, justifica ela, tem mais a ver com o posicionamento inerente ao ser humano: a possibilidade de se contradizer mesmo quando se está diante de suas maiores convicções ideológicas.

Em tempos de polarização política pra todo lado, Equivocada supõe que o meio-termo é uma condição que exige contato muito íntimo do ser com ele mesmo. “Sei Não” é um bom exemplo. Quando ela diz ‘eu não sei fazer poema/eu não sei mais o que falar‘, sob o som de guitarra que mais parece um mellotron (coisa de Dustan Gallas, que assume a produção), está assumindo que a incerteza é um traço que ela persegue em sua característica.

Na verdade, aqui a incerteza se trata é de filosofia mesmo.

As poucas palavras empregadas em “Se Renda” impõem uma reflexão sobre o que dizer e como desenvolver a ciência crítica em tempos em que as redes sociais (da vida real ao Facebook) se abalam com o simples choque de opiniões. ‘Não é normal esse seu medo de se arrepender‘, argumenta Marcelle, sustentando a ideia de que muitos preferem se prender ao que pensa do que mudar de opinião. Isso é normal nos dias de hoje, mas não deveria ser. Por isso o urro ao dizer ‘normaaaaalllllll‘.

Com participação de Arthur Braganti, “Mais Calma Eu Preciso de Um Tempo” tem um clima obscuro após um início flamejante. Ela fala de como a correria do dia a dia nos consome a tempo de não termos noção do que estamos fazendo em certos momentos.

“Um Brinde a Nada a Nós” é uma crítica a esse apego que temos com datas comemorativas. Sempre tem algo a se celebrar, dos tantos anos de morte de alguém a um acontecimento banal, como o “Caetano Veloso estaciona no Leblon”, que completou 6 anos dia desses. Seus arranjos densos de metais contrastam com o clima de rock obscuro das guitarras.

A identificação de Equivocada é mais perceptível no tema em geral que sua estética, e é bom que seja assim. Seu primeiro disco, One Oh 1, mostrava a cantora interpretando outros compositores, com músicas em inglês – a maioria delas composta por Gallas e Régis Damasceno, ambos do Cidadão Instigado. Aqui, ela revela mais a cara dela: uma compositora que prefere trilhar o difícil caminho do bom senso, antes de entregar certezas.

Outros lançamentos relevantes:

The Shins: Heartworms (Aural Apothecary/Columbia/Sony Music)
Shobaleader One: Elektrac (Warp)
Oddisee: The Iceberg (Mello Music Group)

Artistas Marcelle

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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