Disco da Semana: Löis Lancaster entre o microtonalismo e a dodecafonia

Ex-integrante de Zumbi do Mato estreia com o álbum Malva

Gravadora: Sê-lo Netlabel
Data de Lançamento: 10 de abril de 2017

Quando se fala em música dodecafônica no Brasil, os primeiros nomes que surgem são o paulista Arrigo Barnabé e a banda carioca Zumbi do Mato.

O carioca Löis Lancaster está ligado a essas duas vertentes: é ex-membro do Zumbi do Mato e, em carreira solo, estabeleceu um tipo de relação com Barnabé dos tempos de Clara Crocodilo (1980), principalmente na estrutura harmônica.

Mas, paremos por aí.

Mais afeitos a teclados psicodélicos, com vozes que parecem escapar dos poros de respiração, Lancaster se especializou num método de composição chamado microtonalismo, que parte de intervalos musicais menores que um semitom, considerado o menor intervalo da nossa música ocidental.

De King Crimson a Hitchcock

Agora pense nessas estruturas se encaixando em influências que vão do progressivo de King Crimson à narrativa de Noel Rosa.

Antes que saia fumaça de sua cabeça, dá pra se ter uma ideia disso ao ouvir o disco de estreia de Lancaster, Malva.

O disco é um tributo aos “trípticos” do artista Francis Bacon (1909-1992), que separava seus quadros em escalas de três imagens juntas. O filme “Os Pássaros” (1963), do diretor Alfred Hitchcock, e o momento em que o “gótico estava se iniciando” também dão o tom obscuro de Malva.

Vale lembrar que o obscuro tá mais pro ‘torto’ que pro sinistro.

A primeira faixa, “Aflição”, joga os teclados em um clima amplificado de tensão, com letras compostas por Estêvão Freixo.

“Nome Feito” começa cômico como os sons de Arrigo até se entregar a um tipo de sonoridade que parece ter efeito de gás hélio em suas vibrações. ‘Vamos que vamos, mas estou só’, diz o compositor. A idoneidade da canção é exemplo de que o ‘’ não se trata de sentido figurado.

Métricas irregulares

Uma das faixas mais sintomáticas do disco é “Ornitofrenia”, já revelada como single. O som percussivo se baseia em quebras tonais, enquanto o teclado segue uma linha melancólica e espacial. Ela foi composta com Felipe Zenícola (Chinese Cookie Poets) e incorpora “métricas irregulares e rebuscamento estrutural a um gosto tímbrico eletrônico nitidamente influenciado pela sonoridade dos anos 1980”, conforme diz o texto de divulgação.

Descrever Malva como oitentista é muito reducionista, mesmo porque os discos que miram esta década estão muito distantes da proposta estética apresentada por Lancaster. A não ser que você seja fã de um Einstürzende Neubauten, do kraut-rock ou se interesse pela escala Bohlen-Pierce… Aí sim, Malva fará muito mais sentido pra você.

Ouça no player abaixo (caso não consiga visualizar, visite o BandCamp do artista).

Outros lançamentos relevantes:

Kendrick Lamar: DAMN. (Aftermath/Interscope/Top Dawg Entertainment)
Banda Isca de Polícia: Isca, Volume 1 (Elo Music/Boitatá)
El Michels Affair: Return to the 37th Chamber (Big Crown)
Tomasz Stanko & New York Quartet: December Avenue (ECM)

Artistas Löis Lancaster

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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