Kamaiyah: rapper de Oakland se destaca na cena

Kamaiyah em estado de transição

Nova mixtape, Before I Wake, reforça a individualidade de uma rapper que foge dos padrões ao se apegar ao clássico

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 10 de novembro de 2017

Disco da Semana: Kamaiyah, Before I Wake

Logo na mixtape de estreia, A Good Night in the Ghetto (2016), a jovem rapper de Oakland (Califórnia, EUA)  Kamaiyah mostrou uma faceta do rap pouco explorada: o retorno às ruas.

Ouvi-la é uma experiência que pode soar nostálgica para alguns mas que, para uma cantora que doma a linguagem dos guetos, soa como uma chegada natural. Se hoje em dia batidas repletas de efeitos histriônicos têm invadido o gênero, ela apresenta um lado mais cru, mais street.

Ainda em contraponto às produções mais secas, Kamaiyah usa um tipo de batida que acompanha seu flow, como se desse continuidade ao som mais clássico de MC Lyte. Portanto, logo de cara, sua segunda mixtape, Before I Wake, deve agradar fãs do rap noventista, com uma pitada de G-Funk querendo ser mais sério.

Capa de 'Before I Wake', nova mixtape de Kamaiyah

G-Funk existencialista

Before I Wake foi lançado alguns meses depois do single “Successful”, que na verdade faz parte de outro projeto.

Mais certeira, a nova mixtape vem pra reforçar um território dominado, por enquanto, apenas por ela: a da rapper rueira, vinculada à sua quebrada – algo equivalente ao que Kendrick Lamar propôs na fase antes de good kid m.A.A.d city (2012).

Na primeira faixa, “Dope Bitch”, ela fala sobre como algumas mulheres se comportam nas ruas de Oakland, citando como umas querem se crescer em cima das outras para se destacar.

Mais próxima do mencionado G-Funk, “Slide (Bet)” tem tudo para ser o principal single de Kamaiyah este ano: tem aquele andamento à lá Too $hort e fala dos muitos encontros da juventude.

Esse encontro com o clássico às vezes tende a ser proposital. Em “Me Against Myself”, ela levanta a mesma questão que Tupac levantou em 1995, em Me Against the World, enaltecendo sua força para lidar com quem duvida de seu potencial. Pelo que deu a entender, Kamaiyah não sofreu nenhum tipo de ameaça de morte como o jovem rapper conterrâneo há mais de 20 anos; porém, ela faz uma espécie de autoanálise, questionando algumas pessoas a seu redor: ‘Sinto como se minha mente aplicasse truques em mim/Todas as pessoas que amo sempre me ligam/Senhor, você pode me salvar?Talvez, mostre-me porque eles estão fazendo esta merda comigo’, diz. ‘Eles me amam e depois me odeiam’.

Realmente, Kamaiyah parece ser uma cantora que receia confiar nos outros. Ela revela ter poucos laços familiares e se mostra abalada pela perda recente do irmão.

Na última faixa do disco, “Therapy”, a base slow-funk contrasta com um discurso existencialista, em que ela diz que todas as adversidades surgiram para prepará-la para o que vem por aí. ‘Quem será que realmente me ama e estará lá por mim?’, canta, com a seriedade despojada que se esperaria de uma jovem de 24 anos.

O despertar, para ela, deve estar próximo. É aí que está o verdadeiro significado do período de transição que se depreende de um título como Before I Wake.

Outros lançamentos relevantes:

Nosso Querido Figueiredo: Juventude (Independente)
Daniel Drexler: Uno (MS2 Discos)
Syleena Johnson: Rebirth of Soul (Shanachie Records)

Artistas Kamaiyah

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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