Fernando Motta e a melancólica direção da Geração Perdida

No álbum de estreia Andando Sem Olhar Pra Frente, guitarrista do Young Lights soa ‘demasiadamente particular’. Mas, não se afaste não…

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 13 de junho de 2016

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Mais que um selo, a Geração Perdida já se afirma como movimento em Minas Gerais. Embora o Clube da Esquina seja um espelho enquanto aglutinador de referências que ultrapassam os cercos nacionais, grupos como Quase Coadjuvante e Lupe de Lupe têm se firmado no lo-fi, um lado roqueiro melancólico, totalmente descentralizado e composições que não escondem o perrengue de se manter independente, mas regozijam uma trajetória empírica resultante do esforço conjunto.

Resumidamente, Geração Perdida é uma rede de apoio de uma cena específica. A ideia é que ela se expanda cada vez mais.

Procurar pela leveza sonora de seus acordes talvez seja um caminho melhor em busca de entender o que ele quer dizer com suas canções

A própria opção de Fernando Motta como artista solo após tocar com o grupo folk Young Lights é mais um exemplo dessa expansão. “Fernando caminha lado a lado com uma geração que prefere abraçar a confusão do inesperado, das mudanças e da rejeição”, disse João Carvalho, produtor do álbum de estreia do guitarrista, Andando Sem Olhar Pra Frente. Carvalho toca baixo no disco, Fernando é o guitarrista e cantor, enquanto a bateria fica a cargo de André Garcia.

Como já declarou à Noisey, as músicas do álbum buscam um sentido de autoafirmação: “Eu não sou a pessoa mais segura do mundo”, admitiu. E isso é bem perceptível, primeiramente pela sonoridade. Andando Sem Olhar Pra Frente é daqueles discos que você começa ouvindo baixinho, baixinho, até demandar atenção aos poucos.

Talvez seja preciso ter ciência das credenciais de Fernando antes de passar por sua estreia. Numa composição como “Paris, Texas”, em que diz: ‘Você nem sabe quem eu sou/E eu sei que eu não sou nada/Ninguém tem que se completar/E eu sou a peça errada‘, não há respostas.

Procurar pela leveza sonora de seus acordes talvez seja um caminho melhor em busca de entender o que ele quer dizer com suas canções. Elas são contidas de pequenas anedotas que revelam aos poucos o Fernando Motta, agora em carreira solo. ‘Quando eu era menino, eu sonhei/Que cantava o hino na TV/Pra um bando de granfinos tão blasé/E eu nem sabia letra e nem por quê’, canta Motta em “Videokê”, um rock tomado por violões ágeis que encontram proximidade em compositores como Bruno Cosentino e Fábrica.

Motta cita como referências Cat Power e Elliott Smith, mas eles são um tanto longínquos, porque a própria música nacional, principalmente a que é feita distante do apoio das grandes majors, tem maior correlação.

“Céu”, single já apresentado em maio deste ano, lembra Mário The Alencar, enquanto “Macaulay Culkin”, que não chega a citar o ator de Esqueceram de Mim, tem um pouco das músicas tristes do Pélico.

No fundo, como bem escreveu Carvalho, “é um disco vivo, um mosaico de sussurros e desabafos que poderia soar fechado ou demasiadamente particular”. Mas isso não é algo que deve manter o ouvinte afastado.

“O incômodo com ondas de autopromoção, de jograis e pretensões faz o compositor encontrar ressonância justamente na criação de um pop-­contramão”, continua o baixista. Se isso for precedente para manter ouvintes afastados, quem sai perdendo é eles.

Outros lançamentos relevantes:

Allen Toussaint: American Tunes (Nonesuch)
Kurt Elling & Branford Marsalis Quartet: Upward Spiral (Marsalis Music/Masterworks/OKeh Records)
Kongos: Egomaniac (Epic/RCA)
Plaid: The Digging Remedy (Warp)
Graveola: Camaleão Borboleta (Natura Musical)


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Artistas Fernando Motta

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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