Disco da Semana: Família Madá recobra o impacto da mixtape com exotismo e expressividade

Muitas Vezes Mais… tem participações de Black Alien, Ogi, Sombra e mais

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 7 de abril de 2017

Assim como o rap gringo, o rap nacional mudou. Assimilou a estrutura de músicos que se tornaram destaque na cena atual, como Future e Gucci Mane. E, de certa forma, está parando aos poucos de samplear Mano Brown, embora isso não descredite a qualidade de ninguém.

Até mesmo o formato mixtape, com diversas participações, passou por uma renovação, anos depois de Emicida ter abandonado o formato.

O formato mixtape e álbum não é algo que faz tanta diferença assim para o ouvinte. Para o rapper, sim. Ele é ancorado em diversas participações e tem um ritmo mais despojado de estrutura. É como se elas obedecessem mais a um formato radiofônico do que a uma preconcepção artística específica. O grupo de rap paulistano Família Madá sabe muito bem disso, pois todo esse contexto ajuda a compreender o significado de Muitas Vezes Mais… Volume 1: Relicário.

Mixtape alarmante

Nomes fortemente considerados na cena, como Black Alien (“Seja Você”) e Ogi (“Esquinas”), fortalecem a mensagem do grupo, que na verdade não tem uma unicidade própria. Nem se deve cobrar isso, porque ali entre Haikaiss e Síntese você pode muito bem encaixar a proposta de sons como o dub-trap de “Sol” (com participação de Cacife Clandestino) ou o som alarmante de “Skate”.

Formado no bairro boêmio Vila Madalena pelo trio Neg, Chayco e Covêro, o Família Madá traz aquela miscelânea estética com samba, MPB, R&B e afins, mas não é bem isso que se destaca em Muitas Vezes Mais.

Em “Bênção” (com o rapper Jamés Ventura), o grupo lembra takes mais sérios do ConeCrewDiretoria.

“4:45” parece aquele som meio minimalista do Future, com os vocais que pingam como se fossem parte do background melancólico.

Quanto a “Cristal”, lembra a produção exótica de Karol Conka, com reverbs a pleno vapor.

As conexões com samba e música brasileira – algo que se esperaria de um grupo da Vila Madalena – também figuram no disco, mas em menor escala e destaque.

“Eu Aqui Cheguei” mostra que a banda já maturou essa junção há muito tempo. “A Gente Se Fala”, faixa-bônus com participação de Sombra, mostra o embate de um casal pelo crossover entre samba e jazz. Comparando ao que é apresentado em Muitas Vezes Mais, as duas canções destoam da coesão musical. Por outro lado, fortalecem a expressividade do grupo.

Outros lançamentos relevantes:

Jamiroquai: Automaton (Virgin)
Future Islands: The Far Field (4AD)
Kodak Black: Painting Pictures (Atlantic)
Gonjasufi: Mandela Effect (Warp)
Sun Ra and The Arkestra: Thunder of the Gods (Modern Harmonic)

Artistas Família Madá

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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