EMA: a clausura como protesto

Noise, introspecção e revolta numa trilha solitária que detrata a confusão atual da América

Gravadora: City Slang
Data de Lançamento: 25 de agosto de 2017

Disco da Semana: EMA, Exile in The Outer Ring

EMA é sigla do nome Erika M. Andersen, um nome que não demorou para provar-se um dos mais relevantes do rock na atualidade.

Sua música tem traços da psicodelia com o shoegaze, carregando elementos da no-wave, industrial e de um tipo de narrativa que lembra o metal nórdico, que adora falar de fantasias épicas.

Para EMA, entretanto, a realidade contém de tudo, menos de épico.

Em seu primeiro disco, Past Lives/Martyred Saints (2011), ela criou um ambiente de clausura para falar sobre preconceitos sexuais. O segundo, The Future’s Void (2014), traz a influência da literatura cyberpunk, famosa nos anos 1970, para a nossa realidade tecnológica.

Da solidão ao inconformismo

Ao compor Exile in The Outer Ring, EMA continuou a carregar traços das obras anteriores. Ela remete ao primeiro disco em “Receive Love” ao contemplar os comentários de vários homens reunidos, principalmente quando confessa: ‘Nem sempre fico chocada quanto aos homens/É que às vezes é difícil de acreditar neles‘. Isso vale tanto aos comentários absurdos sobre as mulheres quanto às possíveis atitudes de empatia em um microcosmo digital onde muitos se dizem a favor do feminismo, quando as atitudes revelam justamente o contrário.

A música de EMA é o desenho perfeito do que chamaria de som da clausura. As guitarras fervem, mas o clima é introspectivo. Synths ecoam, mas com o propósito de aumentar o distanciamento. Os vocais são melancólicos, mais como uma característica narrativa do que por tons de dramaticidade.

O exílio proposto é uma reação ao que acontece em seu país de origem, Estados Unidos. As paisagens têm mais espaço: ela fala de shoppings e do conforto de um carro de luxo, em “Breathalyzer”, mas acaba por voltar a um cubículo com sua solidão no monólogo “Where the Darkness Began”: ‘o lugar mais escuro que poderia encontrar‘, como descreve.

Da segunda à última música do disco, EMA faz um percalço emocional diante de vários problemas de seu país. Em “Blood and Chalk”, paira um estranho sentimento em relação à raça. ‘Branca não é mais a minha cor‘, argumenta Erika. Não é a pigmentação que ela nega, mas o discurso supremacista de alguns eleitores de Trump, que inevitavelmente podem levar ao sangue que ela tanto endossa na canção (tá aí Charlotesville como prova).

Dentro desse discurso, o poder é ancorado de acordo com os interesses de quem está lá. E quem são eles? Os caras brancos que frequentam cassinos, como ela perfila em “Aryan Nation”. A única forma de chegar lá seria tomando o poder de assalto, mas ainda assim seria algo errado, não tem jeito. ‘Me conte histórias de homens famosos/Não consigo me enxergar neles‘.

Em “Aryan Nation”, EMA adota um discurso agressivo no que seria um de seus takes mais pop. Provavelmente ela está preparando o ouvinte para “33 Nihilistic and Female”, que representa justamente o estouro diante desse clima separatista. É um som que lembra os primeiros anos do Sonic Youth, só que com uma bateria mais industrial, repleto de reverbs. Como se poderia imaginar, EMA leva o isolacionismo ao extremo, clamando por mudança ao revelar um estado de inconformismo. Ela repete muitas vezes que ‘vai achar o caminho‘, mesmo sabendo que se trata de uma busca extensa e desgastante. De repente, o que soava como desespero revela-se como um traço oculto de esperança.

Outros lançamentos relevantes:

Queens of the Stone Age: Villains (Matador)
Chico Buarque: Cantiga (Biscoito Fino)
Vijay Iyer Sextet: Far From Over (ECM)
Chase & Status: Tribe (Virgin EMI)

Artistas EMA

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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