Dave Clarke lança novo disco 14 anos depois

Dave Clarke, o ‘barão’ do techno, ressurge ainda mais sombrio

Concebido após um tempo de reflexão pós-acidente, The Desecration of Desire quebra hiato de 14 anos do DJ/produtor britânico

Gravadora: Skint
Data de Lançamento: 27 de outubro de 2017

Disco da Semana: Dave Clarke, The Desecration of Desire

Bem antes do Primal Scream dar uma reviravolta estética em sua carreira no eletrônico pesadão de XTRMNTR (2000) ou o aspecto mais agressivo de suas batidas industriais invadir de vez o hip hop, Dave Clarke já costumava fazer techno-industrial bebendo de fontes como Throbbing Gristle e Coil.

Mesmo consagrado como um veterano da eletrônica, não é tão comum assim Clarke lançar discos. O seu último, na verdade, saiu há 14 anos: Devil’s Advocate (2003).

The Desecration of Desire, por assim dizer, é o 3º disco na carreira deste britânico considerado o ‘barão do techno’ – alcunha designada pelo radialista conterrâneo John Peel (BBC).

Mais distanciado da eletrônica comercial que impera nas baladas britânicas, Clarke assume que Desecration trata-se mais de um “um livro, uma cronologia. Finalmente apenas eu, minha imaginação e um toque de destemor sobre se abrir”.

Capa de The Desecration of Desire, novo disco de Dave Clarke

Mark Lanegan e Gazelle Twin fora da zona de conforto

Um incidente em sua vida levou à gestação de The Desecration of Desire. Em 2016, ele sofreu um acidente de carro na Sérvia, fazendo com que passasse por momentos de autorreflexão. Clarke, que já é acostumado a fazer techno de um jeito mais pessoal, niilista, punk até, aplicou sua expertise a um momento pessoal.

Nesse caso, não haveria cantor melhor para transmitir tais infortúnios que Mark Lanegan, o ídolo do rock solitário desde os tempos de Screaming Trees. Em “Charcoal Eyes (Glass Tears)”, parece que Clarke rememora os exatos momentos de apreensão pós-acidente.

Na seguinte “Monochrome Sun”, Lanegan entra na onda disco-soul proposta por Clarke, com batidas repetitivamente apreensivas. O roqueiro sai de sua zona de conforto e adentra um terreno sombrio, como se fosse um ser de outro planeta apresentando um tipo de sociedade evoluída da qual teremos que nos aprofundar para permitir conhecê-la.

A conterrânea de Brighton Gazelle Twin (projeto de Elizabeth Bernholz), já influenciada pelo trabalho de Dave Clarke, levou sua proposta sonora a um outro patamar em “Cover Up My Eyes”. Há um flerte com o épico, o esquizofrênico e um tipo de maquinação que soa rudimentar aos ouvidos. Sob synths despedaçados e efeitos vocais borrados, eis a canção do desconforto, um eletrônico avant-garde-industrial de causar estranhamento mesmo aos já iniciados na obra de Gazelle Twin e Dave Clarke.

Da reclusão às pistas

O britânico convidou outros nomes associados à subversão da eletrônica no disco. Anika, associada ao Portishead, soa rigidamente serena em “I’m Not Afraid”. Com o mestre dos sintetizadores góticos Matthew Sims, mistura pop e noise em “Frisson”, além de reinterpretar “Is Vic There?”, do Department S, com a francesa Louisahhh.

Das faixas sem colaborações, vale destacar “Exquisite”, que abre o disco como se fosse um OVNI chegando de assalto contra a música comercial.

Em “Death of Pythagoras”, ele deixa o eletro-punk mais massivo, mas vemos ele soar melhor quando tem a clara intenção de impressionar, como faz em “Plasmatic”, que alterna entre o techno anos 1990 e uma estrutura sonora que parece juntar a influência do dancehall ao Prodigy.

Ao contrário do clima sombrio e inovador do disco, “Plasmatic” repotencializa a capacidade de Clarke em instigar as pistas. Eis uma contradição bem-vinda, que mostra o quanto este britânico permanece criativo e, ao mesmo tempo, versátil, esticando referências e aproximando a eletrônica dos anos 1980 a 2010 em pouco menos de 1h.

Outros lançamentos relevantes:

André Sampaio: Alagbe (Sony)
Converge: The Dusk in Us (Epitaph)
Daphni: Joli Mai (Jiaolong)

Artistas Dave Clarke

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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