Religião, antropologia, identidade: as conexões místicas de Baco Exu do Blues

Em Esú, rapper de Salvador cria um ethos próprio que carrega imenso peso histórico

Gravadora: Cremenow Studio
Data de Lançamento: 4 de setembro de 2017

Disco da Semana: Baco Exu do Blues, Esú

Quando o rapper de Salvador Baco Exu do Blues lançou o single “Sulicídio” no ano passado (ao lado de Diomedes Chinaski), mostrou que tinha uma proposta diferente do eixo Rio-SP, beneficiado pela visibilidade.

Mesmo comparado a outros rappers do Nordeste, como RAPadura e Costa a Costa, Baco se diferencia por traduzir a divergência cultural que marca a representatividade do estado baiano.

Nenhum outro trabalho traz o peso tão grande de uma carga que vem da exploração dos portugueses na costa baiana com a chegada dos primeiros navios, passando pela colonização, escravidão, aculturação e pós-modernidade.

Eu faço o que eu quiser/Nada vai me parar‘, canta Baco em “Senhor do Bonfim”, numa mistura de trap com percussões das religiões afrobrasileiras. Toda linha do tempo já está traçada em sua música, e o que ele faz é utilizá-la como expressão de sua própria contemporaneidade, com algumas ligações míticas que envolvem tanto a iconografia do deus do vinho na mitologia grega quanto os santos do candomblé.

Em poucas palavras, Esú é um exercício de interconexão cultural, que leva em consideração mais de 500 anos de trocas de informações, rituais e hábitos distintos.

Assim, o que chamam de ‘hibridismo’ na antropologia, em Esú se materializa como uma expressão popular. Individual, claro, como usualmente acontece com as possibilidades do rap. Mas é um individual criado a partir da influência externa do coletivo. (Tanto que o músico está preparando uma segunda parte do projeto, com diversas participações.)

Conflitos e simbologias

Todo esse pano de fundo por trás de Esú não chega a ser mencionado pelas composições. Sua maior riqueza, claro, está justamente nessa (des)construção estética, mas não podemos ignorar a habilidade de Baco em comunicar-se com a geração que acompanha a evolução do rap.

“O álbum é um indivíduo em uma transição eterna. Ele passa por diversos conflitos. Sentimentos, no caso. Ele passa pelo sentimento de onipotência e da depressão, que são dois opostos. Ele vai da autoafirmação, da autoconfiança. E aí a trilha dele é até ele se achar”, explicou o rapper ao site Genius.

Quanto a isso, ele se permite divagar pelos clichês, como em alguns versos de “Oração a Vitória” e “Te Amo Disgraça”, um som romântico que se diferencia pelo tratamento despojado – em que ‘disgraça‘ se traduz como ‘paixão’. O melhor é a forma como essa canção fixa no imaginário do ouvinte. Com backings de fãs e barulhos de pessoas nas ruas, a música cria uma ambiência própria que remete a uma crônica de amor nos morros e favelas.

“Capitães da Areia” é homenagem ao título do livro homônimo de Jorge Amado, que conta a história de garotos do litoral da capital baiana que, excluídos da sociedade, formam uma própria, submetidos à marginalidade. Num som típico do maracatu (temperado pelas guitarras de Gabriel Brandão e Fred Menezes Filho), Baco menciona ‘Macunaíma’, sampleia Nação Zumbi (“Rios, Pontes e Overdrives”) e conta sobre como a xenofobia e o preconceito têm minado a liberdade das grandes cidades. Da mesma forma que antigamente não existia gêneros musicais, conforme a declaração no início da canção, a necessidade de rótulos têm deixado as pessoas confusas, levando-as à intolerância.

Desde já, um legado

Com apenas 10 canções, Esú já constrói de antemão um legado próprio dentro do rap.

O site Oganpazan fez uma ótima análise sobre a obra de Baco: “Ao seu modo Baco Exu do Blues produziu uma síntese curiosa, que passa da sua herança familiar (a mãe professora que lhe pagava pra ler) de leituras da mitologia grega e da literatura mundial, de Jorge Amado ao Marquês de Sade, a um resgate simbólico de sua ancestralidade religiosa não vivida”.

Poucos discos têm a capacidade de erigir um ethos próprio num espaço tão curto de tempo. Essa característica é fundamental para soar atrativa a uma geração que, além de intolerante em relação ao diferente, reluta a ouvir ideias complexas que tomem muito de seus preciosos tempos.

Outros lançamentos relevantes:

Flora Matos: Eletrocardiograma (Independente)
The National: Sleep Well Beast (4AD)
Gregg Allman: Southern Blood (Rounder)
Mike Stern: Trip (Heads Up)
Tony Allen: The Source (Blue Note)
Mount Kimbie: Love What Survives (Warp)

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

  1. Danilo Cruz 12 setembro, 2017 at 13:45 Responder

    E como nós ficamos quando vamos ler o texto de uma das nossas maiores referências quando se trata de critica musical e vemos que nossas linhas pifias foram citadas?

    Tiago, muito grato pela menção. Forte abraço meu chapa!

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