Disco da Semana: ANOHNI se aprofunda na agressividade da polarização de nós mesmos

O EP Paradise tem apenas 6 faixas, mas diz mais sobre nossa era do que imaginamos

Gravadora: Rough Trade
Data de Lançamento:
17 de março de 2017

Antony Hegarty assumiu o ‘nome espirituoso’ de ANOHNI após “tomar coragem” e se declarar transgênero. “Mas não me sinto enfaticamente feminina, é mais sutil do que isso”, disse ao jornal The Guardian. “É um dilema. Mas a condição de trans é um belo mistério”.

Com o primeiro disco, HOPELESSNESS (2016), a mudança do ambiente humanamente dramático de outrora dá lugar a uma raiva. Raiva de se decepcionar com a administração de Barack Obama – que matou mais sírios e outros civis do que muita gente pensa, segundo ela – e com o próprio meio ambiente.

“Ele não ia desmontar sistemas. Não ia criar esse movimento de massas que iria forçar a mão da mudança. E agora, aos 45 do 2º tempo, está seguindo uma agenda climática e todos deveríamos aplaudir?”, contestou em entrevista à Pitchfork em abril do ano passado, antes de Trump se eleger. “É nojento. Perdemos mais uma década”.

Importante lembrar que quando Obama foi eleito pela primeira vez, Antony foi uma de suas maiores defensoras.

O peso dessa frustração gerou um dos discos mais furiosos de 2016, contando com o apoio de peso de caras como Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke, que têm em comum a forma criativa de trabalhar com ambiências saturadas.

Paradise estende essa ideia para o início da era Trump. O histórico de ira com Obama é uma importante conexão que se tem que fazer, mesmo porque ANOHNI ainda não tem uma ideia definida do que os novos tempos podem trazer – embora ela não esteja nada otimista com isso, como já revelou na participação que faz em “Smoke ‘em Out”, single lançado pela banda CocoRosie, que revoga o papel de maior participação da mulher.

Se antes os ataques eram diretos ao sistema de governo que o decepcionou, em Paradise percebemos que a música adorna mais as generalidades. Não há nenhum ataque direto a Trump porque, bom, é óbvio demais (e também ainda não houve tempo hábil para analisar o que realmente representa seu governo, apesar das sucessivas trapalhadas).

São apenas 6 faixas em 20 minutos, mas o impacto de Paradise é tão intenso, que é difícil não acreditar que existe uma mesma tessitura que amarre a era Obama à era Trump. “Nossos novos líderes esperam esmagar nossos espíritos e acelerar a ecomatança em nome do progresso virulento”, foi o comunicado que emitiu quando disponibilizou a faixa-título. Nela, o som alarmante bem associado à Mohawke se destila na morte do ser humano enquanto ser consciente. ‘Eu estou aqui/Não aqui como um ponto de consciência’, resigna ANOHNI, sentido-se presa.

Essa prisão adquire maior urgência agora. Nesse quesito, Paradise representa a extensão do colapso provocado por HOPELESSNESS. Então, se antes a melancolia representada por discos como I Am a Bird Now (2005) se desvencilhou, o que vem agora é a catástrofe sonora em si – termo que melhor define “Jesus Will Kill You”, que eu chamaria de uma investida do Sun Kil Moon confinado a ouvir Rage Against The Machine.

“You Are My Enemy” é uma clara referência aos discursos de ódio disseminados pelas bolhas das redes sociais, enquanto a agressiva “Ricochet” leva o ódio a um patamar mais extremo. Certamente ANOHNI se baseou no contexto da polarização política que dividiu as eleições norte-americanas, mas isso ajuda a entender inclusive o que acontece no Brasil. Vivemos ricocheteando as ofensas que recebemos pela internet: ‘Porque estou com medo/Vou te odiar, meu Deus’.

Ao não mencionar nomes, Paradise adquire um tom de universalidade ainda maior que o antecessor – embora as críticas à Obama devessem ser apreciadas por mais pessoas, afinal, apesar da popularidade dele na geração Y, parece que as pessoas tendem a ficar ofuscadas pelo seu marketing bem feito nas redes sociais.

Com Paradise, o discurso de que Trump representa uma ameaça já está intrínseco. Talvez valha mais a pena repensar a própria identidade, e como nos interagimos com os desconhecidos hoje, seja na rua ou na internet, antes de chamar os 59 milhões de norte-americanos que votaram no republicano de estúpidos.

Outros lançamentos relevantes:

Chico Tadeu: O Estado Crítico (Sony)
Spoon: Hot Thoughts (Matador)
Real Estate: In Mind (Domino)
Marina de La Riva: Rainha do Mar (Universal)
Mário Adnet: Saudade Maravilhosa (Selo Sesc)

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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