Disco da Semana: Aláfia percorre e narra as partes ignoradas de São Paulo

São Paulo Não é Sopa, 3º disco do coletivo, é cheio de amor, ódio, estranheza e referências pouco óbvias

Gravadora: Agogô Cultural
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 2017

Já existem muitas músicas e discos sobre São Paulo, mas quem andou a fundo por seus mais de 1.522 km² de vielas, becos, ruas e grandes avenidas adquire uma noção estranha do conceito de metrópole.

É fácil se deparar com buracos nas ruas, pessoas apressadas e engarrafamentos, mas existe bem mais do que isso.

Enquanto alguns reclamam da falta de acesso aos carros na avenida Paulista de domingo, outros evitam pegar ônibus e trens abarrotados aos fins de semana, fechando em microcosmos onde iFood só entrega porcaria e táxis se recusam a chegar. Pegar Uber de Parelheiros à Praça da Sé, vixe, mó fortuna, deixa quieto…

São Paulo é cruel, excludente e se baseia em valores falhos como meritocracia. O pior é que muitas das pessoas que mais sofrem com isso reproduzem o discurso dos patrões.

Antes que isso se torne um ensaio frustrante sobre a capital, passo a bola para o Aláfia e seu novo disco, São Paulo Não é Sopa.

Todo esse cenário cinzento da cidade é a base da poesia abstrata, mas que não deixa de ser truculenta, das 11 canções que formam o novo trabalho.

Quando artistas decidem se fixar numa cidade em específico, correm o risco de soar bairristas, ou de centrar demais a linguagem, entendida apenas no contexto regional que ele se fixa.

Chico Science, Dorival Caymmi, Mano Brown, entre outros já mostraram que a cidade nem sempre é a totalidade. Science pôs uma dicotomia entre a ‘pior cidade do país’ na época (Recife) é o pensamento avançado dos mangueboys. Caymmi fez de Itapuã um local paradisíaco inatingível, um oásis para a tranquilidade, enquanto Brown cantou a genealogia da violência nas periferias de São Paulo – mas que explicam a lógica que afasta moradores da periferia dos grandes centros em qualquer metrópole.

O papel do Aláfia no novo disco é trazer uma perspectiva não óbvia à imensidão da cidade.

A faixa-título é ambientada num clima raivoso, listando do exclusivismo dos mais abastados ao apoio incessante a uma das polícias mais violentas do mundo.

O som psych-funk alternando efeitos que parecem lasers a atabaques e berimbaus faz de “No Fluxo” um take sinistro, um labirinto cerebral que deve surgir na mente de quem encara o estranho no metrô, por exemplo, fora do padrão de vestimenta. Eduardo Brechó menciona ‘a facção da ficção‘, um termo que traduz: eles não são perigosos como vocês querem imaginar que sejam. Na verdade, ‘os moleque são complexos‘. Logo vem a imagem da galera que curte funk, indo animada pro rolê, despertando olhares suspeitos por onde passa.

“Liga nas de Cem” é o principal single do disco por motivos óbvios: Brechó canta sobre a exclusão social medida pela distância da periferia ao centro, contando com a ótima simbiose entre a guitarra de Pipo Pegoraro e o baixo de Gabriel Catanzaro. A construção é meio intrincada, mas o propósito é captado rapidamente: o Aláfia fala dos perigos e das belezas da cidade, numa perspectiva bem abrangente: ‘São Paulo é solo preto/Se eu contar os gueto/Não sobra nem o centro’. Brechó se põe como um indivíduo que vive nos cantos mais afastados ‘Não gostam da gente/Lamento o ódio do inimigo/Agora nóis é só curto-circuito’.

A divertida “Agogô de 5 Bocas”, com participações de Robinho Tavares, João Parahyba, entre outros, fala de um raro exemplar do instrumento que se perdeu pelo bairro. Em “Saracura”, Luísa Maita busca um refúgio pacífico por entre os arranha-céus.

Outras participações importantes: Raquel Virgínia e Assucena, de As Bahias e A Cozinha Mineira, no joguete verbal de “Mano e Mona”, e Tássia Reis e Marcela Maita na faixa-título.

Apesar de se ancorar em alguns clichês – como samplers de músicas dos Racionais, por exemplo – SP Não é Sopa encapsula o amor e ódio que essa cidade costuma despertar.

Há ira, revolta, monumentos cinzentos, gente estressada. Mas, exatamente onde menos se procura, nos lugares afastados, nos bairros estereotipados pela violência, na favela, existe uma São Paulo que poucos ousam conhecer. Ela é mais incrível do que se relata nos jornais e na TV.

Outros lançamentos relevantes:

Contra Corrente: Deja Vu (Sony)
Mombaça: Afro Memória (Milk Digital)
Lupe Fiasco: Drogas Light (1st & 15th)
Tinariwen: Elwan (Epitaph)
Craig Taborn: Daylight Ghosts (ECM)
Miguel Zenón: Tipico (Miel Music)

Artistas Aláfia

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

Sem Comentário

Adicione um comentário