Os 30 melhores álbuns de 2017 (nacionais e internacionais)

De Richard Dawson a Muntchako, reunimos os melhores discos do ano na música pop, brasileiros ou não

Em mais de 7 anos fazendo listas de melhores discos, o Na Mira costumava separar nacionais de internacionais. Por que, então, fazer diferente justo agora?

Porque o mesmo tempo investido para ouvir música nacional é o que se investe para ouvir música internacional.

Nosso parâmetro nunca foi qualidade – ou seja, achar que música brasileira não é equiparável à internacional por n razões, ou vice-versa. É mais uma questão de propósito mesmo.

Por exemplo, esta página vai dedicar uma lista exclusiva só com lançamentos de jazz. Ora, não poderia colocar tais discos nesta lista também? Sim, claro.

Mas a questão é que trazer um panorama amplo para o gênero nesta página tornou-se um propósito – expressado todo mês na coluna Groovin’ Jazz, que reúne os 10 lançamentos destaque mês a mês.

Como forma de endossar esta seção do site, cada vez mais lida, consideramos relevante dedicar uma seleção só para o jazz. Eis as principais razões: afinidade e, principalmente, curiosidade. Isso porque o jazz não tem a mesma projeção do pop quando se fala em música. Já fazemos isso, inclusive, desde 2015.

O que não quer dizer, também, que ignoramos a curiosidade dentro do espectro pop. 2017 foi o ano que reavivou a discussão se o álbum morreria, e parte das escolhas desta seleção vieram justamente para responder um NÃO, em letras garrafais mesmo. Um disco carrega um propósito que vai além da propagação de singles. É mais ou menos essa a mensagem geral desta lista.

Subimos um vídeo no nosso canal do YouTube falando sobre os 10 melhores:

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Confira os 30 melhores discos de 2017 – nacionais e internacionais, tudo junto e misturado.

30. Muntchako

Muntchako

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento:
6 de outubro de 2017

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Diretamente de Brasília (DF), o Muntchako é um trio que abarca quase a totalidade de expressões da música brasileira. Pelo menos essa é a impressão do disco de estreia. Samuel Mota (guitarra, synths e programações), Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Macaxeira Acioli (percussão e samplers) vão do techno ao funk-carioca em seu liquidificador sônico. A primeira faixa, “Golpe”, parece a trilha de um filme de samurai rodado no Brasil. “Emojubá” liga o afro-beat à psicodelia sci-fi e “Coqueirinho Verde” interliga rock e baião à música latina, com todo o frescor de uma música para ser apreciada com o sol torrando lá fora. A produção de Curumin enfatiza o bom humor em meio a um despejo instrumental híbrido: em “Cardume de Volume”, por exemplo, o batidão é empolgante do começo ao fim, onde a música oriental se entrecruza com a música urbana brasileira.


29. In Spades

The Afghan Whigs

Gravadora: Sub Pop
Data de Lançamento:
5 de maio de 2017

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21 anos depois da obra-prima melancólica, Black Love (1996), o The Afghan Whigs continua dilacerante quando se trata de falar sobre perdições sentimentais. In Spades, como evidencia a capa, pertence àquele legado preto-e-branco da banda liderada por Greg Dulli: são canções mais soturnas e doídas, um contraponto imediato ao lado mais stoner explorado no anterior Do to the Beast (2014). Na linguagem do Afghan Whigs, isso quer dizer um retrabalho mais ostensivo de catarse. “Arabian Heights” entrega guitarras que se esparramam, como se chegasse ao ápice do êxtase sexual. Em “Toy Automatic”, Dulli rasga a voz ao máximo, numa composição lacônica que tenta reproduzir a tristeza de perder alguém. Se alguém duvidava que Dulli voltaria a ser o trovador de emoções conflitantes, In Spades está aí para provar que ainda há muitas emoções a compartilharmos com o Afghan Whigs.


Capa do disco Myopic Serenade, de Armando Lôbo

28. Myopic Serenade

Armando Lôbo

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
21 de novembro de 2017

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Colocar em choque uma proposta de música de vanguarda frente às expressões populares da música brasileira é algo recorrente em nossa cultura desde os anos da Tropicália. De Tom Zé a Chico Science, porém, nenhum desses amálgamas soaram atualmente tão intrigantes quanto o que o pernambucano Armando Lôbo propõe em Myopic Serenade. Conhecido por seu trabalho com a Orquestra Frevo Diabo, Armando chega a seu 3º álbum solo injetando referências do free-jazz (“Pindaré Reloaded”), rock psicodélico (“Lady Lazarus”), até chegar ao samba com toques de jazz anos 1940, em “The Loner and the Crowd”. Todas as composições são em inglês, mas Lôbo soube como dar uma lapidação estética brasileira. Myopic Serenade prova não só que a nossa música se interliga com as expressões culturais de diferentes culturas. Mais importante que isso é a interessante dissonância resultante desses experimentos.


Capa de Okovi, disco de Zola Jesus

27. Okovi

Zola Jesus

Gravadora: Sacred Bones
Data de Lançamento:
8 de setembro de 2017

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A extensão vocal de Zola Jesus vai muito além da expansão do legado de Diamanda Galás. Ela é única em um nicho que alia música clássica à eletrônica. Incrível como ela consegue transparecer sua sentimentalidade de maneiras diferentes. Em “Exhumed”, a raiva toma conta. “Soak” é domada pela serenidade, “Veka” tem um ar enigmático que mostra como Zola também domina a arte de contar histórias… De fato, Okovi é praticamente um ato teatral, mas não se pode negar o appeal pop por trás de tudo isso. São composições que falam sobre pressões individuais e sociais, sobre como a clausura que criamos tende a ser o elemento mais nocivo contra a liberdade que tanto buscamos. Poderia ser um ato de ópera, mas é um álbum musical que, mesmo possuindo muitas de suas características teatrais, exibe um virtuosismo pop sem paralelos.


26. A Concorrência é Demais!

Graxa

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
17 de julho de 2017

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Acredito que o rock, em geral, perdeu o fio comunicativo com a geração atual. Graxa, na verdade, é um dos poucos que não caiu nessa amarra. De Recife, ele retrata a desilusão, raiva e perrengues de ser artista independente no Brasil. Ele já vem abordando o assunto desde a sua estreia, em Molho (2013). Em A Concorrência é Demais!, seu 3º álbum, a crítica é mais direta. Na faixa-título, ele fala da intensa disputa em chegar aos primeiros lugares na internet: ‘A concorrência é demais especialmente pra mim/Mas eu não sou chinfrim/Caio pra cima matando com meu adendo’, responde o cantor. O stoner-rock de “Ladainha é Coisa de Padre” tem o potencial de alastrar moshs e “Pequenos Favores, Grandes Problemas” reflete um problema bem recorrente na cena independente musical: o tal do discurso do ‘dá uma forcinha’, como se fôssemos obrigados a depositar fé no outro só porque ele não tem o respaldo do mainstream. A música mais pegajosa de todas, porém, é “Você é Muito Chato Demais”: com certeza você destinaria essa composição a umas dezenas de pessoas com quem é obrigado a conviver.


25. Quando Brinca

BEL

Gravadora: Sagitta
Data de Lançamento:
17 de março de 2017

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Quando se fala de microtons inspirados pela eletrônica rearranjados no formato canção, logo me vem algum artista do Rio de Janeiro na cabeça. A recente coletânea Outro Tempo: Electronic and Contemporary Music From Brazil 1978-82 mostrou um pouco dessa cena inexplorada no Brasil. E a música de BEL, talvez sem querer, é uma continuidade disso: ao lado de Gui Marques, a carioca dá um tom vintage e, ao mesmo tempo, moderno ao uso dos synths e guitarras no seu trabalho. Musicalmente, Quando Brinca ficaria na mesma prateleira de Mahmundi, mas suas composições denotam mais agudeza social. “Esse Calor”, por exemplo, é um exercício de autoconhecimento com seu corpo feminino. Mas é em canções como “Fica Fácil Assim” e “Homem” que a cantora melhor explicita sua visão feminista: tudo faz parte de uma incessante descoberta. Por isso, BEL nem se preocupa em tirar conclusão de nada.


24. Regina

niLL

Gravadora: D’sgueio/SoundFoodGang
Data de Lançamento:
24 de julho de 2017

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O rapper niLL levou um pouco a sério demais a influência da vaporwave no rap nacional. E isso se reflete na essência de Regina, seu segundo disco. Conversas de áudio do WhatsApp e pensamentos à solta relembrando a mãe se encaixam nas composições que falam sobre conexões e desconexões do mundo, seja ele do online (“Wi-Fi”) ou dos muitos desvios de rota que nos levam a boates e festas estranhas (“Meliodas”). Um dos singles mais emblemáticos do disco, “Minha Mulher Acha que Eu Sou o Brad Pitt”, traz sampler de “Ashes to Ashes” (David Bowie) e fala das muitas neuroses de um relacionamento, com bom humor. Já em faixas como “Stay High” e “Valete de Copas”, niLL já adota um tom mais sério para falar sobre identidade negra – tom que também permeia a ótima “Loopers”, que fala sobre a fome no século XXI, ao lado dos consagrados De Leve e Ogi.


23. american dream

LCD Soundsystem

Gravadora: DFA Records/Columbia
Data de Lançamento:
1º de setembro de 2017

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Sete anos após o disco que selava o fim do grupo, o LCD Soundsystem não mudou tanto assim. Diz James Murphy que um dos motivos do retorno foi a insistência de David Bowie – a quem ele dedica um dos takes mais criativos que a banda já trabalhou, “black screen”, que afasta totalmente a influência do pós-punk das pistas. A banda retoma singles viciantes, como é o caso das dançantes “tonite” e “call the police”. O grupo encontrou novas formas de bagunçar as guitarras, como mostra em “change yr mind” e na punktrônica “emotional haircut”. Mas, talvez a maior surpresa de american dream sejam os sons mais melancólicos, como “oh baby” e a faixa-título, completando o rol de aspectos que tornam o grupo ainda relevante em nossos tempos.


22. A Rotina do Pombo

Thiago Elniño

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
1º de fevereiro de 2017

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Um personagem sem nome diante de uma realidade que não tá nem aí para as biografias que se perdem no seu dia a dia. O rapper Thiago Elniño, de Volta Redonda (RJ), sustenta a tese de que toda essa correria nos afasta da identidade que temos. Em “Condado dos Surdos” (com participação do grupo Medulla), ele diz que nossa educação errada tem nos preparado para um front que desconhecemos. “A Cidade e o Movimento” fala da violência urbana e “Pedagoginga” faz dura crítica ao sistema de ensino, exemplificando que é preciso ir atrás de suas origens fora da escola e do status quo para buscar sua identidade – pois, como ele diz, o ato de não ter sua história retratada ‘na verdade me mata por dentro’. As várias narrações de A Rotina do Pombo são provas de como o racismo e o preconceito social estão arraigados no nosso cotidiano. É preciso detratá-lo, com argúcia e insistência, para fazer com que muitas pessoas enxerguem aquilo que está estampado na cara delas, mas muitos fazem questão de ignorar.


21. Petite Afrique

SOMI

Gravadora: Okeh
Data de Lançamento:
31 de março de 2017

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Reafirmação da identidade negra nos Estados Unidos é um dos temas que têm feito sentido no ano que marca a posse de Donald Trump. O país norte-americano tem um grande problema com os imigrantes, criando uma sociedade dividida muito calcada na lógica do ‘estilo americano de vida’, como se aquele solo não fosse justamente podado por imigrantes europeus, africanos e latinos. Petite Afrique fala especificamente das raízes do Harlem, bairro negro da cidade de Nova York, e faz o papel de contar e recontar histórias que abordam temas como transnacionalismo, assimilação cultural e diferenças identitárias. Em “Black Enough”, SOMI fala da abstração inerente à tonalidade – o tal ser mais negro que o outro significaria mesmo passar por mais perrengues? Ao lado do cantor Aloe Blacc, em “The Gentry”, ela volta aos tempos de escravidão numa alegoria à escravidão moderna, onde se sucumbe às decisões dos patrões, que muitas vezes impedem as pessoas de fazerem aquilo que quer.


20. UrbAfrika

Mina Agossi

Gravadora: ACM Productions/Jazzbook Records
Data de Lançamento:
14 de abril de 2017

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Se você não conhece nada da música do Benim, que inclusive ajudou a formatar o afro-beat nos anos 1970, tudo bem. Mas, faça um favor: dê um start nessa jornada de descoberta com Mina Agossi. Experiente jazzista, seu novo disco, UrbAfrika, se classifica melhor na gênese da world-music, unindo dialetos locais à língua francesa. As percussões e as cordas do disco têm interessante senso de união, como se estivessem se direcionando a um discurso em uníssono. Ao lado do parceiro Paco Sery, que toca um instrumento chamado sanza (que lembra a kalimba), ela entoa três temas que aliam serenidade e naturalidade. Já “Juicy Fruit” a coloca próxima ao pedestal da cantora pop local Angelique Kidjo, com uma elasticidade jazzística que poderia facilmente aportar em Cuba ou na cumbia colombiana.


19. 4:44

JAY-Z

Gravadora: Roc Nation
Data de Lançamento:
30 de junho de 2017

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Após The Life of Pablo e Lemonade, o que JAY-Z responderia? A resposta à Kanye West veio logo na primeira música, “Kill Jay Z”: ‘Você dá pra ele 20 milhões de dólares sem piscar/E ele te dá 20 minutos no palco, porra, o que ele estava pensando?’. Quanto à Beyoncé, bom, ele admite que errou bastante em canções como “Family Feud” e a faixa-título. Mas, para a felicidade dos fãs e ouvintes, 4:44 é mais que um acerto de contas. Ele fala sobre como é complicado ter todos os olhos em cima de você, em “The Story of O.J.”. Em “Gloria”, ele se aproxima da mãe, Gloria Carter, mostrando empatia à sua dificuldade de ser lésbica e, mesmo assim, ter e criar 4 filhos. E para quem sentia falta do JAY-Z banger dos tempos de American Gangster (2007), as ótimas “Caught Their Eyes” (com Frank Ocean) e “Bam” (com Damian Marley) provam que Hova não perdeu a mão de fazer bons hits criativos de rap. Afinal, ele ainda permanece no topo do jogo.


18. Exile in Outer Ring

EMA

Gravadora: City Slang
Data de Lançamento:
25 de agosto de 2017

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O que tem se mostrado de mais relevante no rock, na atualidade, não segue bem os preceitos ‘básicos’ do gênero. Não, isso não cabe a EMA. Shoegaze, eletrônica, noise, guitarras pra lá, urros pra cá: Exile in The Outer Ring, seu 3º álbum, aborda o feminismo a partir da via mais crua, opressora e individual possível. É como se ela ecoasse o desespero de várias mulheres, ao mesmo tempo, numa era em que elas continuam sendo chamadas de ‘vitimistas’ diante de provas irrefutáveis de machismo. Antes mesmo do escândalo do produtor de Hollywood Harvey Weinstein mostrar a podridão machista nos sets cinematográficos, EMA já havia posta a questão de certa maneira: ‘Me conte histórias de homens famosos/Não consigo me enxergar neles‘, como revela em “Aryan Nation”, uma das muitas críticas à sociedade norte-americana.


17. Galanga Livre

Rincon Sapiência

Gravadora: Boia Fria Produções
Data de Lançamento:
25 de maio de 2017

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Por mais ou menos uns três anos, o produtor Rick Bonadio decidiu engavetar um dos maiores rappers de nossos tempos. Não é preciso ser expert em música brasileira para perceber o erro disso. Sem muitas desavenças, Rincon Sapiência chegou com muita vontade e garra numa estreia em disco que não poderia ser mais oportuna. Galanga Livre é um abraço à liberdade, mas sem deixar pra trás a dor que é buscá-la. “Crime Bárbaro” remonta à época em que os negros fugiam rumo aos quilombos e “A Volta pra Casa”, mais contemporânea, fala da complicação da classe trabalhadora de ir e vir nas grandes cidades. Liberdade, sim, mas e o preço da distância? ‘9h no trabalho é bem mais suave que as 2h na condução’, canta, sem esquecer como esse trajeto é bem mais perigoso para as mulheres, mais vulneráveis a crimes que vão do assédio ao assalto. A base de Galanga Livre é a história do personagem Chico Rei, um monarca da África que foi feito de escravo na região de Minas Gerais. Ele conseguiu dar a volta por cima, embora tenha perdido a família – prova de que a liberdade é bem mais complicada que o discurso, esteja onde estiver.


16. Acrílico

Nina Becker

Gravadora: YBmusic/Natura Musical
Data de Lançamento:
6 de outubro de 2017

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Preto-e-branco formou a palheta de cores propícia para o novo projeto de Nina Becker. Ao reimaginar samba, tropicalismo e música latina em Acrílico, a cantora carioca traz aquele clima old-school ao contexto do agora. Em “Despertador”, por exemplo, ela critica a onda conservadora que fez com que ‘burros’ batessem panelas nas ruas. “Na Quebrada”, um samba avant-garde composto pelo baixista Alberto Continentino, recorre à simbologia para lidar com os percalços diários. O grupo que acompanha Nina no disco é repleto de feras: o pianista Rafael Vernet e o baterista Tutty Moreno criaram um escopo musical vanguardista, terreno para que guitarras e sopros complementem a paisagem emoldurada por Nina, compositora de todos os temas – com exceção de “Caramelo da Nostalgia”, de Negro Léo.


15. Party

Aldous Harding

Gravadora: 4AD
Data de Lançamento:
19 de maio de 2017

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Ouça apenas uma música de Aldous Harding. Mas ouça em um ambiente silencioso, onde apenas a sua canção domine. É e não é a voz dos sentimentos despidos: a facilidade com que esta neozelandesa altera a tonalidade vocal engana quem se deixa levar pelo clima lo-fi minimalista construído para seu segundo disco, Party. Em “Imagine My Man”, ela relaciona o amor com a distância, sustentando que a descoberta sentimental precisa de tempo. Já na faixa-título, ela se aventura numa descoberta amorosa, com a voz de quem não perdeu a inocência, tampouco a esperança de ser feliz. Para cada canção, Aldous sabe como responder emotivamente com a tonalidade da voz. Na maioria das vezes ela não tem receio de soar obscura, reflexiva, afastada, sem deixar pistas para guiar o ouvinte. Por isso mesmo, Party exige percepção e cumplicidade. Uma vez que isso é atingido… Fica difícil não se maravilhar com Aldous Harding.


14. Canções para Depois do Ódio

Marcelo Yuka

Gravadora: Sony
Data de Lançamento:
7 de janeiro de 2017

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Há muitas vozes no álbum que sucede o já longínquo Sangueaudiência (2005): Céu, Barbara Mendes, Bukassa Kabenguele, Cibelle, Seu Jorge, Black Alien… Mas a grande força do novo disco de Marcelo Yuka é o caminho traçado pela percussão. Em “Assim é a Água”, ela segue a fluidez do líquido. O looping da bateria de “Por Pouco” dá um dinamismo jazzístico ao tema e os efeitos ao longo de “Agora Nesse Momento” parecem acompanhar um ritual. O ex-baterista de O Rappa aponta diversos caminhos pacíficos ao longo do disco, revelando preocupação com a natureza, com o caos social e com o pânico de tempos incertos. Para tudo isso, ele propõe refletir. Em “Até Você”, praticamente clama para abandonar o medo. Não fosse pela estética que une sons modernos a um tipo de samba cadenciado, “Movimento da Massa” poderia muito bem ter sido entregue ao Rappa – afinal, remonta bem aos primeiros anos da banda, quando Yuka era o principal compositor. De qualquer forma, Canções para Depois do Ódio é o marco de uma nova fase para o músico: mais esperançoso e mais maduro, ele relembra que é preciso força e vontade para seguir adiante.


13. Plunge

Fever Ray

Gravadora: Rabid
Data de Lançamento:
26 de outubro de 2017

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Difícil admitir, mas o Fever Ray lançou um disco superior ao derradeiro do The Knife: Shaking the Habitual, de 2013. A sueca Karin Dreijer Andersson soube dosar o aspecto flamejante do projeto que mantinha com o irmão com a eletrônica mainstream. Não há muitas delimitações para Plunge: poderia dizer techno-industrial, mas a sonoridade maníaca por trás de temas como “Wanna Sip” e a despretensiosa “This Country” tem lá seu pé firme na new-age. “To the Moon and Back” é a que mais lembra os tempos idos de Knife, com efeitos de gatinhos num esquema drum’n bass intrépido e “An Itch” se adequaria muito bem como tema principal de um filme de ficção científica bizarro. Frenético em todos os sentidos, Plunge é o disco que melhor captura o mundo digital de hoje: cheio de irreverência, na mesma intensidade em que é ansioso e precoce demais. Um álbum de música eletrônica personalista, mais compatível com a individualidade dos muitos perfis inseridos nesse mundo digital do que com as pistas.


12. PARADISO

Chino Amobi

Gravadora: NON/UNO NYC
Data de Lançamento:
5 de maio de 2017

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O álbum chama-se PARADISO, mas o que se testemunha é um dos atos musicais mais violentos de 2017. Tempos obscuros, né? Pense em como seria colocar todas as apreensões, receios, decepções e iras dentro de uma transmissão radiofônica: talvez o resultado chegasse próximo ao primeiro disco de Chino Amobi, músico de Virginia (EUA) que trabalha com colagens, IDM, industrial e horrorcore. É mais ou menos como interligar o recente Black Origami, de Jlin, ao …Endtroducing (1996), de DJ Shadow. “BLOOD OF THE COVENANT” encapsula a raiva de um Run the Jewels 2 num industrial apocalíptico. “THE FAILED SONS AND DAUGHTERS OF FANTASIA” põe todo o ambiente em alarme, deixando o ouvinte preparado ao que parece ser uma aventura aterradora pela sobrevivência. Um game de ação certamente se tornaria ainda mais virulento com a trilha aqui proposta – e ela vai se radicalizando, à medida que o desconforto já está atiçado. Quando chega “BLACKOUT”, o ouvinte já tá familiarizado com o caos. “POLIZEI” parece um ritual de cooptação, emoldurando a rotina de muita gente que abdica da vida social para se manter conectado. Pode parecer absurdamente distópico, mas PARADISO não só entende que a humanidade ultrapassou os limites; ele capta, também, a forma como sobrevivemos a tudo isso. Lutando, sempre. E, na maioria das vezes, perdendo.


11. Ctrl

SZA

Gravadora: Top Dawg Entertainment/RCA
Data de Lançamento:
9 de junho de 2017

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A trinca de EPs lançadas na Top Dawg – See.SZA.Run (2012), S (2013) e Z (2014) – colocaram em cena uma cantora de R&B com estilo próprio. Seria o dinamismo, porém, que iria definir sua carreira, e ela deve ter sentido um pouco desse rebuliço no dueto com Rihanna em “Consideration”, que abriu alas de forma magistral ao disco ANTI (2016). Em Ctrl, porém, finalmente vimos que a longa espera valeu a pena. Sensualidade é um tema que SZA aborda muito bem, vide a boa parceria com Kendrick Lamar, parceiro de gravadora, em “Doves in The Wind”. É nos confrontos emocionais, porém, que vemos ela estender seu potencial. É isso que fez de “Drew Barrymore” um single poderoso no decorrer do ano, embora a direção musical de “The Weekend” tenha uma carga de emoção ainda mais densa. E, sim, a parceria dela com Travis Scott em “Love Galore” deu certo (até mais que a com o Kendrick, viu!).


Capa do disco Utopia, de Björk

10. Utopia

Björk

Gravadora: Little One Indian
Data de Lançamento:
24 de novembro de 2017

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Quem diria que flautas, pássaros e mensagens positivas pudessem ser manifestações de um tipo de protesto? Assim como propôs em Medúlla (2004), reação ‘humanística’ aos disparos de ódio e xenofobia por parte dos norte-americanos pós-11 de setembro, Utopia vem para nos lembrar que o amor pode ser uma arma. Arma contra a intolerância, contra os ressentimentos do passado (no caso dela, uma resposta a Vulnicura, de 2015, seu disco de rompimento amoroso). Arma política, também. O próprio fato do amor ser idealizado diz muito sobre a forma com que Björk pretende lidar com o mundo. Em “The Gate”, a repetição ‘eu me importo com você’, sob sons fugidios de pássaros e um quinteto de sopros, busca a transcendência do sentimento. Ela tenta redimir a dor perpetrada no disco anterior com uma espécie de elixir musical, em “Body Memory”. Porém, nem tudo é tão pacifista assim no disco. Em “Losss”, o colaborador Arca ajuda a islandesa a criar um pano de fundo caótico, com ecos da IDM pós-digital que ela tinha explorado em Biophilia (2011). “Claimstaker” é outra das belas flutuações de Utopia: é como se Björk se integrasse à natureza e se tornasse interlocutora dessa paz que anda tão afastada de nossa sociedade. Certamente, mais um para a lista dos grandes trabalhos da islandesa.


9. Cuidado Madame

Arto Lindsay

Gravadora: P-Vine/Northern Spy/Ponderosa
Data de Lançamento:
21 de abril de 2017

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Eis uma descrição que diz muito e, ao mesmo tempo, não diz nada: “a exploração cultural do nexo da espiritualidade afro-brasileira e a modernidade ocidental”. É preciso um pouco de contexto. Arto Lindsay foi um dos maiores nomes da no-wave dos anos 1980 nos Estados Unidos, aquele movimento de noise que contestava o punk, o rock e a música comercial em geral com agressividade, numa música nem sempre agradável. Sua infância e adolescência em Garanhuns (Pernambuco), porém, lhe deu bagagem para conhecer nomes como Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, entre outros. Ele chegou a produzir discos de Marisa Monte, Orquestra Contemporânea de Olinda e do próprio Caetano, mas em Cuidado Madame foi ainda mais além na fusão de suas influências. Do ponto de ebulição entre o caos sonoro das músicas brasileira e norte-americana, ele encontrou novos pontos melódicos (“Each to Each”) e provocou interessantes fricções (“Vão Queimar ou Botando pra Dançar”). Além disso, ele desenvolveu um estilo de entoar o clássico formato de canção brasileira de um modo particular. Em “Ilha dos Prazeres”, ele recorre à força da composição imagética. Já “Seu Pai” é dotada da indefectível influência da poesia baiana (coisa de Lucas Santtana, que a compôs).


8. Esú

Baco Exu do Blues

Gravadora: Cremenow Studio
Data de Lançamento: 4 de setembro de 2017

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A busca da espiritualidade passa por conflitos, muitas vezes exasperantes. O rapper de Salvador Baco Exu do Blues já havia mostrado o extremismo desse conflito no ano passado, com o single “Sulicídio” – motivado, claro, pela predominância do eixo Rio-SP quando se fala de uma cena de rap nacional. O álbum Esú, porém, coloca em plano individual a crise de existência: ‘As pessoas perguntam porque eu falo tanto de Deus/É porque eu sou humano’, responde, na lata, em “En Tu Mira”. Sem pedir licença, Baco evoca os Orixás em “Abre Caminho”, não poupa reverências à música de Chico Science em “Capitães da Areia” e fala de suas andanças noturnas, em “A Pele Que Habito”. E, claro, não podemos deixar de mencionar uma das melhores love songs do rap já feitas nos últimos anos: “Te Amo Disgraça”, que fala dos conflitos comuns de um casal cheio de paixão.


7. DAMN.

Kendrick Lamar

Gravadora: Aftermath/Interscope/Top Dawg Entertainment
Data de Lançamento: 14 de abril de 2017

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To Pimp a Butterfly (2015) foi um projeto ambicioso que exigiu que Kendrick Lamar montasse praticamente uma big band e um esquema portentoso de palco que inviabilizou sua execução no clássico formato DJ-MC. O rapper disse que ouviu muitos de seus amigos reclamando que não podiam mais colar em seus shows, então ele decidiu fazer um retorno às bases. Mais samples, mais produção e mais agressividade, e temos um álbum que responde com voracidade à onda de conservadorismo da sociedade norte-americana. Ele chega a citar Trump em “XXX”, parceria com o U2, mas a um preço previsível: ‘Perdemos Barack Obama e prometemos não duvidar dele de novo‘ – como se Obama tivesse sido a solução… De qualquer forma, é no confronto com as simbologias de “DNA” e “HUMBLE” que Kendrick potencializa sua representatividade dentro do rap. Suas jornadas espirituais estão mais complexas, como ele nos mostra em “FEEL” – e como ele anda impaciente em estabelecer novas relações com as pessoas, em “FEAR”. Quanto a “LOYALTY”, só um comentário: tem poder de sedução viciante.


6. MASSEDUCTION

St. Vincent

Gravadora: Loma Vista/Concord
Data de Lançamento: 13 de outubro de 2017

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Annie Clark é uma artista impenetrável, e MASSEDUCTION amplia ainda mais o distanciamento de sua individualidade. Mesmo em “Pills”, em que chama a ex-namorada Cara Delevingne para uma participação, o assunto tem a ver com vício. Se por um lado o teor pessoal se apaga, por outro a linha fina que a insere no contexto da sociedade de consumo fica ainda mais delgada. Assim como nós, caros leitores, Annie é parte conjuntural da massificação que tanto adoramos criticar. ‘Não posso desligar aquilo que me excita’, diz ela na faixa-título. O teor visual criado para MASSEDUCTION mostra excessiva preocupação com as aparências, como ficou bem estampado nos clipes de “Los Ageless” e “New York”. Como é comum nos trabalhos de St. Vincent, é a imersão no universo criado que permite gerar a crítica. Aqui, os excessos são transparecidos na sonoridade plastificada: do eletrônico industrial de “Sugar Boy” à saturação de “Fear the Future”, Annie nos dá pistas de como estamos armando trapaças a nós mesmos em um contexto de informações para todos os lados. Surgem, então, os personagens: a desesperada que procura respostas nas orações, a devoção de quem perdeu seus ídolos, a solitária que redime seus erros… Em alguns pontos certamente há fragmentos autobiográficos, mas o mais legal é perceber como esses pequenos roteiros se encaixam na contemporaneidade.


5. Roteiro para Aïnouz Vol. 3

Don L

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
23 de junho de 2017

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Há muita coisa a se discordar do primeiro disco do rapper cearense Don L: em “Não Fazia Sentido” (com participação de Terra Preta), por exemplo, ele joga uma pontinha de faísca na dinâmica da MPBização do rap nacional, que parece ter cooptado Criolo e Emicida ao lado de Caetano Veloso e a produtora Paula Lavigne. “Artisticamente, acho que eles construíram algo foda, mas eles também são reféns desse jogo que é viver e trabalhar dentro do contexto da música brasileira”, disse o rapper à Vice. “Cocaína”, com guitarra viajante do conterrâneo Fernando Catatau, dá o roteiro de uma noite junkie. Essas contradições surgem porque Don L não veio para ser exemplo. Em Roteiro pra Ainouz Vol. 3 – uma trilogia que começa com o final, fazendo referência ao cineasta cearense Karim Aïnouz (de filmes como Madame Satã e O Céu de Suely) – é a vivência em sua forma mais sórdida que conduz o ouvinte. Don L tem um flow que parece meter o facão em escalas musicais. Ao lado de Diomedes Chinaski, em “Eu Não Te Amo”, ele responde às emoções, indo da melancolia ao sarcasmo com invejável naturalidade. “Laje das Ilusões” une diversas expressões do dub num maquinário sonoro (coisa da produção de Leo Justi), enquanto Don L soa como o relógio tilitante lembrando da sórdida passagem do tempo.


4. Flower Boy

Tyler, the Creator

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento:
21 de julho de 2017

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Enquanto rimava sobre garotos pervertidos, violência e, não raro, disparava algum comentário de teor homossexual, Tyler, the Creator aprimorou sua técnica de produção. Mas, o que temos em Flower Boy supera qualquer projeção: temos o rapper pedindo desculpas, revelando sua intimidade, mostrando-se um cara sensível, cheio de vulnerabilidades, quase um soulman. Foi um trajeto que lembrou o que Frank Ocean fez há alguns anos: quando estava prestes a lançar channel ORANGE (2012), confessou ter se apaixonado por um amigo na adolescência. Em “911/Mr. Lonely”, muitos ficaram impressionados quando ele surgiu com o seguinte verso: ‘beijando caras brancos desde 2004’. Em “Where This Flower Blooms”, ele mostra um tipo de personagem que não conhecíamos: um Tyler reflexivo, sentimental e que, de acordo com a primeira (e estonteante) “Foreword”, tem medo de não ser lembrado. Ao lado de Kali Uchis, Tyler veste a camisa do R&B na bela “See You Again”. Apresentar um lado sentimental garantiu a Tyler o benefício da dúvida quanto à sua conturbada personalidade – o que não quer dizer que ele transfigurou completamente sua obra. Flower Boy também é dotado de canções incendiárias, como “Who Dat Boy” (com A$AP Rocky) e a pesadona “I Ain’t Got Time!” (que foi entregue a Kanye West, mas recusada).


3. Take Me Apart

Kelela

Gravadora: Warp
Data de Lançamento:
6 de outubro de 2017

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Do tempo que separa a mixtape Cut 4 Me (2013) para seu primeiro álbum, Take Me Apart, Kelela encantou nomes de Damon Albarn a Solange, preenchendo seu currículo com várias colaborações valiosas. Nenhuma delas, no entanto, chega aos pés de seu disco. Ela criou um roteiro de oscilações emocionais que, visto à distância, parece banalidade. Take Me Apart nada mais é do que a narração de um namoro pingue-pongue. Mas os aprendizados, as vivências, as extrapolações nas conversas, no sexo, na sociabilização… Os rompimentos de “Enough” e “L.M.K.” são rodeados por um cataclisma musical que dá uma dimensão vulcânica às emoções da cantora. O R&B não é o bastante para defini-la: ambient, avant-garde e eletrônica também entram numa soma estética que busca expressar, com criatividade, o verdadeiro significado dessas experiências sentimentais. Mesmo com todas as coisas ruins do relacionamento, Kelela mantém-se positiva, como endossa na reverberante “Blue Light”. Na última faixa do disco, “Altadena”, ela dá um contexto social a toda essa experiência individual. Sim, o amor é capaz de fazer as pessoas melhores – mesmo que não resulte em um final feliz.


2. Peasant

Richard Dawson

Gravadora: Weird World
Data de Lançamento:
2 de junho de 2017

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Superstições. Medo. Religiosidade. Relações conturbadas. Seria um panorama de nossos tempos? Na verdade, não. Em seu 6º disco, Richard Dawson foi a um passado longínquo, da era medieval do norte da Grã-Bretanha. A mais óbvia análise é de que Peasant faz um paralelo aos nossos tempos. Seria uma análise parcialmente verdadeira, mas que esconde a verdadeira preciosidade: um simplismo arrogante. Canções como “Ogre” e “Weaver” têm os choirs e um tipo de ingenuidade melódica das músicas folclóricas antigas. Dawson injeta complexidade em todo esse ambiente, seja ao recriá-lo com detalhes extraídos de técnicas literárias ou propondo diálogos entre personagens comuns à época. Em “Prostitute”, por exemplo, as lembranças da personagem mencionam o assassinato de seu pai e uma desilusão que se traveste em raiva: ‘Em outra vida/Se eu tivesse filhos/Separaria-os de meu peito/E iria transportá-lo para longe deste país de demônios feitos de carne’. Cada música de Peasant trata de quebrar os arquétipos que construímos de personagens mágicos e fictícios. No intrincado folk de “Scientist”, temos o embate da lógica contra o fantasioso – representado pelo status quo da época. “Beggar” dá holofote ao aspecto sentimental de um morador de rua que não esqueceu do rompimento de uma antiga paixão, devido à obscuridade da época de caça às bruxas. São muitas histórias fantásticas, num escopo sonoro que pode fazer com que, finalmente, você entre de vez no universo de Richard Dawson – um músico injustamente chamado de ‘difícil’, quando na verdade trata-se de um dos mais criativos de nossa era.


1. São Paulo Não é Sopa

Aláfia

Gravadora: Agogô Cultural
Data de Lançamento:
10 de fevereiro de 2017

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Dos muitos exemplos de tentar compreender uma cidade grande como São Paulo, muitos músicos caem na armadilha de achar que existem características que unificam os cidadãos. A distância física de periferias dos bairros mais nobres da cidade resulta em perfis igualmente distanciados: existem visões de mundo absurdamente diferentes de um ponto a outro. Portanto, dizer que o paulista é isso ou aquilo ultrapassa o reducionismo. Porque uma cidade dessa envergadura é mais excludente do que muitos imaginariam.

Por isso, o próprio título do novo disco do Aláfia, São Paulo Não é Sopa, é oportuno: não dá pra colocar tudo no mesmo prato. A truculência da polícia, as manifestações conflitantes, trens e ônibus lotados, intolerância religiosa: todos esses elementos são confrontados de frente, seja na faixa-título, ao som das ruas (em “No Fluxo”) ou num tipo estranho de capitalismo, como denuncia o grupo em “Liga nas de Cem”. Em “Gentrificação”, fala sobre como a especulação imobiliária na cidade tem aumentado ainda mais a exclusão na cidade.

São Paulo Não é Sopa é um soul-funk desiludido, que remonta à estética de There’s a Riot Goin’ On (1971), de Sly and Family Stone. A fusão híbrida contempla funk, rap e samba, expressões populares que se convergem na trilha sonora de cotidianos corridos e fustigantes. Mesmo com indelével tom sórdido, o grupo tenta trazer cor a paisagens de vielas, favelas, ruas esburacadas, revelando diferentes aspectos de uma cidade que vai muito além do trabalho. Existem histórias e mistérios que fazem de São Paulo muito mais interessante e complexo do que se pincela.

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E tem playlist no Spotify com uma música de cada disco – com exceção de JAY-Z, que não disponibilizou o álbum na plataforma:

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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